O drama econômico brasileiro entre os tarifaços dos Estados Unidos e da China
País sofre em meio a medidas protecionistas impostas pelas duas maiores potências do planeta
Os Estados Unidos inauguraram um novo capítulo de confronto com o Brasil ao impor uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos. A desculpa é a de combater “práticas desleais” ligadas ao Pix, às regras sobre plataformas digitais e à política ambiental, entre outras justificativas. A medida é economicamente agressiva, politicamente instrumentalizada e torna o Brasil o segundo país do mundo com mais restrições tarifárias para entrar no mercado americano, atrás apenas da China. E pode ficar pior, pois a decisão do governo Lula de acionar a Lei de Reciprocidade, que permite impor sobretaxas ou derrubar patentes em resposta a medidas comerciais unilaterais, tem tudo para incitar o presidente Donald Trump a responder com novas retaliações.
Trata-se do momento mais baixo das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos em 200 anos. Um dos efeitos desse afastamento é a dependência crescente do Brasil em relação à China como parceiro comercial — o que acaba por expor nossos exportadores também aos caprichos protecionistas dos chineses. De lá veio recentemente outra pancada comercial, que já está causando muitos prejuízos por aqui. Frigoríficos de diversos estados brasileiros produzem abaixo de sua capacidade depois de se verem forçados a dar férias coletivas a seus funcionários por causa de outro tarifaço, bem menos falado: a decisão de Pequim, tomada há seis meses, de estabelecer um sistema de cota e sobretaxa para a importação de carne bovina. A cota anual definida para os exportadores brasileiros representa 35% menos do que foi enviado à China no ano passado. A esta altura do calendário de 2026, o limite está prestes a ser ultrapassado. O excedente será submetido a uma taxa de 67%, o que inviabiliza qualquer venda. O tarifaço chinês veio de forma burocrática, sem a fanfarra dos anúncios de Trump e de investigações comerciais impregnadas de motivações políticas, como se viu nos Estados Unidos.
O tarifaço americano decorre da conclusão da averiguação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial (USTR), que avaliou supostas práticas brasileiras consideradas “não razoáveis” e “discriminatórias” contra empresas americanas. A nova tarifa de 25% vai incidir sobre as exportações brasileiras a partir de 22 de julho, após um curto período de negociação. A lista de exceções abrange 2 126 produtos, principalmente aqueles que fariam mais falta ao mercado americano, com potencial inflacionário. Isso inclui carne, suco de laranja, café, terras-raras e peças de aeronaves, entre outros.
O governo Trump alega que o Pix, por ser operado pelo Banco Central, receberia tratamento privilegiado frente às empresas privadas americanas, que seriam pressionadas a aderir ao sistema ou a trabalhar em ambiente regulatório menos favorável. A Casa Branca também aponta o desmatamento ilegal e barreiras ao acesso ao mercado brasileiro de etanol como um cenário de “vantagem indevida” para produtores locais, em prejuízo de concorrentes dos Estados Unidos.
A explicação oficial admite, porém, o componente político: o pacote tarifário é apresentado como parte da agenda America First e declarações de autoridades do governo Trump dão às tarifas a moldura de um apoio direto ao ex-presidente Jair Bolsonaro e de uma resposta a decisões do Supremo Tribunal Federal consideradas “censórias” contra redes sociais americanas. Em vez de se apoiar em evidências robustas de dumping ou subsídios, a medida mistura reclamações sobre regulação de plataformas digitais e disputa de narrativas políticas com o Brasil. “Para que não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé. Lula colocou seu ego acima de fazer um acordo para o bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço disso”, escreveu o secretário de Estado, Marco Rubio. Líderes empresarias brasileiros, a exemplo de Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), também atribuíram ao governo Lula parte da responsabilidade pela nova sobretaxa imposta pelos Estados Unidos, afirmando que a medida poderia ter sido evitada com “postura técnica e pragmática”.
A bem da verdade, o governo brasileiro vinha tentando negociar com os Estados Unidos. Propostas concretas foram colocadas à mesa, como a de liberar a importação de etanol de milho em troca da abertura do mercado de açúcar americano, o que não foi aceito por Washington. A questão é que o Brasil, por princípio, não aceita a legitimidade da investigação unilateral do governo americano sem a intermediação de organismos multilaterais — que são ignorados por Trump. Além disso, algumas justificativas apontadas pelo governo americano não podem ser contornadas, como o incômodo causado pelo Pix, ou simplesmente não são solucionáveis da noite para o dia, como o desmatamento.
O confronto com Trump e o discurso de defesa da soberania ajudaram Lula a recuperar parte da popularidade desde que a Casa Branca colocou o país na lista de alvos. Em campanha à reeleição, o petista não perdeu tempo diante do novo tarifaço. Após a confirmação, o Planalto divulgou uma nota em que acusa a família Bolsonaro de atuar em conjunto com o governo americano contra o Brasil. Pelo texto, os Bolsonaro seriam “falsos patriotas” e “movidos por objetivos eleitoreiros”.
A narrativa adotada pelo governo Lula pode ser eficaz para mobilizar as bases, mas não resolve o impasse central: como evitar que uma reação mais dura do Brasil leve a uma escalada de medidas retaliatórias ainda mais custosas para a economia. “O debate sobre a tarifa foi contaminado pela discussão política, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o que atrapalhou as negociações”, diz Gustavo Pessoa, professor de economia da Fundação Getulio Vargas, que participou de audiência no Escritório Comercial dos EUA para defender o Pix.
O efeito do tarifaço está longe de ser irrelevante. Para setores como máquinas e equipamentos, produtos químicos, móveis e confecções, um acréscimo de 25% ao preço de entrada equivale à perda imediata de competitividade. Isso prejudica empresas como WEG, de motores elétricos, e Randon, fabricante de reboques de caminhões. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil estima que a taxação vai afetar 11 bilhões de dólares anuais em exportações. Uma guerra tarifária prolongada teria efeitos diretos sobre investimentos, cadeias integradas e a capacidade de o Brasil usar a relação com os Estados Unidos como alavanca de industrialização e acesso à tecnologia. Além disso, tende a empurrar o Brasil ainda mais para a China. Enquanto a participação dos Estados Unidos em nossa pauta de exportação geral murchou de 12%, em 2024, para 9% em 2026, como efeito do primeiro tarifaço de Trump em 2026, a fatia da China subiu de 28% para 32%. Nunca um país sozinho chegou a concentrar tanto das nossas vendas externas. Como se vê no episódio da carne, o dragão asiático pode, de uma hora para outra, mostrar suas garras protecionistas. Não é com bravatas e discursos de palanque que o governo brasileiro conseguirá resolver esse tipo de problema no mundo de hoje, no qual as potências passam por cima das regras de comércio internacional para impor sua força.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004









