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Mercado vê contradições de Tombini após relatório do FMI e se diz ‘traído’

"Esquisito", "decepcionado" e "perplexo" foram alguns dos termos usados por economistas para tratar da nota emitida pelo presidente do BC nesta terça

Parte do mercado financeiro se sentiu “traída” pelo Banco Central depois da divulgação, nesta véspera da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a Selic, da nota com comentários do presidente Alexandre Tombini a respeito das revisões feitas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia brasileira.

Para economistas, a autoridade monetária vinha, até então, por meio de seus documentos e discursos, direcionando as expectativas do mercado para uma elevação da taxa básica em 0,5 ponto porcentual. Isso ocorria com o fato de o BC ressaltar seu compromisso com a trajetória de convergência da inflação para a meta central de 4,5% até 2017 e o objetivo de evitar que a inflação fechasse 2016 acima do teto de 6,5%, como ocorreu em 2015.

Mas a nota emitida nesta terça-feira deixou a impressão de que o BC, pressionado por demais membros do governo para dar uma alta menor nos juros, ou nem aumentar, aproveitou o relatório do FMI, que não fez nada além de mostrar o que os números da atividade – e o próprio mercado – vêm atestando há meses, para corrigir a rota das expectativas. O saldo foi o aumento da desconfiança sobre a trajetória dos juros.

Segundo apurou o Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, o governo trabalha com projeção de alta de 0,25 ponto porcentual na taxa. A presidente Dilma Rousseff conversou na segunda-feira com Tombini, em reunião que não apareceu na agenda oficial.

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Segundo a nota emitida nesta manhã, Tombini avalia que as mudanças nas projeções do FMI para o PIB do Brasil foram “significativas”. Ele também afirmou na nota que “todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”. De acordo com relatório publicado pelo FMI, a projeção de queda do produto interno bruto (PIB) brasileiro em 2016 passou de 1% para 3,5%. Para 2017, saiu de uma alta de 2,3% para zero.

Nesse contexto, o fato de o BC publicar nota desse tipo na véspera da decisão gerou indignação no mercado. “Inacreditável o BC fazer isso de véspera. Absolutamente injustificável usar os dados do FMI para isso quando o mercado inteiro já está com o cenário consolidado muito ruim para este ano e o ano que vem”, disse Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Aparentemente, descobrir que a recessão continua este ano pelo FMI realmente só joga mais uma pá de cal na credibilidade do BC.”

Dois ex-integrantes do Copom se disseram “perplexos” com a divulgação da nota, para os quais uma postura dessas não tem paralelo na história do BC. “É contraditório com toda a linha apresentada desde o final do ano passado. Ou o BC não passou os recados certos ou teve de mudar de posição de última hora, o que é muito pior”, avaliou um deles. “Todos os sinais do BC eram mais hawkishes (inclinados ao aperto), apesar da recessão. Não entendemos o motivo de Tombini passar um recado tão dovish (suave) no meio do caminho”, disse outro ex-membro.

Um economista do mercado financeiro admitiu que ficou “bem decepcionado” com a atitude do Banco Central, por ser diferente dos comunicados anteriores. “Recentemente, a (presidente) Dilma falou que o BC era autônomo, mas não independente. Na constituição, é isso mesmo, mas dá um sinal ruim para o mercado”, disse. Segundo o economista, outro ponto “esquisito” que o mercado levou em conta foi a reunião ontem entre Tombini e a presidente Dilma, que não estava agendada. “Por isso acho que o mercado agiu tão rapidamente”, afirmou.

Para o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro, o Banco Central tem uma missão difícil pela frente. “Para que se mostre comprometido, o BC tem que anunciar um aumento na taxa Selic”, diz. “A missão é baixar a inflação o mais rapidamente possível.”

(Com Estadão Conteúdo)