Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

7 formas de compreender a síndrome de burnout

Após a síndrome de burnout ter sido reconhecida como uma doença pela OMS, ela passou a ser ainda mais discutida na grande mídia, o que é bom, considerando o aumento constante de afastamento do trabalho em razão dos transtornos mentais.

Quanto mais se discute e se explana do que se trata, maior é a tendência de se buscar o tratamento adequado. Este artigo apresenta alguns aspectos da síndrome de burnout que devem ser compreendidos de maneira mais profunda e adequadamente. Vale ressaltar que a boa notícia é que sim, é possível sair desse estado psicológico de sofrimento para uma condição mais confortável, especialmente pelo processo psicoterapêutico, associado a outras boas práticas como boa alimentação e exercícios físicos.

A notícia ruim é que ainda algumas pessoas resistem em buscar o tratamento adequado, ou por desconhecimento ou por preconceito. Existem ainda aquelas que “delegam” aos medicamentos a responsabilidade da cura, ou até mesmo acreditam que seja apenas “uma fase” e que logo vai passar, magicamente. A síndrome de burnout está associada à um determinado padrão de comportamento e a cura jamais ocorrerá se não houver mudança neste padrão.

Os próximos 7 tópicos auxiliarão na melhor compreensão desta desordem emocional que tem afetado cada vez mais pessoas no Brasil e no mundo.

  1. Síndrome de burnout é diferente de depressão e transtorno de ansiedade

Apesar de certa similaridade dos sintomas, a síndrome de burnout se diferencia da depressão, ansiedade ou até mesmo o transtorno bipolar pela sua relação direta com questões do trabalho, seja esta decorrente por trabalhar muitas horas seguidas, sob muito estresse ou em locais com ambientes hostis. 

A síndrome de burnout pode num determinado momento avançar para outro transtorno específico, mas também é possível que uma pessoa que já tenha alguma desordem emocional prévia, tenha mais sensibilidade para desenvolver a síndrome de burnout, ainda que não tenha pesquisas que afirmem isto categoricamente. 

Independentemente de qual transtorno esteja se manifestando, o mais importante é buscar ajuda especializada de um psicólogo ou psiquiatra para fazer a avaliação e tratamentos adequados.

  1. Cuidado com vídeos “motivacionais” que incitem comportamentos contrários à nossa biologia: síndrome de burnout não é a doença dos “vencedores”, nem de “perdedores”.

Ainda que não se tenha associado da síndrome de burnout com a ideia de sucesso ou vitória, existem situações que que associam o excesso de trabalho ou a privação de sono como ações necessárias para todos que almejam o sucesso.

Não cabe neste artigo debater o conceito de sucesso, mas cabe reforçar que especificamente no que tange a privação de sono, além de perda de memória, aumento da obesidade, diminuição da capacidade de concentração, aumento o índice da ocorrência de acidente vascular cerebral no médio prazo, além de reduzir a expectativa de vida. 

Qualquer coisa que seja contra a biologia da vida deve ser considerada como anormal. Uma das razões da síndrome de burnout é exatamente o excesso de horas trabalhadas, de maneira descomunal. Algumas carreiras como, por exemplo, médicos em período de residência, têm cargas horárias semanais de 120 horas semanais – ainda que isso não seja o previsto em contrato. São 17 horas em média por dia considerando 7 dias. 

Outro exemplo são as pessoas que assumem suas obsessões pelo trabalho como algo normal, pois é somente assim que elas entendem que os bons resultados acontecerão. Esta lógica representa uma meia verdade, pois pode ser que bons resultados profissionais ocorram, mas ao custo de um estresse ou esgotamento emocional, e isto também é resultado – negativo para a saúde. Além do mais, uma pessoa obcecada pelo trabalho, ainda que ela não perceba o mal que faz a si mesma, pode contaminar negativamente suas relações humanas, seja com uma pressão desmedida direcionada à equipe que gerencia ou a recorrente ausência de participação mais ativa do dia a dia de seu lar, junto a seus familiares ou das suas relações sociais.

Não se trata de assumir que trabalhar menos horas, por exemplo, é algo extremamente simples de se mudar. Mas é preciso que cada profissional tenha em mente qual é a medida aceitável para sua saúde e harmonia de vida.

  1. A síndrome de burnout não se cura com equilíbrio, e sim com harmonia, conceitos sutilmente diferentes.

Na mitologia grega a Harmonia é filha de Ares, deus da guerra e Afrodite, deusa do amor. Simbolicamente isto significa que a harmonia é resultante de uma dinâmica de opostos que se relacionam, que se intercambiam, que se movimenta para diversos lados.

Já o equilíbrio prevê que duas partes com valores equivalentes compensam uma à outra, de forma estática. Talvez exista uma confusão entre a ideia de equilíbrio e do “caminho do meio”, especialmente proclamada pelo budismo. Contudo, o caminho do meio budista traz mais a ideia de harmonia do que equilíbrio.

A natureza é harmônica. O corpo humano com sua biologia, é harmônico. As emoções também devem estar em harmonia. A diferença na harmonia não há esta relação de equivalência e constância, tal qual o equilíbrio. O preceito de equilíbrio não passa de mera ideação, porque na verdade, tudo que se sabe sobre aspectos psicológicos e biológicos leva à ideia de equilíbrio dinâmico, isto é, constante ação e reação de opostos que harmonicamente se complementam, desde as batidas do coração até a flexão dos músculos. Equilíbrio estático é para um artista, um equilibrista, mas para a vida é sinônimo de morte.

Como isso, é esperado que eventualmente se trabalhe muito, muitas horas, com muita dedicação. O problema é quando este padrão vira regra. Colocado de outra forma, a doença se instala quando há um equilíbrio no trabalho, sem que exista o trânsito pelos outros diversos componentes da vida (família, lazer, amigos, diversão, etc.).

  1. Implicações da síndrome de burnout fazer parte das listas de doenças mentais da OMS.

No que tange as consequências diretas para a vida dos profissionais, num primeiro momento, não tem muitas mudanças. Talvez a maior mudança ocorra na forma de se gerir isto nas empresas, com estatísticas e ações específicas para conscientização e no desenvolvimento de pesquisas futuros, sobre o dinamismo físiopsíquico da doença.

Especialmente para os RHs das empresas, que monitoram as doenças que geram afastamento do trabalho, talvez a especificação deste transtorno permita a coleta de mais informações para construir ambientes de trabalho mais saudáveis e acolhedores. Em termos de tratamento, não existe novas recomendações. Elas permanecem as mesmas: diminuição de contato com o fator estressor, psicoterapia, exercícios físicos, atividades culturais, etc.

  1. Por que não existe um remédio específico?

Ainda que a síndrome de burnout seja uma doença associada ao trabalho, a forma como ela se manifesta é muito específica. Em algumas pessoas os sintomas são parecidos com os da depressão em outras com os do transtorno de ansiedade, ou outros mais gerais. Se é cabível ou não o uso de medicamento, isso deve ser avaliado por um médico. A recomendação geral permanece: jamais fazer uso de medicamentos sem prescrição médica.

O que é consenso entre os profissionais da saúde, é que o processo psicoterapêutico é sempre benéfico, uma vez que, para que a redução dos sintomas aconteça, é preciso que se mude padrões de comportamento. Essa mudança com frequência tem mais êxito quando realizada via acompanhamento psicológico. É importante destacar que se deve ter cuidado com a enxurrada de curas miraculosas apresentadas especialmente na internet por profissionais que não são da área da saúde. 

  1. O burnout não é sobre a relação com o trabalho e sim sobre a relação com a vida.

Diversas pessoas trabalham muito e boa parte delas não desenvolvem a síndrome de burnout. Diversas pessoas trabalham em ambientes hostis, mas ainda assim não desenvolvem a síndrome de burnout. Algumas pessoas que vivem sob intensa pressão no trabalho, e também não desenvolvem síndrome de burnout. O que explicaria isto?

Primeiro é necessário expressar que as relações de trabalho devem passar por mudanças que visem o bem-estar das pessoas, haja visto os diversos dados estatísticos que apontam para o crescente afastamento de pessoas em decorrência de crises emocionais, como depressão, transtorno de ansiedade ou síndrome do pânico. Já existem diversas iniciativas, como sala de descompressão, programas de saúde e bem-estar, dentro outros. São ações que apontam para um bom horizonte, mas por outro lado, também é preciso falar do ser humano individual e como ele mesmo se relaciona com o trabalho. 

Toda e qualquer relação humana, seja uma relação amorosa, entre amigos, familiares e, claro, com o trabalho, antes de ser uma relação per si, é uma ideação. Ela acontece previamente no inconsciente e se manifesta de maneira projetada, interpretada pela consciência partindo dos recursos que ela tem à disposição para interpretar. Em outras palavras, raramente um chefe será tão bom quanto o desejo que ele seja. Raramente um parceiro ou parceira será tão perfeito ou perfeita, quanto o desejo que ele seja. Lidar com as pessoas tal como elas são é um desafio relacional para todas, pois as pessoas jamais serão espelhos da ideação que se faz delas.

Porém, para compreender as pessoas tal como elas são, é preciso que se tenha o máximo de recursos na consciência para conhecer as pessoas sob diversas facetas, sem que isto seja sinônimo de um julgamento negativo. Por exemplo, se uma pessoa gosta de sertanejo em vez de rock, não significa que ela não seja alguém interessante para se relacionar, sob qualquer ótica relacional.

Absolutamente tudo aquilo que não pode ser reconhecido pela consciência, será percebido como algo a ser evitado, um “invasor”. Ao se passar por uma crise como a síndrome de burnout, o que ocorre é uma infusão do inconsciente para a consciência, e o que está contido neste processo é eventualmente a descoberta de coisas que não conhecíamos, nem sabíamos sobre nós.

É como se percebêssemos em nós mesmos uma dualidade: aquela pessoa que parecia tão forte, de repente se apresenta fragilizada; aquela pessoa tão determinada, de uma hora para outra não vê sentido em mais nada; aquele ser que parecia ser tão feliz, agora parece não ver alegria em nada.

A síndrome de burnout sugere um olhar simbólico para este “outro ser”, reconhecendo que no fim das contas somos um composto harmônico de ambiguidades, incoerências e paradoxos. Isso pode parecer muito óbvio, mas é algo difícil de se constatar e mais difícil ainda de lidar.

  1. Como a psicoterapia pode ajudar?

A psicoterapia possui diversas abordagens e referenciais teóricos. O processo descrito aqui é baseado nas ideias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. De maneira bastante simplificada o processo consiste em:

  1. Compreensão do momento atual de vida;
  2. Identificação das projeções realizadas, ou seja, como se está lidando com conteúdos próprios que são percebidos apenas nos outros;
  3. Redução dessa projeção para que se entre em contato com o que se é, e não com o que idealizamos de nós mesmos;
  4. Percepção das personas, os “personagens” utilizados para nos relacionarmos com mundo, e qual é a psicodinâmica delas em nossas relações com os outros, por vezes sadias e, outras tantas, danosas – especialmente quando nos identificamos com apenas uma persona, como se não pudéssemos assumir outras posturas conforme as exigências de variados ambientes;
  5. Enfrentamento da sombra, que é o momento que se tem que lidar com os aspectos mais negados em si mesmo, e que são os mais afastados da percepção consciente;
  6. Entendimento de padrões comportamentais, tanto em suas causas como em suas finalidades;
  7. Estabelecimento de um caminhar para a totalidade, um ponto em que o dinamismo dos opostos se integram e proporcionam uma nova relação, harmônica, com o trabalho e com a vida, e talvez essa seja a maior ajuda e contribuição do processo analítico.

É preciso dizer que esta sequência não é ordinária, tampouco acontece de maneira linear. Na prática ela é intercalada por diversas outras etapas, idas e vindas, que fazem parte de uma nova e grande recomposição de si mesmo. A consequência, além da redução dos sintomas, é a abertura de novas possibilidades e caminhos para viver a vida, de maneira harmônica e integrada.

Texto elaborado por Rafael Rodrigues de Souza, Psicólogo – CRP 06/81640. Graduado em Psicologia e duas pós-graduações, uma em Administração pela FGV-SP e outra em Psicologia Analítica também pelo IJEP. Além disso, possui uma capacitação no universo da Psicologia Analítica no C. G. Jung Institut de Zurich (Küsnacht).