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O futuro do crescimento americano

O economista Martin Feldstein avalia as perspectivas para o crescimento da economia americana e aposta que, em 30 anos, as crianças de hoje estarão com um padrão de vida melhor do que seus pais — apesar da crise

Por Martin Feldstein 2 fev 2014, 14h06

As previsões de curto prazo para a economia dos Estados Unidos melhoraram devido ao forte avanço na renda das famílias em 2013 e ao fim do aperto fiscal causado pelo aumento dos impostos em 2012. O país agora tem a oportunidade de elevar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita (ajustado pela inflação) mais rápido que o fraco porcentual médio de 1,7% registrado ao longo dos últimos quatro anos, desde que a economia voltou a crescer, na segunda metade de 2009.

É claro que um crescimento econômico mais rápido em 2014 ainda não está garantido. Consegui-lo requer a superação do impacto negativo do aumento dos juros de longo prazo ocasionado pelo anúncio, em junho, de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reduziria seu programa de compras de títulos este ano. Além disso, a sombra do aumento do déficit orçamentário no final da década – e a explosão da dívida pública depois disso – também desestimula investimentos e gastos dos consumidores.

Mas vamos olhar para além de 2014 e nos perguntar o que acontecerá com o crescimento econômico dos Estados Unidos no longo prazo. O órgão do Congresso para os assuntos orçamentários (CBO, na sigla em inglês) estima que o crescimento real per capita do PIB deverá desacelerar de uma taxa anual média de 2,1% nas últimas quatro décadas antes da recessão para apenas 1,6% entre 2023 e 2088.

Martin Feldstein é professor de Economia em Harvard

A razão primária para essa desaceleração é a diminuição do emprego em relação ao contingente populacional, que é reflexo do envelhecimento da sociedade americana, um índice de natalidade menor e a desaceleração da participação da mulher no mercado de trabalho. Enquanto o número de pessoas empregadas cresceu 1,6% ao ano, em média, de 1970 a 2010, o CBO prevê que o porcentual anual de crescimento do emprego deve recuar para apenas 0,4% nas próximas décadas.

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A desaceleração do crescimento per capita do PIB de 2,1% para 1,6% parece significativa. Mas mesmo se esses números são encarados como uma indicação do padrão de vida das futuras gerações, eles não chancelam a preocupação geral de que as crianças de hoje não estarão tão bem na idade adulta quanto seus pais. Um crescimento de 1,6% significa que uma criança nascida nos dias de hoje terá, aos 30 anos, uma renda real que, em média, será 60% superior à de seus pais quando tinham a mesma idade.

É claro que nem todos vão vivenciar esse crescimento. Alguns deverão superar os 60% de aumento e outros não alcançarão este nível. Mas, ainda assim, um adulto de 30 anos em 2044 que vivenciar apenas metade do crescimento médio previsto terá uma renda 30% superior à de seus pais na mesma idade.

Mas as coisas podem ser ainda melhores do que os números mostram. Ainda que as estatísticas do governo tentem mostrar com precisão o crescimento real do PIB no passar dos anos, há dois problemas que devem ser tratados ao se medir o rendimento real de uma população: o aumento na qualidade dos bens e serviços e a criação de novos produtos. Acredito que esses dois problemas possam fazer com que as estimativas oficiais de crescimento do PIB subestimem o aumento do padrão de vida que o PIB real deve indicar.

Levemos em consideração o problema de contabilizar as melhorias na qualidade dos serviços. Se, hoje, eu pago o mesmo preço que no ano passado por algum produto ou serviço, mas a qualidade é melhor, é sinal que meu padrão de vida avançou. O mesmo ocorre se o preço sobe, mas a qualidade melhora ainda mais. Infelizmente, um estatístico do governo não pode avaliar o aumento da qualidade de tudo – de refeições em restaurante até atendimento médico. Assim, quando se verifica apenas o preço de uma refeição ou uma diária de hospital, atenta-se apenas para o aumento de preços e subestima-se o avanço real no padrão de vida.

Avaliar o impacto de novos produtos é ainda mais difícil. Virtualmente, todos usam smartphones, laptops ou tablets. Sabemos o custo de todos esses bens e quanto eles acrescentam no total do PIB nominal de um país. Mas quanto a mais (acima do preço padrão de varejo) os indivíduos estarão dispostos a pagar para manter esses produtos em suas vidas? Ou então qual é o valor, para os pacientes, de uma cirurgia de laparoscopia, remédios que aliviam a ansiedade ou previnem problemas cardíacos?

Em resumo, estou convencido que o padrão de vida real acarretado pelos bens e serviços que compramos está se elevando mais rápido que os dados oficiais revelam. É a realidade hoje – e deve continuar sendo no futuro.

Mas nada disso justifica complacência. Os Estados Unidos podem e devem adotar políticas que resultarão em aumento real de renda de maneira mais rápida que nos dias de hoje. Só que esse assunto ficará para uma próxima coluna.

Martin Feldstein é professor de Economia em Harvard e presidente emérito do National Bureau for Economic Research dos Estados Unidos. Também foi presidente do Conselho de Assessores de Economia de Ronald Reagan.

© Project Syndicate 2014

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