Milei sob desconfiança de Wall Street: risco-país dispara 20% na Argentina
Depois de meses de otimismo com a queda da inflação e o ajuste fiscal, investidores voltam a enxergar fragilidades na economia de Milei
Depois de um primeiro semestre em que a Argentina voltou a despertar o apetite dos investidores, o humor em Wall Street começou a mudar.
Os ativos do país passaram a perder força em agosto, enquanto o risco-país subiu cerca de 20% no mês e voltou a se aproximar da faixa de 500 pontos-base, em um movimento que chama atenção porque ocorre justamente quando outros mercados emergentes vivem um período de forte entrada de capital.
O indicador chegou a 480 pontos em 14 de agosto, seu maior nível em dois meses, depois de avançar cerca de 50 pontos nas primeiras semanas do mês.
A alta reflete a queda dos preços dos títulos soberanos argentinos e, consequentemente, a exigência de uma remuneração maior pelos investidores para financiar o país.
A mudança não significa que Wall Street tenha abandonado a aposta no programa econômico de Javier Milei.
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O ajuste fiscal continua sendo um dos principais argumentos favoráveis à Argentina, assim como a queda expressiva da inflação em relação ao início do governo.
Mas o mercado passou a questionar se esses avanços serão suficientes para sustentar uma recuperação econômica e, principalmente, para reduzir a vulnerabilidade externa do país antes das grandes obrigações financeiras previstas para 2027.
O Fundo Monetário Internacional reconhece os progressos do governo argentino, mas mantém um diagnóstico de fragilidade.
Em sua revisão mais recente, o organismo destacou que a inflação caiu de níveis superiores a 200% no fim de 2023 para cerca de 32,5% no início de 2026, enquanto o país preservou o superávit fiscal.
Ao mesmo tempo, o FMI alertou que as reservas continuam baixas e que a Argentina permanece particularmente exposta a choques externos e domésticos.
O que mudou na percepção do mercado?
O primeiro sinal de alerta vem da economia real.
Os dados recentes mostram uma recuperação muito menos homogênea do que a celebrada inicialmente pelos mercados. Setores ligados ao agronegócio, à mineração e à energia continuam sustentando parte relevante da atividade e das exportações.
Já segmentos mais intensivos em emprego, como indústria, comércio e construção, enfrentam uma trajetória bem mais irregular.
Em maio, o indicador mensal de atividade econômica argentino caiu 0,5% na comparação com o mês anterior, após ajuste sazonal. A produção industrial e outros setores ligados à demanda doméstica também vêm alternando períodos de recuperação e retração.
O próprio Banco Central argentino passou a trabalhar com um cenário de perda de força.
Na pesquisa de expectativas divulgada em agosto, analistas projetaram uma contração de 0,4% do PIB no segundo trimestre de 2026, embora esperem recuperação a partir do terceiro trimestre. Para o ano, a previsão média de crescimento caiu para 2,7%.
A consequência é que a desinflação, principal vitrine econômica de Milei, ainda não produziu uma melhora disseminada na percepção sobre a economia.
A inflação mensal de julho ficou em 2,1%, segundo o Indec.
O número é incomparavelmente inferior aos patamares registrados no início do atual governo, mas mostra também que a Argentina entrou em uma fase mais difícil da desinflação: os preços continuam subindo em um ritmo anual elevado, enquanto a atividade perdeu velocidade.
Menos inflação, mas uma economia ainda frágil
Essa é uma das principais fontes da ansiedade dos investidores.
A aposta inicial no governo Milei era relativamente simples: um forte ajuste fiscal ajudaria a derrubar a inflação, restaurar a confiança e abrir caminho para a volta do crescimento. O problema é que a segunda etapa dessa equação está se mostrando mais complicada.
O FMI observa que a expansão registrada em 2025 foi desigual e que a desaceleração da atividade e do emprego ganhou força desde meados do ano passado.
No fim de 2025, o desemprego havia chegado a 7,5%, cerca de um ponto percentual acima do nível do fim de 2024. No primeiro trimestre deste ano, a taxa estava em 7,8%.
Estudos baseados em dados do mercado de trabalho também apontam uma deterioração do emprego registrado desde o início do governo, com perda concentrada especialmente em setores como construção.
Embora a pobreza tenha caído em relação aos níveis mais críticos da crise anterior, a recuperação da renda e do emprego continua sendo um desafio político para Milei.
Para Wall Street, portanto, a questão deixou de ser apenas se o governo conseguirá manter o superávit fiscal. A dúvida agora é se a economia será capaz de crescer em ritmo suficiente para sustentar o apoio político ao programa.
Reservas continuam sendo o ponto mais sensível
Outro foco de preocupação está no Banco Central.
A Argentina conseguiu acelerar a compra de dólares em 2026. Até maio, o Banco Central havia adquirido mais de US$ 8 bilhões no ano, e o FMI reconheceu a melhora em relação ao fim de 2025.
Mesmo assim, as reservas líquidas permaneciam negativas em cerca de US$ 6,5 bilhões naquele momento.
Esse é um problema central para qualquer investidor que analisa a Argentina.
O país tem um histórico de crises cambiais e reestruturações de dívida, e uma posição de reservas limitada reduz a margem de segurança diante de uma saída de capital ou de um choque externo.
Por isso, a melhora da inflação e do resultado fiscal não elimina automaticamente o desconto exigido pelo mercado para comprar títulos argentinos.
O FMI mantém uma avaliação semelhante. Segundo o organismo, a Argentina continua vulnerável porque os colchões de reservas são insuficientes e o país ainda precisa recuperar acesso estável ao mercado internacional de capitais.
O risco de 2027 entra no preço dos ativos
A dimensão política também voltou a ganhar importância.
O ano de 2027 reúne dois fatores que preocupam os investidores: a eleição presidencial e um volume elevado de vencimentos em moeda estrangeira.
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, destacou recentemente os avanços econômicos do governo Milei.
Mas o próprio debate em torno da visita à Argentina deixou evidente a dimensão do desafio financeiro, com cerca de US$ 32,3 bilhões em pagamentos externos previstos.
Isso significa que o mercado não está avaliando apenas a fotografia atual da economia argentina. Está tentando precificar a sustentabilidade do programa até o próximo ciclo eleitoral.
Uma eventual perda de apoio político, uma economia sem crescimento ou dificuldades para avançar com reformas podem aumentar a percepção de risco justamente no período em que a Argentina precisará demonstrar capacidade de honrar seus compromissos e ampliar o acesso ao financiamento.
Pesquisas recentes mostram que o cenário político argentino permanece volátil.
Levantamento da AtlasIntel realizado no fim de junho avaliou aprovação presidencial, confiança do consumidor e risco político em uma amostra nacional de mais de 2.200 entrevistados.
O simples fato de os indicadores políticos voltarem a ser acompanhados de perto pelo mercado revela uma mudança de foco: a economia de Milei já não é analisada apenas pela inflação e pelo superávit.
Argentina se distancia dos emergentes
O movimento é ainda mais significativo quando comparado ao cenário internacional.
Os mercados emergentes atravessam em 2026 um período favorável, com entrada de mais de US$ 214 bilhões em fundos de dívida até julho.
A diversificação de investimentos para fora dos Estados Unidos e a melhora das condições econômicas em vários países ajudaram a reduzir o custo de financiamento de diversas economias emergentes.
A Argentina, portanto, enfrenta uma dificuldade particular: enquanto o ambiente internacional tem sido relativamente favorável aos emergentes, seus títulos voltaram a apresentar sinais de pressão.
Parte disso pode ser explicada por movimentos globais, como oscilações nos juros dos títulos do Tesouro americano. Mas a diferença de desempenho em relação a outros países reforça a percepção de que há um componente específico da Argentina.
Essa combinação ajuda a explicar a alta do risco-país.
Não se trata apenas de uma reação a Wall Street ou aos juros americanos. É também uma revisão das expectativas sobre a capacidade da economia argentina de transformar a estabilização inicial em crescimento sustentável.
O mercado continua apostando, mas exige mais
O cenário atual está longe de representar uma ruptura com o programa de Milei.
As principais conquistas da atual administração continuam visíveis.
A inflação caiu drasticamente em relação ao início do governo, o ajuste fiscal foi mantido, as agências de classificação de risco elevaram a nota do país e houve progresso na recomposição das reservas.
A Fitch, por exemplo, elevou recentemente a classificação argentina para B-, o melhor nível desde 2019.
Mas o mercado parece ter passado para uma nova fase.
No início do programa, bastava provar que a Argentina era capaz de interromper a dinâmica de inflação crônica e déficit fiscal.
Agora, os investidores querem evidências de que o país conseguirá crescer, gerar dólares, reconstruir suas reservas e atravessar o próximo ciclo eleitoral sem abandonar o ajuste.
É essa transição que explica a nova cautela em Wall Street.
Depois de premiar a Argentina pela estabilização, o mercado começa a cobrar a etapa seguinte do plano econômico. E, por enquanto, os sinais mistos da atividade, a fragilidade das reservas e a aproximação de 2027 fizeram a ansiedade voltar ao preço dos ativos argentinos.







