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Negócio entre Assaí e GPA evidencia crise de identidade dos hipermercados

Criado para promover uma experiência diferenciada, o modelo perdeu lugar para atacarejos e lojas de vizinhança, como mostra fim do Extra Hiper

Por Felipe Mendes Atualizado em 17 out 2021, 13h46 - Publicado em 16 out 2021, 16h22

Já era fim da noite da última quinta-feira, dia 14, quando o grupo Pão de Açúcar anunciou a venda de 70% de sua operação de hipermercados da bandeira Extra para a rede de atacarejo Assaí. A transação entre as empresas, ambas controladas pelo grupo francês Casino, renderá 5,2 bilhões aos cofres do GPA. Os 71 pontos comerciais adquiridos pelo Assaí, também conhecidos como Extra Hiper, se tornarão novos atacarejos em breve. Dentre as demais 32 unidades de hipermercados Extra que restarão, quatro serão descontinuadas e 28 serão convertidas para as bandeiras Mercado Extra e Pão de Açúcar. Com o negócio, pode-se cravar que a era dos hipermercados chega ao fim no Brasil.

Nascidos com intuito de promover uma experiência de consumo diferenciada, com maior variedade de produtos e oferta de preço atrativa, os hipermercados foram engolidos por outros modelos de negócios do setor nos últimos anos. Crescendo a dois dígitos por ano, o atacarejo tem aprimorado sua oferta para surfar o aumento do número de visitantes. Supermercados, nos últimos anos, também investiram em sortimento e, hoje, competem em preços com os hipermercados. Outra vertente que ganhou tração na última década foi o modelo de lojas de vizinhança, que são mercados menores, com oferta concentrada em itens de primeira necessidade, como os segmentos de alimentação e higiene. Fora isso, a expansão do comércio eletrônico pressionou a atuação dos hipermercados na venda de eletroeletrônicos. Aos poucos, a margem desse mercado diluiu-se, o que colocou em xeque a sobrevivência do modelo.

Segundo dados da consultoria Nielsen, a participação de mercado do modelo hiper caiu de 26%, no fim de 2019, para atuais 19%, enquanto, no mesmo período, o atacarejo passou de 30% para 38%. “Os hipermercados tendem a morrer no Brasil. O que vai sobrar, no futuro, são os supermercados premium, as redes voltadas às lojas de bairro e o atacarejo”, diz Flávio Conde, chefe de renda variável da Levante Ideias de Investimentos. “A transação entre o GPA e o Assaí foi um ganha-ganha. O Extra vinha perdendo apreço nos últimos anos e o Pão de Açúcar conseguiu vender esse ativo por um preço que não vinha sendo percebido pelo mercado. E vendeu para o Assaí, que vai saber fazer esse trabalho de transformação das unidades.”

Em entrevista concedida recentemente a VEJA, Belmiro Gomes, o CEO do Assaí, admitiu que a cisão das ações da empresa com o GPA na bolsa de valores, em março, daria maior independência para que a atacadista atuasse no mercado de fusões e aquisições. “Se surgir alguma oportunidade, algum negócio interessante no meio do caminho, pode ser que [a aquisição] ocorra. E, sim, a cisão pode facilitar um pouco nesse sentido”, disse o executivo, à época. A transação com o GPA foi um primeiro sinal nessa linha. Segundo as contas da rede, com a aquisição, as vendas do Assaí podem chegar a 100 bilhões de reais em 2024 – no último ano, o faturamento da atacadista foi de 39,4 bilhões de reais.

Engana-se, porém, quem pensa que a marca Extra morrerá. Ainda há alguns supermercados da bandeira e outras lojas mais enxutas, que continuarão a existir por ora. Fora isso, o site de vendas do Extra segue vivo e atrelado à Via Varejo, dona das redes Casas Bahia e Ponto (ex-Ponto Frio). O mercado de ações comemorou a negociação. Nesta sexta-feira 15, os papéis do GPA dispararam 11,85%, a maior alta do pregão na bolsa de valores de São Paulo, a B3. As ações do Assaí, no entanto, recuaram 1,79%. “O Casino está indo bem com a estratégia dele para focar seus ativos em nichos. Hoje, a empresa conseguiu criar valor em bolsa sem ter de vender alguma de suas companhias”, diz Conde.

Para Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail, o modelo passará por reajustes, mas não deixará de existir. “Deve predominar um formato um pouco mais enxuto, que não terá a pretensão de ter toda aquela oferta em não-alimentos, com variedade de sortimento, serviços e uma boa execução alimentar. Esse formato funciona muito bem em algumas regiões, como é o caso das redes Zaffari, Nordestão e Savegnago”, exemplifica. “O modelo de hipermercado tradicional, que tem muito serviço, muito sortimento e muitos funcionários, realmente está ameaçado, por ser um modelo operacional caro e por ter perdido as compras abastecedoras feitas por microempreendedores, para os atacarejos.”

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