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Mudança de comando na China é boa notícia para o Brasil

Sérgio Amaral, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), diz ao site de VEJA que a transição de poder na 2ª maior economia do mundo pode trazer benefícios à exportação brasileira

Por Talita Fernandes - 10 nov 2012, 12h23

Dois dias após o mundo saber que Barack Obama continuará na presidência dos Estados Unidos nos próximos quatro anos, a China deu início ao 18º Congresso do Partido Comunista, que escolherá os líderes da sigla para a próxima década. A reunião não define apenas a nova cúpula, mas também o próximo dirigente da segunda maior economia do mundo. Para o presidente do Conselho Empresarial Brasil-China e ex-ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, o Brasil pode ficar tranquilo ante as alterações por que passará o país – seu principal parceiro comercial. Segundo ele, a intenção de Pequim, que deve ganhar força na nova estrutura política, de fomentar o mercado interno implicará demanda pujante para as exportações nacionais.

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De acordo com o ex-ministro, ao contrário do que foi visto nos Estados Unidos, que, às vésperas da eleição, tinha os candidatos Mit Romney e Barack Obama empatados; a transição política na China não trará surpresa. No encontro, o secretário-geral do partido, o atual vice-presidente, Xi Jinping, será nomeado chefe de estado. O evento, que teve início nesta quinta-feira, vai se prolongar até 14 de novembro. Se por um lado as cartas estão marcadas, a dificuldade é prever quais serão as mudanças nas esferas política e econômica que Pequim realizará nos próximos anos.

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Depois ter crescido cerca de 10% ao ano na última década, o Produto Interno Bruto chinês deve encerrar 2013 com alta perto de 7,5%. Ante a conjuntura internacional desfavorável, não é exagerado dizer que os chineses terão de se acostumar a um padrão de expansão aquém do que estão acostumados. É neste contexto que a potência asiática já sinalizou que deve voltar seu ferramental de política econômica para seu mercado doméstico – num esforço de compensar a fraqueza da demanda externa. Perante a mudança, banqueiros e empresários perguntam-se qual seria o impacto disso para a economia global – tendo em vista que a China tem forte participação no comércio internacional como fornecedora e compradora. Fazer apostas seguras, no caso de uma nação tão fechada e pouco transparente, é complicado. Contudo, na avaliação de Amaral, tudo indica que o Brasil deverá continuar a contar com o apoio da economia chinesa para seu desenvolvimento.

Em entrevista ao site de VEJA, Amaral falou, ainda, dos entraves e facilitadores do comércio entre as duas grandes nações emergentes e discutiu os principais efeitos da transição política chinesa para o restante do mundo.

Começou nesta quinta-feira o processo de troca de comando do Partido Comunista da China e, por consequência, das lideranças do país. Qual o efeito disso para o mundo?

A China, a cada dez anos, passa por um processo de transição política importante, pois é a mudança na liderança no Partido Comunista que leva a alterações no governo. Neste ano, essa modificação é ainda mais relevante porque chega ao poder uma nova geração de políticos, que vai assumir os postos decisivos do país. No chamado comitê permanente, dos nove membros, sete serão mudados. Cerca de dois terços do Politburo – o grupo político mais importante do partido – serão mudados. Não é só a quantidade que chama a atenção, mas sim o fato que o perfil decisório chinês caminha para uma direção colegiada. Não é como no passado, quando existia um líder inconteste como Mao Tse Tung, que era carismático, ou o Deng Xiaoping, na década de 1970, que foi responsável pela grande abertura econômica do país. O novo secretário geral (do partido), que depois será escolhido presidente, é um entre outros vários membros desse colegiado.

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Vêm também pela frente duas outras transições importantes. Uma delas é na própria economia, com uma reconversão do eixo hoje voltado à exportação para o mercado interno. Esse redirecionamento é consistente com o que está ocorrendo no mundo, haja vista a redução nas taxas de crescimento das maiores potências, como Estados Unidos e União Europeia. O movimento também é coerente com a própria necessidade da China, sobretudo das regiões mais avançadas e industrializadas, de pagar melhores salários a seus funcionários. Essa ênfase no mercado doméstico vai elevar os salários e o poder de compra do consumidor.

Essa transição vai exigir uma atenção maior dos novos dirigentes, pois, no momento de uma curva, não se pode acelerar tanto o carro. Os chineses dizem que as mudanças serão muitas, mas que elas têm de ser feitas com estabilidade e controle.

O país enfrentará também outra transição: a da sociedade. Nos últimos anos, houve uma incorporação expressiva de milhões de chineses ao processo consumidor, mas também se verificaram grande concentração de renda e aumento da desigualdade. Com esse cenário, fica a questão: será que a nova liderança vai acelerar o processo de mudanças rumo a uma abertura maior ou, ao contrário, atenderá às opiniões da esquerda comunista, que diz já ter havido abertura demais?

As apostas dos especialistas sobre os impactos dessas mudanças divergem. É possível apontar um caminho com alguma segurança?

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É complicado mesmo. Essas opiniões se dividem porque, na verdade, o processo político chinês é muito fechado. O que acho engraçado é que as duas grandes potências econômicas do planeta estão escolhendo seus líderes no mesmo momento. Na China, de antemão, já se sabe quais serão os novos dirigentes, mas não o que vão fazer. Já nos Estados Unidos, até a última terça-feira não se sabia quem ia ser eleito, mas era possível saber o que cada um dos candidatos – ao menos em linhas gerais – iria fazer. Enfim, em Pequim, não se sabe se o novo governo, que só vai ser instalado em março, começará a tomar medidas meses depois ou se elas serão colocadas em prática de imediato. Não se sabe se o governo eventualmente aguardará uma harmonização entre os novos dirigentes para, só depois, começar a agir. Em resumo, ainda há muito por ser revelado ao mundo.

O senhor aposta numa mudança de rota da política econômica chinesa em prol do mercado interno. Qual o impacto disso para o Brasil?

A China não vai exportar o volume que exportava antes e também importará um pouco menos. No caso do Brasil, no entanto, esse efeito é reduzido porque minério de ferro e soja – que representam 70% das nossas exportações – continuarão sendo demandados. Outra mudança em curso igualmente importante é a migração do campo para cidade. A China tem apenas 50% de sua população na zona urbana. É muito provável, portanto, que se prolongue por mais 15 ou 20 anos o processo de migração das áreas rurais para as cidades. Nas metrópoles chinesas, essa população precisará de alojamento e alimentação. Portanto, os dois principais produtos que exportamos – quer seja o minério de ferro, necessário para construção de casas, quer seja a soja, que será usada na alimentação desses novos habitantes – não vão sofrer impacto importante. Na verdade, a queda que se vê hoje na cotação do minério de ferro, por exemplo, deve-se muito mais à retração das economias da Europa e dos Estados Unidos que da compra dos chineses, cuja quantidade não teve redução significativa.

Ainda que desacelere um pouco, a economia chinesa segue pujante. Qual o impacto disso para a economia global?

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De fato, o país deixará de crescer 10% ao ano para passar a um patamar de 7% ou 8%, como os próprios chineses já tinham adiantado em seu 12º plano quinquenal. A mudança maior que vejo é que a redução do crescimento da Europa e Estados Unidos está diminuindo a diferença entre a China e as economias industrializadas. Em suma, essa discrepância está permitindo acelerar sua emergência enquanto potência econômica, em primeiro lugar, e política, em um segundo momento.

Recentemente, a representante da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Tatiana Prazeres, anunciou que a China deve se consolidar em breve também como a maior fornecedora de produtos para o Brasil, desbancando os Estados Unidos. Como avalia essa questão?

É um processo que veio para ficar. A China já é primeiro mercado para as exportações brasileiras e está se tornando também nossa principal fornecedora. A pauta de produtos chineses vendidos ao país diversifica-se rapidamente, ao mesmo tempo em que se ampliam os investimentos diretos no Brasil. No início, os aportes da China estavam concentrados, sobretudo, em setores que lhe garantiam suprimento de commodities, como minério de ferro e alimentos. Depois, eles passaram para infraestrutura, energia e, mais recentemente, para o mercado consumidor brasileiro, por exemplo, com os automóveis. Três montadoras chinesas estão se instalando no Brasil.

Um aspecto da política econômica chinesa que incomoda muito o Brasil, bem como os governos de outros países, é a desvalorização artificial do yuan (a moeda chinesa). Pequim cederá às pressões e mudará seu comportamento em relação ao câmbio?

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Vejo de forma direfrente. No passado, a China efetivamente praticava uma política de câmbio que ajudava a manter a competitividade de suas exportações, mas, nos últimos anos, já tem havido alguma apreciação do yuan. Em 2011 e 2012, houve valorização de 6% da moeda chinesa. Com isso, essa vantagem cambial foi suavizava. Mais recentemente, não tenho ouvido reclamações da política cambial chinesa em função desse movimento.

Durante o governo Lula, o Brasil reconheceu a China como economia de mercado. Contudo, não houve ratificação dessa medida. Como está essa discussão?

Em um determinado momento, o governo brasileiro efetivamente declarou que reconhecia a China como economia de mercado, mas não tomou as medidas necessárias para implementação desse reconhecimento. Na prática, portanto, ele não existe e a implicação disso se verifica na forma de defesa comercial. Para se analisar medidas de antidumping, por exemplo, não são considerados os preços correntes na China porque eles não são de uma economia de mercado. São usados então indicadores de outros países, o que evidentemente prejudica a defesa da China ou de suas empresas. Naturalmente, o reconhecimento do país vai ocorrer porque seu processo de adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê um momento em que as demais nações a admitiriam. Acho difícil que o Brasil reconheça antes disso.

Os reajustes salariais que se verificam hoje na China têm impacto direto sobre os custos de produção. Com isso, pode haver perda de competitividade?

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Ela pode perder um pouco de competitividade sim. Muitas empresas chinesas estão, inclusive, se deslocando da costa Leste do país – de Xangai, por exemplo, onde a pressão salarial é maior – e se dirigindo a outras regiões, como as áreas central e oeste. Isso poderá ter impacto na competitividade, mas o 12º plano quinquenal chinês já prevê que a China, em vez de investir em produção para exportar, tem de se voltar mais para o mercado doméstico. Isso quer dizer também que serão direcionados investimentos expressivos para tecnologia e inovação porque Pequim não quer mais o país se limite ao famoso ‘made in China‘. A ideia é que, cada vez mais, a nação seja reconhecida por seu ‘designed‘ ou ‘developed in China‘. Em outras palavras, ela deve deixar esse processo inicial – de produzir lá o que em outros países era mais caro – para investir e inovar em sua economia. Sob esse enfoque, os salários mais altos não são prejudiciais à competitividade chinesa.

Brasil e China, embora parceiros no grupo dos BRICS, são muito diferentes. Quais são os principais entraves do comércio entre ambos?

Eu colocaria dois. Primeiramente, as restrições que a China ainda tem para a entrada de certos produtos através de um complexo sistema de licenças Alguns deles, por exemplo, são os que têm maior grau de processamento ou de emprego de tecnologia. Não há restrições, por outro lado, à entrada de commodities, como a soja. Em suma, uma empresa brasileira que quiser vender alimentos processados aos chineses pode enfrentar problemas. Mais recentemente, quem teve sucesso nessa área foi a BRFoods, que se associou a uma empresa local para fazer distribuição e processamento no país. Foi a primeira companhia de alimentos brasileira a conseguir isso – e é importante que outras também consigam porque é uma direção importante de desenvolvimento. A outra restrição que gostaria de apontar é que o espaço econômico da Ásia está se integrando velozmente. Esse processo se dá, sobretudo, pelo intercâmbio entre as cadeias produtivas. Se isso se consolidar, será muito mais difícil para um país distante, como o Brasil, vender produtos processados a China e seus parceiros regionais. Temos o desafio de entrar na Ásia com produtos de maior valor agregado, tendo em vista nosso déficit de competitividade.

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