Na rota dos chips: o plano do Rio Grande do Sul para disputar um mercado trilionário
Com tradição em microeletrônica, estado aposta em design, encapsulamento e investimentos para se consolidar como polo latino
Por Ernesto Neves
A disputa global pelos semicondutores — componentes que movimentam desde smartphones até sistemas de inteligência artificial e veículos elétricos, é dominada por gigantes como Taiwan, Estados Unidos, Coreia do Sul e China.
Mas, longe dos holofotes das megafábricas da TSMC e da Samsung, o Rio Grande do Sul tenta construir seu próprio espaço nessa indústria estratégica.
A aposta não é competir na fronteira tecnológica dos chips mais avançados, mas consolidar um ecossistema especializado em pesquisa, projeto e encapsulamento de semicondutores, segmentos nos quais o estado já acumula experiência e capacidade instalada.
O movimento ganhou força com a realização do SemiCon-LAC 2026, evento internacional promovido pela PUCRS e pelo Tecnopuc que reuniu representantes da indústria, universidades e governos de diversos países. O encontro reforçou a ambição de transformar o estado em uma referência latino-americana no setor.
“Não é um desejo ou uma aposta de curto prazo. O Rio Grande do Sul construiu competências nessa área ao longo de mais de 40 anos”, afirma Adão Villaverde, professor da Escola Politécnica da PUCRS, assessor da Superintendência de Inovação da universidade e chair do SemiCon-LAC 2026.
A origem dessa trajetória remonta aos programas nacionais de informática criados ainda nos anos 1980. Desde então, universidades, centros de pesquisa e empresas locais passaram a formar engenheiros e desenvolver tecnologias ligadas à microeletrônica.
O resultado foi a criação de um dos ecossistemas mais robustos do país, com empresas como HT Micron, Chipus, SMDH e CEITEC, além da atuação de instituições como PUCRS, UFRGS, Unisinos e UFSM.
Hoje, embora o Brasil tenha participação marginal no mercado global de semicondutores, o Rio Grande do Sul concentra uma parcela significativa da capacidade nacional de desenvolvimento de chips.
Segundo Villaverde, o estado se destaca especialmente em duas etapas da cadeia produtiva: o design dos circuitos e o encapsulamento, processo que protege e prepara os chips para utilização comercial.
A estratégia gaúcha passa por ocupar nichos específicos da indústria global.
Em vez de disputar espaço com os chips mais avançados, produzidos em processos de poucos nanômetros e utilizados em aplicações de inteligência artificial de ponta, o foco está nos chamados “chips maduros” ou “legados”.
Embora utilizem tecnologias mais antigas, eles continuam essenciais para setores como automóveis, equipamentos industriais, telecomunicações, saúde e energia.
“Mais da metade do mercado global ainda está nos chips maduros. É um segmento enorme e que continua crescendo”, afirma o professor.
Essa escolha é também uma questão de viabilidade econômica. Construir uma fábrica de semicondutores de última geração exige investimentos que podem superar US$ 20 bilhões.
Já operações voltadas para design, encapsulamento e fabricação de chips menos avançados demandam valores significativamente menores, permitindo que novos polos industriais entrem na cadeia global sem enfrentar as mesmas barreiras de entrada.
Nesse contexto, a chegada da empresa Telescom ao Rio Grande do Sul foi recebida como um sinal de maturidade do ecossistema local.
O grupo anunciou investimentos próximos de R$ 1 bilhão e pretende iniciar suas operações com atividades ligadas a projeto e encapsulamento. No futuro, a companhia poderá ampliar sua atuação para etapas mais complexas da produção.
“Se pensarmos em design e encapsulamento, esse investimento representa um grande primeiro passo”, diz Villaverde.
A aposta ocorre em um momento de reorganização da indústria mundial. A pandemia expôs a dependência excessiva da produção concentrada no Leste Asiático e acelerou iniciativas para diversificar a cadeia produtiva.
Os Estados Unidos aprovaram o Chips Act, programa bilionário para incentivar a fabricação doméstica, enquanto Europa, Japão e Índia também ampliaram incentivos para atrair empresas do setor.
Para Villaverde, esse movimento abre oportunidades para regiões que tradicionalmente ficaram à margem da indústria de semicondutores. “Há um processo global de descentralização da produção. Isso ajuda a explicar o interesse crescente de empresas e instituições estrangeiras pelo Brasil e pelo Rio Grande do Sul”, afirma.
Mas o principal desafio não está no capital. Está nas pessoas. “O ativo central hoje são os recursos humanos”, resume o professor.
Segundo ele, a demanda por engenheiros e especialistas já supera a oferta disponível no estado. Empresas locais têm buscado profissionais em outras regiões do país, enquanto universidades ampliam cursos e programas de formação voltados à microeletrônica.
“Temos mão de obra qualificada, mas precisamos formar gente o tempo todo. Esse é o ponto de partida da indústria de semicondutores”, afirma.
A comparação com Taiwan é inevitável. Há quatro décadas, a ilha asiática também estava distante da liderança mundial.
Hoje, abriga a TSMC, responsável pela fabricação da maior parte dos chips avançados do planeta. Para Villaverde, a principal lição taiwanesa não está apenas na tecnologia, mas na consistência das políticas públicas.
“Taiwan transformou os semicondutores em uma estratégia nacional baseada em educação, ciência, tecnologia e inserção internacional”, afirma.
O professor vê na continuidade dos investimentos o fator decisivo para o sucesso brasileiro.
Na sua avaliação, programas de pesquisa e inovação exigem décadas de construção e não sobrevivem a interrupções frequentes.
“O maior erro é a descontinuidade. Em uma área intensiva em pesquisa e desenvolvimento, parar de investir por alguns anos pode destruir avanços construídos ao longo de uma década.”
Apesar dos desafios, a avaliação entre os atores do setor é que o país está em uma posição melhor do que estava há dez anos.
A reestruturação da CEITEC, a renovação dos incentivos do Padis, o crescimento da demanda global por semicondutores e a formação de novas parcerias internacionais criaram um ambiente mais favorável para o desenvolvimento da indústria.
A ambição, porém, permanece realista. O objetivo não é reproduzir o modelo taiwanês nem rivalizar com os gigantes da Ásia. É construir um espaço próprio em uma cadeia que movimentará mais de US$ 1 trilhão por ano na próxima década.
“Do México para baixo não existe hoje uma estrutura completa de semicondutores. O Brasil tem condições de ocupar parte desse espaço”, afirma Villaverde.
Se conseguir transformar conhecimento acumulado em produção, o Rio Grande do Sul poderá se tornar um dos principais pontos de apoio da indústria de chips na América Latina, e um dos poucos capazes de participar de um mercado cada vez mais decisivo para a economia global.







