O novo papel do BNDES na onda de investimentos em infraestrutura
Ao abandonar subsídios e dividir riscos com o mercado de capitais, banco de fomento atrai investidores para grandes obras no país
Ao abandonar os subsídios e convidar o mercado de capitais para dentro dos projetos, o BNDES criou o ambiente ideal para uma onda inédita de investimentos em infraestrutura
Poucos bancos públicos no mundo carregam um histórico tão marcado por turbulências políticas quanto o BNDES. Criado em 1952, o banco de fomento brasileiro foi ao longo de décadas um reflexo das prioridades de cada governo — ora instrumento de nacionalismo econômico, ora veículo de escolhas que obedeciam à lógica eleitoral. Financiamentos bilionários a campeões nacionais que nunca decolaram, empréstimos subsidiados a empresas com acesso privilegiado ao poder e projetos aprovados com critérios opacos mancharam durante anos a reputação da instituição. A Operação Lava-Jato, de 2014 a 2021, expôs de forma contundente essa vocação. Empreiteiras que cresceram à sombra do banco desmoronaram, e o BNDES emergiu do período com a credibilidade em xeque. Mas algo parece estar mudando. Desde 2023, sob a presidência do economista Aloizio Mercadante, o banco adotou uma postura diferente — e os investimentos em infraestrutura sugerem que a mudança é para valer. “Nossa equipe é pragmática”, afirma Luciana Costa, diretora de infraestrutura do BNDES. “Os nossos critérios são estratégicos, técnicos e comerciais, sem viés político-ideológico.”
Ao abandonar os subsídios em suas linhas de crédito, o BNDES abriu espaço para que bancos privados e o mercado de capitais entrassem com força no financiamento de obras de longo prazo, como rodovias, ferrovias, metrôs, portos, aeroportos e redes de saneamento. O resultado aparece nos números: em 2025, o Brasil investiu quase 300 bilhões de reais em infraestrutura, o maior volume em seis anos de altas consecutivas. “A multiplicação dos fundos de investimento em infraestrutura e as debêntures incentivadas trouxeram um ganho enorme em capilaridade para a sustentação financeira do setor como um todo”, diz Luciana. “Hoje, o Brasil tem milhões de pessoas investidoras em infraestrutura. Esse círculo virtuoso não teria sido possível apenas com recursos do orçamento público.” Ela adiciona que o banco deixou de atuar apenas como repassador de recursos subsidiados para assumir o papel de cofinanciador, dividindo espaço com o setor privado em vez de competir com ele. O mercado respondeu de forma positiva: em 2025, as debêntures incentivadas — títulos isentos de imposto de renda para pessoas físicas e amplamente usados em projetos de infraestrutura — movimentaram recordistas 175 bilhões de reais.
Na ponta do lápis, estão em andamento 360 obras significativas de infraestrutura em todas as regiões do país, segundo a plataforma especializada em engenharia pesada ConVisão. Fazem parte desse universo os segmentos de mobilidade urbana, rodovias, ferrovias, saneamento, portos, aeroportos, energia e logística. Entre as megaconstruções, sobressaem obras como o monotrilho do Aeroporto de Congonhas ao Morumbi, em São Paulo, inaugurado parcialmente em março, a barragem sobre o arroio Jaguari, no interior do Rio Grande do Sul, e a rodovia Transnordestina, que conecta Piauí, Ceará e Pernambuco por 1 200 quilômetros de asfalto. Nos cálculos da Abdib, a associação das empresas do setor de infraestrutura, o conjunto das grandes obras gerou 6 milhões de empregos nos últimos anos.
A qualidade do ambiente regulatório brasileiro — aperfeiçoado desde a lei de concessões de 1995 e, sobretudo, pela nova lei de licitações nº 14 133, de 2021 — atraiu alguns dos maiores grupos de construção pesada do mundo. A espanhola Acciona, com operações em quarenta países, conduz a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo: são quinze estações em 15 quilômetros de extensão, a maior obra de infraestrutura em execução na América Latina. “Ao lado de Estados Unidos e Austrália, aqui temos as nossas maiores operações fora da Espanha”, diz André De Angelo, CEO da empresa no Brasil. A Acciona também prepara a execução de obras de saneamento em regime de parceria público-privada no Paraná, no Espírito Santo e em Pernambuco. “O modelo regulatório do Brasil para a área de infraestrutura está entre os mais avançados do mundo, o que explica o interesse das empresas e o atual ritmo de desenvolvimento acelerado do setor”, acrescenta o executivo. A percepção é compartilhada por investidores de diversos países que chegam aqui com projetos na bagagem. “Temos hoje o melhor modelo de estruturação de projetos de infraestrutura do mundo”, diz Venilton Tadini, presidente da Abdib.
As privatizações de companhias estatais também têm contribuído para o aumento dos investimentos na infraestrutura brasileira. Sucessora da Eletrobras, a Axia Energia anunciou em abril aportes de cerca de 6 bilhões de reais, até 2030, para a modernização de 124 subestações de energia em diversos estados. “Esse patamar de investimentos reflete o compromisso com a eficiência operacional dos nossos ativos, sempre com foco nos resultados para os acionistas”, afirma Elio Wolff, vice-presidente de estratégia e desenvolvimento de negócios da Axia. Listada na B3, a bolsa de valores de São Paulo, a empresa aprovou no fim do ano passado a distribuição de 30 bilhões de reais aos acionistas, por meio da entrega de novas ações.
Nesse ecossistema, a Abdib funciona como uma ponte entre empresas, bancos de fomento e fontes de financiamento. A entidade é responsável pelo chamado Livro Azul, publicação disponível em cinco idiomas e distribuída para todas as representações comerciais brasileiras no exterior. Nele, empresários e investidores encontram informações atualizadas sobre projetos em oferta e o andamento dos que já estão em execução. O objetivo é atrair capital estrangeiro para uma carteira de projetos que só cresce. “Entre os primeiros estudos e o início de uma grande obra de infraestrutura, o Brasil leva de um ano e meio a dois anos para completar todo o processo”, diz Roberto Figueiredo Guimarães, diretor da Abdib e ex-secretário do Tesouro. “Estamos em linha com os países mais avançados do mundo.”
A agilidade é fruto da modernização jurídica dos contratos, que também gerou novos instrumentos de proteção ao investidor. “O modelo do seguro de garantia advém dessa modernização: tem custo menor e maior proteção aos investidores em caso de problemas financeiros no curso das obras”, diz André Dabus, diretor de infraestrutura e construção da corretora americana de seguros Marsh, a maior do mundo para grandes obras. Se durante décadas a infraestrutura brasileira foi sinônimo de atraso, insegurança regulatória e dependência do Estado, o cenário agora é outro. Com regras mais claras, capital privado mais abundante e um banco de fomento disposto a dividir riscos em vez de concentrá-los, o país começa, enfim, a construir não apenas obras, mas um novo modelo de desenvolvimento.
Publicado em VEJA, abril de 2026, edição VEJA Negócios nº 25







