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Nike perde US$ 220 bilhões em valor e aprofunda reestruturação para tentar voltar a crescer

Fabricante de artigos esportivos deixará de integrar o S&P 100 após quase 18 anos

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 out 2026, 14h58 | Atualizado em 2 out 2026, 14h59
Nike perde US$ 220 bilhões em valor e aprofunda reestruturação para tentar voltar a crescer Priorize VEJA no Google

A Nike perdeu cerca de US$ 220 bilhões em valor de mercado desde o pico de suas ações, em 2021, e agora enfrenta uma nova etapa de sua tentativa de recuperação.

A fabricante de artigos esportivos anunciou uma reestruturação que prevê cortes de empregos, mudanças na organização global e modernização da cadeia de suprimentos, enquanto projeta uma queda de receita de um dígito alto no atual ano fiscal.

A crise também produziu um marco simbólico.

Em 21 de setembro, a Nike deixou o S&P 100, índice que reúne cem das maiores e mais negociadas empresas dos Estados Unidos. A companhia fazia parte do indicador havia quase 18 anos. A ação, porém, continua no S&P 500.

A perda de valor acionário foi consequência de um processo mais amplo. No pico, em novembro de 2021, a Nike chegou a valer cerca de US$ 280 bilhões.

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Atualmente, sua capitalização está na casa dos US$ 50 bilhões. As ações acumulam queda superior a 40% em 2026 e chegaram a níveis não vistos em cerca de 12 anos.

Novo corte de custos

O novo plano, batizado de Pace, pretende gerar cerca de US$ 2,5 bilhões em economias acumuladas até o ano fiscal de 2031.

A Nike estima aproximadamente US$ 1 bilhão em despesas antes de impostos relacionadas à reestruturação no período, principalmente com custos trabalhistas. Cerca de US$ 300 milhões em despesas de reestruturação estão previstos já para o ano fiscal de 2027.

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A companhia ainda não informou quantos funcionários serão dispensados. As decisões sobre os postos afetados começarão em 2027.

A Nike também vai reduzir de quatro para três suas grandes regiões operacionais: Américas, Ásia-Pacífico e Grande China, e Europa, Oriente Médio e África. A empresa ainda pretende criar um novo campus em Bengaluru, na Índia, que concentrará capacidades e talentos para operações globais.

O movimento é uma tentativa de tornar a estrutura mais enxuta e aproximar decisões dos mercados consumidores. Na prática, porém, o corte de custos não resolve sozinho o problema central da Nike: recuperar o crescimento de vendas e a relevância de seus produtos.

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A receita continua sob pressão

Os números mais recentes mostram por que a empresa decidiu acelerar a transformação.

No primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, encerrado em agosto, a receita caiu 4%, para US$ 11,2 bilhões. O lucro líquido recuou 2%, para cerca de US$ 700 milhões. A margem bruta melhorou para 42,8%, mas a evolução operacional não foi suficiente para compensar a fraqueza das vendas.

Para todo o ano fiscal de 2027, a Nike agora prevê queda de receita na faixa de um dígito alto. A projeção é mais negativa do que a expectativa anterior da própria companhia e indica que a recuperação será mais longa do que o inicialmente esperado.

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O alerta é particularmente relevante porque a Nike já atravessa um período prolongado de perda de dinamismo.

No ano fiscal encerrado em maio de 2026, a receita ficou em US$ 46,4 bilhões, praticamente estável em relação ao ano anterior. O lucro líquido, de US$ 3,1 bilhões, caiu 3%. As vendas diretas ao consumidor recuaram 6%, enquanto a receita digital da marca caiu 12%.

China virou um dos principais problemas

Nenhum mercado simboliza melhor a dificuldade da Nike do que a China.

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As vendas na Grande China caíram 22% no primeiro trimestre fiscal, para US$ 1,18 bilhão, ou 26% considerando o efeito cambial. Foi a nona queda trimestral consecutiva da região, que já representou um dos principais motores de crescimento da companhia.

A Nike enfrenta no país uma combinação de concorrência doméstica mais agressiva e mudança no comportamento dos consumidores. Marcas chinesas como Anta e Li-Ning ganharam espaço, enquanto empresas estrangeiras especializadas em determinados segmentos, como corrida, também avançaram.

A receita da Nike na China e em Taiwan caiu quase 30% em cinco anos, segundo o Wall Street Journal. A empresa tenta reagir com produtos desenvolvidos especificamente para o mercado local e com uma estratégia para recuperar a percepção de exclusividade da marca.

Uma das medidas mais radicais será encerrar, a partir do início de 2027, boa parte das lojas on-line administradas por parceiros varejistas chineses. A intenção é aumentar o controle sobre preços, distribuição e experiência do consumidor, mas a mudança também pode sacrificar vendas no curto prazo.

O problema começou antes da queda na Bolsa

A deterioração da Nike não pode ser explicada apenas pelo ambiente econômico ou pela concorrência chinesa. A própria companhia vem tentando corrigir decisões tomadas nos últimos anos.

Durante a gestão de John Donahoe, que comandou a empresa entre 2020 e 2024, a Nike acelerou a estratégia de venda direta ao consumidor e reduziu a dependência de grandes varejistas. Ao mesmo tempo, passou a concentrar esforços em produtos de estilo de vida e em modelos já consolidados.

O resultado foi uma combinação de estoques elevados, descontos e menor variedade de produtos novos. A Nike reconheceu que havia colocado produtos retrô da marca Jordan no mercado em excesso e agora está reduzindo a quantidade e a frequência desses lançamentos.

A mudança também atingiu o posicionamento competitivo da companhia. Segundo dados da Euromonitor citados pela Reuters, a participação da Nike no mercado mundial de calçados esportivos caiu de 29,2% em 2022 para 22,9% em 2025.

No segmento de corrida, um dos mercados mais estratégicos para a empresa, marcas como Hoka e Brooks avançaram enquanto a Nike perdeu espaço. A dificuldade é especialmente relevante porque o setor de performance esportiva é justamente aquele em que a companhia pretende concentrar sua recuperação.

Elliott Hill aposta no esporte

O atual presidente-executivo, Elliott Hill, voltou à Nike em outubro de 2024, depois de ter deixado a companhia quatro anos antes. Veterano da empresa, ele foi escolhido para conduzir a recuperação justamente por sua experiência no negócio esportivo.

Sua estratégia passou a ser chamada de Sport Offense, com prioridade para categorias como corrida e outros esportes de alto desempenho. A Nike também retomou a aproximação com grandes varejistas e busca reduzir a dependência de descontos.

O problema é o tempo necessário para que essa estratégia apareça nos balanços. A própria administração reconhece que as áreas de Sportswear, Jordan e Grande China ainda pressionam os resultados. Hill afirmou que a recuperação desses negócios levará tempo.

Esse é o principal desafio da reestruturação: cortar custos pode melhorar a eficiência e proteger margens, mas não substitui a necessidade de criar produtos capazes de recuperar consumidores.

Uma marca ainda gigante, mas sob pressão

Apesar da perda de valor e de participação, a Nike continua sendo uma das maiores empresas de artigos esportivos do mundo. O problema é que a escala já não garante o mesmo ritmo de crescimento.

A companhia encerrou o último trimestre com US$ 7,8 bilhões em estoques, 3% abaixo de um ano antes, e US$ 8,4 bilhões em caixa e investimentos de curto prazo. A situação financeira permite executar a reestruturação, mas o mercado está cobrando resultados mais concretos da estratégia de recuperação.

A saída do S&P 100, portanto, é mais um efeito do que a causa da crise. O índice é refeito periodicamente de acordo com o tamanho relativo das empresas. A Nike continuará no S&P 500 e sua exclusão do S&P 100 não altera suas operações ou sua listagem em Bolsa.

O próximo teste será o Dia do Investidor da companhia, marcado para 16 e 17 de novembro.

A Nike promete apresentar ali mais detalhes sobre o plano de crescimento e os efeitos financeiros do Pace.

Até lá, a empresa terá de convencer o mercado de que a nova rodada de cortes é parte de uma mudança operacional capaz de recuperar vendas, e não apenas mais uma tentativa de conter os custos enquanto o negócio continua perdendo espaço.

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