Moody’s diz que Brasil precisa de ajuste fiscal de até 2,5% do PIB para voltar ao grau de investimento
Responsável pela classificação de risco soberano do Brasil na Moody's, William Foster afirma que desequilíbrio das contas é desafio
Recuperar o grau de investimento, selo concedido por agências de classificação de risco a países considerados mais seguros para investidores, dependerá de um ajuste fiscal significativo no Brasil.
A avaliação é da Moody’s Ratings, uma das três principais agências de rating do mundo, que calcula que o próximo governo precisará promover um ajuste equivalente a entre 2% e 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para estabilizar a trajetória da dívida pública.
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A estimativa foi apresentada nesta quinta-feira, 30, por William Foster, vice-presidente da Moody’s e responsável pela classificação de risco soberano do Brasil, durante o encerramento do Inside LatAm Brasil 2026, conferência promovida pela agência em São Paulo.
Segundo Foster, o país reúne condições para melhorar sua nota de crédito, mas a principal barreira continua sendo o desequilíbrio das contas públicas.
Hoje, o Brasil tem classificação Ba1 pela Moody’s, um nível abaixo do grau de investimento. Embora a agência tenha elevado a nota brasileira em 2024, impulsionada por um crescimento econômico acima do esperado e pelo efeito de reformas aprovadas nos anos anteriores, o avanço da agenda fiscal perdeu força desde então.
“O desafio agora é realizar reformas e outras medidas que elevem o crescimento potencial do PIB para além de 2% e reduzam o custo da dívida”, afirmou.
Na avaliação da agência, a situação fiscal é o principal ponto de fragilidade da economia brasileira. Enquanto a nota geral do país é Ba1, o perfil exclusivamente fiscal recebe classificação B1, três níveis abaixo, refletindo o peso crescente da dívida e a dificuldade de controlar os gastos públicos.
Um dos fatores que mais preocupam a Moody’s é a estrutura da dívida brasileira. Cerca de metade dos títulos públicos é corrigida pela taxa Selic. Isso faz com que períodos prolongados de juros elevados aumentem automaticamente o custo de financiamento do governo, pressionando ainda mais as contas públicas.
Com juros reais próximos de 9%, entre os mais altos do mundo, esse efeito também se espalha pela economia, encarecendo o crédito para empresas e consumidores e reduzindo o ritmo dos investimentos.
Outro desafio apontado por Foster é a baixa flexibilidade do Orçamento. Segundo ele, aproximadamente 95% das despesas obrigatórias já têm destinação definida por leis ou pela Constituição, principalmente para Previdência e programas sociais. Com pouca margem para cortar gastos, torna-se mais difícil ajustar as contas quando a dívida cresce.
Para mudar esse cenário, a Moody’s defende reformas que reduzam a indexação automática das despesas públicas à inflação e limitem o crescimento das emendas parlamentares, que passaram a ocupar uma parcela cada vez maior do orçamento discricionário da União.
Na avaliação da agência, essas mudanças poderiam abrir espaço para uma queda estrutural dos juros reais. Com isso, o governo gastaria menos com o pagamento da dívida, ampliaria sua capacidade de investimento e ajudaria a reduzir o custo do crédito para o setor privado, criando um ambiente mais favorável ao crescimento econômico.
Apesar das dificuldades fiscais, Foster afirmou que o Brasil possui vantagens competitivas importantes.
O país reúne uma matriz elétrica predominantemente limpa, reservas de minerais críticos e de terras raras e deve ganhar eficiência com a implementação da reforma tributária.
Se essas vantagens forem acompanhadas por uma política fiscal mais sólida, o potencial de crescimento da economia poderá subir dos atuais 2% para cerca de 4% ao ano, segundo a Moody’s.
A agência, porém, também vê riscos.
Sem um ajuste fiscal consistente, a projeção é de que a dívida pública continue aumentando nos próximos anos, comprometendo a credibilidade do país.
Um crescimento econômico mais fraco ou a manutenção dos juros em níveis elevados por mais tempo também reduziriam as chances de uma melhora da classificação de risco.
Para Foster, a recuperação do grau de investimento dependerá menos do desempenho da economia no curto prazo e mais da capacidade do próximo governo de construir uma trajetória duradoura de estabilização da dívida pública.
“Ajustes na política econômica após a eleição serão necessários para estabilizar o peso da dívida e priorizar a consolidação fiscal no longo prazo”, afirmou.






