Milei endurece disputa pelas Malvinas e ameaça empresas de petróleo após aceno de Trump
Tensão aumenta após Donald Trump indicar que os EUA podem rever sua posição sobre a soberania das ilhas
O presidente da Argentina, Javier Milei, decidiu elevar o tom na disputa com o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas.
Em discurso transmitido na noite de quinta-feira (3), ele anunciou novas medidas contra empresas envolvidas na exploração de petróleo na região e afirmou que seu governo usará instrumentos econômicos e diplomáticos para defender a reivindicação argentina sobre o arquipélago.
O movimento ocorre poucos dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que Washington está reavaliando sua posição sobre as Malvinas, território administrado pelo Reino Unido e reivindicado pela Argentina, que o chama de Ilhas Malvinas.
A declaração abriu uma nova frente de incerteza em uma disputa que permanece sem solução desde a guerra de 1982.
Milei pretende enviar ao Congresso um projeto de lei para ampliar as punições a empresas que participem de atividades de exploração de petróleo nas águas ao redor das ilhas sem autorização argentina.
O governo também prepara um decreto para acelerar a aplicação das sanções previstas na legislação do país.
Petróleo transforma disputa territorial em questão econômica
No centro da nova escalada está o campo de Sea Lion, localizado ao norte das Malvinas. O projeto é controlado pela britânica Rockhopper Exploration, que possui 35% de participação, e pela israelense Navitas Petroleum, operadora com os 65% restantes.
A área contém cerca de 1,7 bilhão de barris de petróleo no local. Uma avaliação independente atualizada em 2026 classificou parte dos recursos do projeto como reservas, enquanto a primeira fase do empreendimento já recebeu decisão final de investimento. A previsão da Rockhopper é iniciar a produção no primeiro trimestre de 2028.
A dimensão do projeto ajuda a explicar por que a disputa ganhou uma nova camada econômica. Para Buenos Aires, a exploração de petróleo nas águas que considera argentinas representa não apenas uma questão de soberania, mas também a exploração de recursos naturais em uma área cuja titularidade é contestada.
A Rockhopper e a Navitas, por sua vez, sustentam a legitimidade de suas licenças e afirmam que as ameaças argentinas não devem alterar, neste momento, o cronograma do projeto.
Trump muda o cálculo de Buenos Aires
A reação de Milei também está diretamente ligada às declarações recentes de Trump.
Na semana passada, o presidente americano afirmou que estava revendo a posição dos Estados Unidos sobre as Malvinas. A política americana historicamente buscou manter uma posição de neutralidade sobre a soberania das ilhas, apesar de Washington ter apoiado o Reino Unido durante a guerra de 1982.
Trump também foi questionado sobre se os Estados Unidos ajudariam o Reino Unido em um eventual conflito envolvendo as Malvinas. Em resposta, fez referência à falta de apoio britânico aos Estados Unidos durante a guerra contra o Irã e colocou em dúvida o compromisso americano com Londres em um novo confronto.
Para Milei, as declarações representam uma oportunidade diplomática. O presidente argentino afirmou que os “ventos” estariam favoráveis à reivindicação de seu país e apresentou a eventual mudança de posição americana como resultado do alinhamento político entre Buenos Aires e Washington.
Ainda não há, porém, uma mudança formal da política americana em relação à soberania das ilhas. Trump afirmou apenas que está reavaliando a posição dos EUA.
Argentina reforça presença militar no sul
Além das medidas econômicas, Milei anunciou que pretende aumentar os recursos destinados à defesa e construir uma nova instalação militar na Terra do Fogo, no extremo sul do país.
A iniciativa ocorre em um momento de tentativa de fortalecimento da presença argentina no Atlântico Sul. O governo, no entanto, apresenta a estratégia como uma resposta política e diplomática, e não como preparação para uma nova guerra.
A disputa pelas ilhas tem uma memória especialmente sensível na Argentina. Em 1982, o país invadiu o arquipélago, dando início a uma guerra com o Reino Unido que terminou com a retomada das ilhas pelos britânicos. Centenas de argentinos e britânicos morreram no conflito.
Desde então, Buenos Aires mantém a reivindicação de soberania, enquanto Londres afirma que os habitantes das ilhas têm direito à autodeterminação.
Reino Unido rejeita reivindicação argentina
O governo britânico reagiu às declarações de Milei reafirmando que as Malvinas são britânicas e que sua posição não mudou.
A principal referência de Londres é o referendo realizado nas ilhas em 2013. Na consulta, 99,8% dos participantes votaram pela manutenção do status de território britânico ultramarino.
Milei, entretanto, rejeitou durante seu discurso a ideia de que os habitantes das ilhas tenham o direito de decidir a soberania do território.
O governo britânico considera que a posição dos moradores é um elemento central da questão e afirma que seu compromisso com as ilhas permanece inalterado.
Pressão política sobre Milei
A ofensiva sobre as Malvinas também ocorre em um momento politicamente mais delicado para Milei.
O presidente enfrenta queda de popularidade e uma economia que, embora tenha apresentado melhora em alguns indicadores, ainda impõe custos elevados a parte da população. A reivindicação sobre as ilhas é uma das poucas causas capazes de produzir forte mobilização nacional na Argentina e atravessa diferentes correntes políticas do país.
Milei também enfrenta pressão pela direita. Sua vice-presidente, Victoria Villarruel, mantém uma posição mais dura sobre a questão das Malvinas e tem defendido historicamente uma postura nacionalista em relação ao arquipélago.
Ao recolocar a disputa no centro do debate, Milei combina, portanto, três elementos: a pressão sobre um projeto bilionário de petróleo, a oportunidade criada pelas declarações de Trump e uma causa nacional com forte apelo político dentro da Argentina.
Por enquanto, a disputa permanece no campo diplomático, econômico e jurídico. O que mudou é o peso do petróleo e, sobretudo, a possibilidade de os Estados Unidos deixarem de manter a mesma posição de equilíbrio que adotaram durante décadas.







