Mercado não espera surpresas na Selic, mas aguarda ‘cereja do bolo’
É consenso no mercado que o BC encerre o ano com a taxa em 13,75%, mas o foco de atenção será a divulgação da ata pós-copom
O Comitê de Política Monetária (Copom) realizará a oitava e última reunião do ano na terça-feira, 6, e o mercado não espera surpresas na decisão. Após cinco elevações e duas manutenções na taxa básica de juros, a Selic, é consenso no mercado que o Banco Central encerre o ano com a taxa continuando em 13,75%, mas o foco de atenção do mercado será a divulgação da ata pós-Copom, considerada a “cereja do bolo” por indicar o raciocínio dos integrantes do comitê do BC para o próximo ano.
A inflação registrou três meses de deflação – bastante impactada pela medida artificial e de impacto temporário da redução do ICMS – mas voltou a subir. Há seis semanas consecutivas, o mercado projeta alta no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com o indicador subindo de 5,63% para 5,92% no Boletim Focus, documento semanal contendo as perspectivas de mercado para a economia brasileira, e os especialistas não esperam nova deflação, dado que o efeito dos cortes de impostos já foi completamente absorvido.
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já sinalizou diversas vezes que o BC continuará vigilante e vai perseguir o objetivo de trazer a inflação para a meta, fixada em 3,25% para 2023. Em palestra realizada no último mês, na sede da Bloomberg, em São Paulo, Campos Neto disse que a inflação ainda não foi combatida e ainda não havia motivos para comemorar. “O registro de alta em outubro, a transição do governo e a possível elevação do teto de gastos trouxeram pressão para a inflação, elevando mais uma vez as projeções para 2023”, diz André Malucelli, diretor de investimentos do Paraná Banco. Segundo Malucelli, em um cenário de controle fiscal, o caminho natural da Selic é se manter em 13,75% até meados de 2023 e encerrar o ano que vem próximo de 11%. Porém, se um cenário de descontrole fiscal se materializar, podemos ter a manutenção da Selic ao longo de 2023 ou até mesmo um novo ciclo de alta.
A transição de governo e as indicações de Lula de aumento de gastos para bancar as promessas de campanha adicionam mais risco fiscal para o país, campo que já vinha pressionado durante os últimos tempos da gestão de Jair Bolsonaro. A tramitação da PEC da Transição, que prevê um gasto anual extrateto de quase 200 bilhões para os próximos quatro anos para financiar o Bolsa Família e demais investimentos sociais, fez as curvas de juros subirem. “A expectativa é que um possível corte ocorra somente no segundo semestre de 2023, porém, dependendo do andamento da PEC da Transição, podemos ter um cenário completamente oposto, com um aumento na taxa de juros para níveis acima de 14% no próximo ano. O cenário de incerteza fiscal será determinante para validar a precificação da curva de juros, indo na contramão da expectativa de um possível corte no próximo ano”, avalia Lucas Seixas, CEO da InvestAI.
Segundo Victor Inoue, chefe de produtos da WIT Invest, o risco fiscal não está sob controle, e a PEC apresentada pelo governo eleito, se aprovada como está, levaria a um déficit de até 2,6% do PIB em 2023 e permaneceria em terreno deficitário pelo menos até 2026. “Caso a PEC não seja desidratada, podemos entrar em um cenário de dívida insustentável levando a uma situação de dominância fiscal. No cenário pré-eleição, esperávamos o início de cortes no segundo semestre de 2023, mas devido aos ruídos recentes sobre política fiscal o cenário se tornou muito incerto”, diz.
O cenário externo também continua bastante desafiador com as principais economias caminhando para uma desaceleração forçada, movimento puxado pela elevação dos juros para controlar a inflação. Além disso, as tensões acerca da guerra entre Rússia e Ucrânia e a política “Covid Zero” na China continuam gerando efeitos preocupantes na economia, e seguem sendo motivos de alerta para o Banco Central na condução da política monetária.







