Novo tarifaço de Trump encontra Estados Unidos encolhidos no comércio brasileiro
Participação do mercado americano murchou, mas, mesmo assim, as exportações brasileiras cresceram e seguiram batendo recordes
Muita coisa mudou desde que os Estados Unidos anunciaram pela primeira vez que iriam impor taxas de importação mais duras ao Brasil do que o resto do mundo, há um ano. O tarifaço anterior, que chegou a 40% para o Brasil, acabou considerado ilegal e foi derrubado em fevereiro pela Suprema Corte dos país. Esses 40% se somava ao piso internacional de 10% criado pela administração de Donald Trump, também derrubado pela Suprema Corte, e chegavam portanto a 50%.
Agora, por outros mecanismos legais, a administração de Donald Trump confirmou uma nova tarifa que passará a vigorar sobre uma parte dos produtos brasileiros – ela será de 25%, também um das mais altas que os EUA planejam sobre seus parceiros comerciais nesta nova rodada.
Há ainda, em paralelo, outro processo em andamento para uma outra taxa de 12,5% que os Estados Unidos ainda poderão aplicar sobre o Brasil e outros países, acusados por eles de falhas no combate ao trabalho escravo.
Mesmo somadas (37,5%), elas serão menores do que a anterior de 50%. E, mais do que isso, elas vêm agora de um país cuja importância para as exportações brasileiras ficou razoavelmente menor depois de tanta taxação (veja o gráfico mais abaixo).
“Para a economia como um todo, o impacto não é desastroso, assim como vimos nos dados do primeiro semestre, quando as nossas exportações continuaram crescendo”, diz a economista Daiane Santos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e consultora em comércio exterior. “Contudo, se colocarmos uma lupa setorial alguns setores serão fortemente afetados”, ressalva.
Antes de tudo começar, ainda em 2024, os Estados Unidos eram o segundo parceiro comercial do Brasil, respondendo por 12% das nossas exportações. Perde apenas para a China, com cerca de 30%, e também a União Europeia, caso seja considerada em bloco, com 14%.
Ao fim do primeiro semestre, essa fatia já havia murchado para 9%, o que significa que, se o primeiro tarifaço já tinha tido efeito limitado para as exportações e o PIB brasileiros na primeira rodada, o segundo pode ser ainda menor.
Em 2025, as exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram 6,7%, murchando de 40 bilhões para 37 bilhões de dólares. Foi uma perda da ordem de 3 bilhões de dólares. Na outra mão, mesmo com o encolhimento dos EUA, as exportações totais seguiram crescendo. A alta em 2025 foi de 3%, ou um ganho da ordem de 11 bilhões de dólares a partir dos outros destinos, o que mais que compensou as perdas com a nação de Trump. Elas subiram, no total, de 337 bilhões de dólares para 348 bilhões de dólares, o maior valor já registrado.
No primeiro semestre, ajudado ainda pelas altas no preço e nas exportações de petróleo, esse movimento foi intensificado ainda mais: as exportações do Brasil para os EUA caíram 13% na comparação com o primeiro semestre de 2025 (para 17 bilhões de dólares) enquanto as exportações totais avançaram 11%, para 185 bilhões – um novo recorde para o período.
Na contramão do que aconteceu com o resto do mundo, as importações feitas pelo Brasil dos Estados Unidos também vêm caindo: as importações totais do Brasil cresceram 4% no primeiro semestre, para 142 bilhões de dólares. Mas, consideradas apenas as compras dos Estados Unidos, houve um recuo de 12,5%, para 19 bilhões de dólares.
O resultado dos dois lados da balança é que o Brasil continua deficitário com os Estados Unidos, ou seja, compra mais deles do que eles de nós – justamente o argumento que o governo e empresários brasileiros tentaram exaustivamente apresentar para os representantes do governo americano durante a corrida por uma negociação nas últimas semanas.
No primeiro semestre, esse déficit comercial do Brasil com os Estados Unidos foi de 1,5 bilhão de dólares, praticamente estável na comparação com o mesmo período no ano anterior.







