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“O Gripen é ótimo. A concorrência está falando besteira”, diz Saab

Em entrevista ao site de VEJA, vice-presidente da companhia que venceu a licitação dos caças afirma que uma boa aeronave não precisa ser 100% nacional e ainda alfineta seus concorrentes: o Gripen é melhor

Por Ana Clara Costa 20 dez 2013, 20h08

Na última quarta-feira, o governo brasileiro causou surpresa ao anunciar, após cerca de duas décadas de espera, o nome do fabricante dos caças que vão reequipar a Força Aérea Brasileira (FAB). As atuais aeronaves que servem a Aeronáutica são os sucateados Mirage 2000, que se aposentarão em 31 de dezembro. A sueca Saab foi a empresa escolhida para o contrato de cerca de 4,5 bilhões de dólares do Ministério da Defesa – e deverá desenvolver 36 caças para a FAB.

As aeronaves Gripen NG ainda estão no papel, o que as deixa atrás das concorrentes do contrato, Dassault (com o Rafale) e Boeing (com o Super Hornet F18), no quesito horas de voo. Mas o governo brasileiro insistiu que se tratava do melhor custo-benefício para o país, tendo em vista que o Gripen custará menos e sua manutenção é mais barata. Após o anúncio da decisão, a companhia francesa e a americana demonstraram frustração, em notas enviadas à imprensa. Mas os franceses foram além, afirmando que o Gripen não pode nem ser comparado a um Rafale. Em entrevista ao site de VEJA, o vice-presidente de Aeronáutica da Saab, Lennart Sindahl, afirmou que a Dassault não tem razão. “Eles estão dizendo besteira. O Gripen carrega mais munição, tem um radar melhor, é mais acessível financeiramente, o que vai consumir menos dinheiro do contribuinte brasileiro”, afirmou Sindahl. Confira trechos da entrevista.

A decisão do governo brasileiro os pegou de surpresa?

Não diria que foi completamente de surpresa. Mas nós estávamos começando a discutir a possibilidade de a decisão ser tomada no ano que vem. No dia do anúncio eu estava com a força aérea sueca fechando um contrato de venda de 60 aeronaves Gripen. No momento em que saí da reunião, comecei a receber mensagens do Brasil informando que algo havia acontecido sobre a questão dos caças. Duas horas depois, recebemos uma carta do governo afirmando que havíamos sido selecionados. Claro que ficamos muito felizes.

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O Gripen é um caça que contém muitas partes feitas em outros países, como Estados Unidos. Alguns analistas dizem que metade da aeronave é estrangeira. Como vai se dar o processo de transferência de tecnologia considerando essa questão?

O Gripen é uma aeronave sueca no sentido em que estamos em total controle de sua tecnologia e produção. O que fazemos diferente com o Gripen é que selecionamos nossos fornecedores cuidadosamente em cada segmento. E é uma das razões que faz com que possamos produzir um caça tão bom quanto os outros, com o preço substancialmente mais favorável. A maior parte dos nossos concorrentes prioriza um produto 100% nacional. Mas isso também significa que o caça fica mais caro em todos os sentidos, inclusive na manutenção. Vou pegar o exemplo do trem de aterrissagem. Em vez de construirmos na Suécia, vamos ao maior e melhor fornecedor para comprá-lo. Vamos ao fabricante que só sabe fazer trem de aterrissagem. É um pouco o que a Embraer faz. Só assim se consegue sucesso no negócio da aeronáutica, quando se tem bons fornecedores. Poderíamos fazer tudo sozinhos, mas sairia muito mais caro e o resultado não é, necessariamente, melhor.

O fato de ser uma aeronave com tantos componentes de fora não tira da Saab o controle, de alguma forma, sobre essa tecnologia?

Não. Temos o total controle. Isso significa que quando trabalharmos com o Brasil, não haverá nada escondido dos olhos e ouvidos dos brasileiros. E ninguém precisará pedir permissão a outro país para modificar o produto. Os caças entregues à FAB serão de total controle dos brasileiros.

Mas as turbinas, que são parte importante da aeronave, por exemplo, são da GE.

Por mais estranho que pareça, a turbina de um caça é uma commodity. É possível comprá-la de muita gente. Isso significa que se a Saab precisar de uma turbina mais potente, ela vai até a GE e a encomenda. Já os franceses ficam à deriva porque não têm como comprar. Os únicos que usam a turbina do Rafale são os caças Rafale. Para melhorá-la, é preciso desenvolver uma nova. Nós temos uma longa tradição de trabalhar com turbinas americanas e nunca tivemos problemas de qualidade, fornecimento, restrições de exportação.

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A Dassault reafirma que o Gripen é muito inferior ao Rafale. Em quê, exatamente?

Desculpe dizer, mas acho que os franceses estão dizendo besteira. Poderia sentar e discutir com eles todos os aspectos das duas aeronaves. Mas, no final, há um aspecto, apenas um, em que o Rafale é melhor: o fato de ele poder carregar armas nucleares. E o Gripen não. O Gripen carrega mais munição, tem um radar melhor, é mais acessível financeiramente, o que vai consumir menos dinheiro do contribuinte brasileiro.

Como será o caça que vai equipar a FAB enquanto o Gripen não fica pronto?

Nós sabemos das negociações que estão sendo tomadas entre a FAB e a força aérea sueca. Há uma possibilidade de entregar caças Gripen CD ao Brasil, que é a geração anterior da aeronave, que é usada pela Suíça, Hungria, República Tcheca, África do Sul e Tailândia.

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Quanto o Brasil vai pagar por isso?

Eu não sei. A discussão é entre as duas forças aéreas. É um negócio separado que não tem a ver com a Saab. E é difícil dizer o preço porque isso depende dos componentes dos caças. Se há armas incluídas no pacote, se há treinamento de pilotos. Esses detalhes nós ainda não sabemos.

A Saab vai financiar os caças para o Brasil?

Não se trata exatamente de um financiamento. Mas consta da proposta a possibilidade de o Brasil começar a pagar apenas quando a última aeronave for entregue, em 2024.

E o Brasil vai adotar essa cláusula?

Ainda não temos nada definido. Tudo será discutido em 2014.

A planta da Saab será em São Bernardo?

Ainda vamos selecionar as indústrias parcerias. O que sabemos é que teremos uma planta em conjunto com a Embraer e vamos trabalhar com a Akaer no design do Gripen. Teremos uma planta em São Bernardo, sim. Mas ainda não definimos que tipo de equipamento, exatamente, será fabricado lá.

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