‘O mercado das canetas ainda está só no início’, diz Carlos Sanchez, presidente do conselho da EMS
Empresa é a primeira farmacêutica a receber uma licença para produzir os medicamentos similares ao Ozempic no Brasil
Ele já foi chamado de “rei dos genéricos”. Era essa a alcunha que frequentemente vinha colada a Carlos Sanchez, presidente do conselho de administração e principal sócio do Grupo EMS, em reportagens dos anos 2000. O mercado dos genéricos tinha acabado de ser aberto no Brasil, em 1999, e a farmacêutica da família Sanchez rapidamente galgou seu espaço entre as maiores produtoras desse tipo de produto no país. Duas décadas depois, a EMS passa por uma transformação e quer se consolidar também como uma empresa de inovação. “Queremos fortalecer a propriedade intelectual e desenvolver produtos cada vez mais complexos”, disse Sanchez em entrevista a VEJA NEGÓCIOS. Foi a expertise com genéricos, aliada aos investimentos arrojados em pesquisa, que permitiu à companhia ser a primeira a oferecer versões brasileiras das novas canetas para diabetes e obesidade, tão logo as patentes de marcas como Ozempic começaram a cair. Foi também o que ajudou a empresa a conquistar o status de empresa do ano entre as TOP30 de 2026.
A patente da semaglutida, o princípio ativo do Ozempic, foi derrubada em março no Brasil, mas a EMS tinha um pedido para comercializá-la desde 2023. Por quanto tempo a empresa se preparou para isso? A entrada da EMS nos análogos de GLP-1, um hormônio do corpo que dá a sensação de saciedade, é resultado de um planejamento iniciado muitos anos antes do vencimento das patentes. Na indústria farmacêutica, inovação não acontece de um dia para o outro. O desenvolvimento de um medicamento exige pesquisa, domínio tecnológico, desenvolvimento do processo produtivo, estrutura regulatória e preparação da capacidade de fabricação. Esperar o fim da patente para começar esse trabalho significaria chegar tarde ao mercado. Foi uma decisão de investimento arriscada, feita há mais de dez anos, mas que, felizmente, se mostrou acertada.
O que foi feito nesses mais de dez anos de investimentos para entrar no mercado das canetas? Mais do que desenvolver um medicamento, queríamos construir no Brasil uma plataforma tecnológica completa para peptídeos, que são a estrutura do GLP-1 e seus análogos, que compõem as canetas. Ter essa plataforma significava poder desenvolver diferentes tipos de peptídeos, não só a semaglutida. Investimos mais de 1,2 bilhão de reais nisso, incluindo o estabelecimento de nossa fábrica de peptídeos, a primeira do Brasil, inaugurada em Hortolândia em 2024. Ela tem capacidade inicial para produzir até 20 milhões de canetas por ano, podendo ser ampliada para 40 milhões conforme o crescimento da demanda. Foi toda essa preparação que permitiu que a EMS chegasse primeiro.
Qual é a grande inovação trazida pelas canetas emagrecedoras? A prevalência de pessoas com diabetes e obesidade na população é muito grande. As canetas trouxeram para elas uma combinação de eficácia, benefícios metabólicos e conveniência, porque só precisam ser aplicadas uma vez por semana. E é um mercado que ainda está só no início. Ainda existe um contingente enorme de pacientes a se beneficiar dessas terapias nos próximos anos.
“A demanda para o tratamento de obesidade e diabetes é enorme e muito maior do que a oferta disponível”
A EMS já tem a Olire e a Lirux, de liraglutida, lançadas no ano passado, e o Ozivy, o análogo do Ozempic, de semaglutida, no mercado desde junho. Qual é o potencial de vendas desses produtos? As canetas são uma nova frente estratégica de crescimento para nós e têm potencial para estar entre as principais marcas da companhia. Os resultados de todas elas superaram as expectativas. O Ozivy já é a sexta marca mais vendida no Brasil de todo o segmento de prescrição médica, de acordo com a consultoria Close-up, e isso só dois meses depois de ser lançado.
A patente do Mounjaro, à base de tirzepatida, só cai em 2036 no Brasil. A EMS planeja fabricar similares dele também? A tirzepatida é uma inovação importante dentro desse mercado e, naturalmente, está no nosso radar. E, como eu disse, a nossa fábrica de peptídeos vai muito além da semaglutida. Não fazemos uma molécula específica; investimos para ter uma plataforma que, justamente, nos possibilite fazer diferentes moléculas e produzi-las assim que seja permitido. No Brasil, a tirzepatida ainda demora, mas já fizemos o pedido para comercializá-la nos Estados Unidos, por exemplo. Está em processo de análise técnica, mas é um grande passo na nossa estratégia de entrar nesse mercado nos Estados Unidos.
Com a queda da patente do Ozempic, os concorrentes nacionais estão chegando rápido. Como vocês se prepararam para isso? A entrada de novas empresas é um movimento natural e é positiva para o mercado. Ela aumenta a capacidade de abastecimento e amplia as opções para os pacientes. A demanda para o tratamento de obesidade e diabetes no Brasil é enorme e muito maior do que a oferta disponível. A escassez de produtos e os preços altos estimularam, inclusive, a formação de um mercado paralelo. Com a chegada de novos fabricantes, esse cenário tende a mudar. O aumento da oferta vai reduzir a escassez, ampliar a oferta dos produtos nas farmácias e reduzir os preços, tornando essas terapias cada vez mais acessíveis para a população. O que deve diminuir é o mercado informal.
A caneta da EMS tem um desconto da ordem de 60% em relação ao Ozempic. O preço pode cair mais? É natural que, com a entrada de novos concorrentes e o aumento da oferta, o preço tenha uma tendência de queda. Esse movimento já começou e faz parte da dinâmica de um mercado que amadurece. O crescimento no número de pacientes tratados vai ajudar a compensar essa redução.
As canetas se tornaram muito populares. Quais cuidados o senhor recomenda? Elas são um avanço relevante no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, mas é importante que não sejam encaradas como produto estético ou uma solução rápida para emagrecer. O acompanhamento médico é indispensável para definir se o tratamento é indicado para cada um, considerando seu histórico clínico, comorbidades e possíveis contraindicações. E elas não atuam sozinhas. É um produto que faz parte de um tratamento mais amplo, que inclui alimentação equilibrada, atividade física e mudanças no estilo de vida. É também fundamental adquirir só produtos regularizados e respeitar todas as orientações de armazenamento do medicamento, que deve ser refrigerado.
O mercado dos genéricos é, por definição, um negócio facilmente copiável. Como vocês lidam com isso, para não perder margem de lucro? Os genéricos estão longe de se resumir à cópia da marca de referência. Ter competitividade com eles depende de qualidade, confiança e velocidade no desenvolvimento, para lançar os produtos assim que as patentes expiram. Foi assim que a EMS construiu sua liderança nos genéricos. Eles seguem muito importantes para nós e continuarão crescendo. Mas, nos últimos anos, também ampliamos significativamente a nossa atuação em inovação, trazendo novas formulações e tecnologias para os medicamentos que oferecemos. Essa é a nova era em que a EMS está. Queremos fortalecer a propriedade intelectual e desenvolver produtos cada vez mais complexos.
“Queremos fortalecer a propriedade intelectual e desenvolver produtos mais complexos”
É difícil inovar no Brasil? O Brasil evoluiu muito na capacidade científica e na infraestrutura voltada à pesquisa. Quando assumi a EMS, em 1988, a indústria nacional tinha uma participação muito menor no desenvolvimento de tecnologias próprias. Hoje, as farmacêuticas brasileiras investem em pesquisa e medicamentos de alta complexidade e competem em um patamar muito diferente. Desenvolver novas soluções continua sendo um processo complexo, que exige investimentos elevados, ambiente regulatório previsível e ampla integração entre as empresas, universidades e instituições públicas. Quanto maior essa colaboração, maior a capacidade de transformar conhecimento científico em soluções que efetivamente cheguem aos pacientes.
Qual a sua avaliação sobre o Sistema Único de Saúde, o SUS? O SUS é uma das maiores conquistas da sociedade brasileira. Poucos países com o território, a população e a renda do Brasil oferecem um sistema universal capaz de garantir atenção básica, vacinação, tratamentos de alta complexidade e acesso a medicamentos para milhões de pessoas. Ele tem, claro, desafios importantes de financiamento e gestão. Superá-los exige planejamento, melhor integração entre os governos e boas avaliações de resultados. Fortalecer a produção nacional de medicamentos é também um ponto estratégico. A pandemia mostrou a importância de reduzir a dependência externa, e a nossa indústria é essencial para isso.
A sociedade está envelhecendo, o que implica uma demanda crescente por serviços de saúde. Como os senhores sentem essa transição nos negócios? O envelhecimento da população é uma conquista do aumento da expectativa de vida e dos avanços da medicina, mas também um dos maiores desafios para os sistemas de saúde nas próximas décadas. Cresce a demanda por tratamentos para doenças crônicas, como diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, respiratórias, câncer, osteoporose e enfermidades neurológicas. A inovação passa a ter um papel ainda mais estratégico, não apenas para tratar doenças, mas para contribuir para um envelhecimento com mais qualidade de vida.
Publicado em VEJA, agosto de 2026, edição VEJA Negócios nº 29






