O megaprojeto de IA no Paraguai que vai retirar energia do Brasil
Campus de US$ 12 bilhões prevê até 1,3 GW e pode acelerar a redução do excedente de Itaipu vendido ao mercado brasileiro
O Paraguai está avançando com um megaprojeto de inteligência artificial de US$ 12 bilhões que tende a reduzir ainda mais a quantidade de energia de Itaipu disponível ao Brasil. O Iguazú AI City, da Araico Corporation, prevê um campus de data centers de até 1,3 gigawatt no Alto Paraná e negocia com a estatal ANDE o fornecimento de cerca de 280 megawatts nas primeiras etapas. Nesse tamanho inicial, o complexo poderia consumir sozinho o equivalente a mais de 20% de toda a energia paraguaia de Itaipu cedida ao mercado brasileiro em 2025.
O movimento ocorre justamente quando esse excedente já está encolhendo rapidamente. No ano passado, o Paraguai cedeu ao Brasil 10. 455 GWh de sua parcela da produção da hidrelétrica. Em 2023, havia sido 22. 203 GWh. Em apenas dois anos, portanto, a quantidade caiu 53%, acompanhando o forte crescimento do consumo de eletricidade no país vizinho.
A conta do novo projeto ajuda a mostrar o tamanho da mudança. A Araico prevê começar com apenas 6 MW, mas chegar a aproximadamente 280 MW nas etapas anunciadas para os próximos anos. Se essa potência operar de forma praticamente contínua, como costuma ocorrer em grandes centros de processamento de dados, a demanda anual ficaria entre 2,2 TWh e 2,45 TWh — algo entre 21% e 23% de todo o excedente paraguaio enviado ao Brasil em 2025.
No longo prazo, a empresa apresenta o Iguazú AI City como uma plataforma capaz de alcançar 1,3 GW. Nessa escala, o consumo anual poderia superar 10 TWh, uma quantidade próxima de todo o excedente paraguaio de Itaipu que chegou ao mercado brasileiro no ano passado. Isso não significa, porém, que toda essa energia sairia da hidrelétrica: a própria companhia afirma que pretende incorporar geração privada nas expansões posteriores.
O projeto não exige uma mudança no Tratado de Itaipu. Na realidade, ele se beneficia de uma regra existente desde a assinatura do acordo, em 1973. A produção da usina pertence em partes iguais a Brasil e Paraguai. Cada país tem direito a adquirir a parcela que o outro não utiliza para seu próprio consumo.
O Brasil, portanto, não perde sua metade da geração. O que diminui é o volume dos 50% paraguaios que sobra depois do consumo doméstico e que historicamente foi absorvido pelo sistema elétrico brasileiro.
Essa diferença é fundamental. Se uma companhia estrangeira instala um data center no Paraguai e usa a eletricidade dentro do território paraguaio, trata-se de consumo interno para os efeitos do Tratado — ainda que a capacidade computacional produzida ali seja vendida posteriormente a clientes nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outro mercado.
É justamente esse movimento que Assunção tenta estimular. Em vez de simplesmente ceder ao Brasil a eletricidade que não consegue consumir, o Paraguai busca usar sua abundância de energia renovável e relativamente barata para atrair data centers, indústrias e outros grandes consumidores.
A transformação acontece em um momento especialmente sensível para os dois países. Brasil e Paraguai ainda discutem a revisão do Anexo C do Tratado, que disciplina as bases financeiras de Itaipu. Pelo entendimento político firmado em 2024, a partir de 2027 o Paraguai deverá contratar toda a potência necessária para atender seu próprio consumo. Também ficou previsto que a energia paraguaia não utilizada internamente poderá ser comercializada livremente no mercado brasileiro.
Quanto mais o consumo do Paraguai aumenta, porém, menor será o volume disponível para essa comercialização.
O impacto sobre a conta de luz brasileira é menos direto do que pode parecer. A redução da cessão paraguaia diminui também uma das parcelas pagas pelo Brasil na tarifa de Itaipu. Por esse motivo, menos energia cedida pelo Paraguai pode até contribuir para reduzir o custo unitário da energia da binacional.
O problema está no que entra no lugar dela.
As distribuidoras brasileiras que recebem cotas de Itaipu passam a contar com uma quantidade menor de energia hidrelétrica e precisam compensar essa diferença no restante do sistema. Se a reposição ocorrer a preços superiores aos de Itaipu, a economia obtida com a redução da cessão pode ser superada pelo custo de comprar energia mais cara de outras fontes.
Há ainda uma questão operacional. Itaipu é uma das grandes hidrelétricas capazes de aumentar rapidamente sua geração nos horários de maior necessidade do sistema brasileiro, inclusive no fim da tarde, quando a produção solar cai. Por isso, sua importância não se resume ao preço médio da energia fornecida.
O megaprojeto da Araico não é, sozinho, responsável pela redução do excedente disponível ao Brasil. O consumo paraguaio já cresce há anos. Mas sua escala mostra como uma mudança estrutural começa a ganhar velocidade: o Paraguai quer deixar de exportar simplesmente eletricidade excedente e passar a usá-la como matéria-prima para atrair investimentos bilionários e vender produtos e serviços de maior valor agregado.
Para o Brasil, a consequência é que uma energia com a qual o sistema elétrico se acostumou a contar por décadas tende a se tornar progressivamente mais escassa.





