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Montadoras apostam no mercado de automóveis por assinatura

Para driblar a crise, empresas investem em estratégias que garantam facilidades e conquistem consumidores

Por Lucas Andrade Atualizado em 1 dez 2020, 10h51 - Publicado em 27 nov 2020, 06h00

Poucos setores estão tão expostos às transformações dos novos tempos quanto a indústria automobilística. De um lado, as montadoras tradicionais enfrentam a entrada dos gigantes de tecnologia no negócio, como Google e Apple. De outro, elas sofrem com as mudanças de comportamento da sociedade. Se nos últimos 100 anos o carro foi objeto de desejo para diferentes gerações, agora ele é visto cada vez mais como um serviço, e não como um bem a ser conquistado. Para encarar o inédito cenário, as fabricantes de carros apostam no mercado de automóveis por assinatura — um nome elegante para definir o serviço de aluguel de veículos diretamente ao cliente, sem a participação de terceiros. De certo modo, as grandes do setor pretendem fazer no Brasil o que já fazem lá fora: além de suprir as frotas de empresas como Unidas e Localiza (que, por sinal, estão em processo de fusão), elas querem ser locadoras.

O mercado mudou bastante nos últimos dez anos. Aplicativos de transporte fizeram com que muitos potenciais clientes desistissem de comprar automóveis, evitando assim os custos recorrentes de seguro, estacionamento, licenciamento e IPVA. Ainda que serviços como 99 e Uber a princípio não tenham causado impacto na receita das montadoras — uma vez que as vendas migraram para os motoristas de aplicativos —, a falta de interesse, principalmente dos jovens, de ter o próprio carro sinaliza uma tendência que parece irreversível.

A explicação para o movimento das grandes não está na Tesla, que se tornou a montadora mais valiosa do mundo. A empresa do bilionário Elon Musk nem mesmo é uma grande exportadora de automóveis. Ela é, na verdade, uma fonte inesgotável de tecnologia que tem, além dos veículos elétricos, um dos projetos mais avançados do carro autônomo, revolução industrial que dificilmente se tornará realidade nesta década e que, quando isso acontecer, ainda será um veículo sobre quatro rodas.

As montadoras, enfim, estão de olho mesmo no faturamento da locação. Para se ter ideia, Unidas e Localiza reportaram em novembro sua intenção de reduzir significativamente a venda de usados porque começava a faltar unidades para alugar, já que as fábricas, por diversos motivos, inclusive a pandemia, não estavam entregando os pedidos.

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De olho nessa demanda, empresas como Toyota, Volkswagen e Audi, para citar aquelas que lançaram projetos recentemente, querem faturar com o aluguel. O fisioterapeuta Luiz Augusto Cremonez conta que virou um locatário três anos atrás, depois de ter usado suas reservas financeiras para comprar uma casa. “Percebi que não teria dinheiro para um carro zero e que se encaixasse dentro das minhas necessidades familiares”, lembra. “Fiz os cálculos e vi que sairia mais vantajosa a opção de partir para a locação”, diz.

Atenta ao novo nicho, a japonesa Toyota lançou o Kinto Share, serviço de aluguel que inclui modelos híbridos e de sua marca de luxo Lexus. A Volks­wa­gem apresentou o VW Sign&Dri­ve, que permite ao cliente escolher, por enquanto, dois carros da marca: o T-Cross (por 1 900 reais mensais) e o Tiguan (por 3 600 reais mensais). A Audi criou um programa (Luxury Signature) para alguns de seus modelos mais caros, com seguro, IPVA, licenciamento, assistência 24 horas e manutenção preventiva.

O consultor Paulo Cardamone, CEO da Bright Consulting, diz que espera a consolidação da tendência e uma briga acirrada nos próximos anos, não só com as locadoras tradicionais, que continuarão a ser clientes intermediários, como entre as próprias marcas. “São iniciativas ainda tímidas, mas a expectativa é de uma adesão completa das empresas do setor com o aumento do público que não quer ter nenhuma dor de cabeça com carro”, afirma. “Os serviços por assinatura ainda vão responder por uma parte considerável das vendas das montadoras”, acrescenta.

O grande desafio das empresas automotivas, entretanto, não será somente atender o consumidor que deseja pagar apenas por aquilo que vai usufruir. O que as pessoas querem é facilidade de locomoção, que seja mais barata, confortável e rápida. Cremonez, o fisioterapeuta que opta pelo aluguel, destaca que foi justamente conquistado pela praticidade e oportunidade de ter acesso a modelos top de linha e bem equipados. Assinante do serviço da Volkswagen, ele garante que “tudo é feito sem burocracia, por meio do smartphone”. A era da locação direta do fabricante ao consumidor está apenas começando.

Publicado em VEJA de 2 de dezembro de 2020, edição nº 2715

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