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Mercado da dívida em plena ebulição pela crise na Europa

Por Por Jean-Baptiste Oubrier - 2 jun 2012, 12h21

O mercado da dívida viveu uma semana de infarto, com as taxas alemãs e francesas em suas mínimas históricas e as de Espanha e Itália nas nuvens, e esta situação excepcional pode se tornar habitual enquanto a crise na Eurozona prosseguir.

O mercado de obrigações, onde são negociados os títulos já emitidos pelos Estados, foi um verdadeiro termômetro das tensões que atingem a Eurozona, integrada por 17 dos 27 países da União Europeia.

Poucas vezes a diferença entre os rendimentos das obrigações soberanas dentro do bloco foi tão grande.

As instabilidades ocorreram principalmente devido à situação da Espanha, onde o Estado tenta ajudar um cambaleante setor bancário.

As taxas dos títulos espanhóis a 10 anos se aproximaram de seu recorde histórico, ficando a poucos décimos dos 7%.

Custo semelhante de financiamento é dificilmente sustentável no longo prazo e há os que pensam que pode inclusive se aproximar dos 8%, um nível que precedeu os pedidos de resgate internacional de Grécia, Portugal e Irlanda.

A Itália esteve menos exposta, embora os rendimentos de suas obrigações também tenham dado um salto, roçando os 6%.

As incertezas sobre o futuro da Eurozona levam os investidores, como ocorre desde que a crise da dívida se agravou, em maio de 2010, a adquirir títulos dos países considerados mais seguros.

“É realmente um sinal de que os investidores buscam, acima de tudo, salvar seu capital”, mais do que obter grandes lucros, explica Cyril Regnat, estrategista do mercado de obrigações do banco Natixis.

“Os movimentos observados em maio são extremos, com poucos precedentes. E ocorre forçosamente um desvio dos fundamentos econômicos. É difícil, por exemplo, justificar uma taxa alemã abaixo de 1,7% ou de 1,8%”, afirma Axel Botte, da Natixis AM.

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Alguns títulos de dívida soberana foram negociados a valores mínimos históricos, como o da Alemanha, a 1,1%, e o da França, a 2,1%. Ocorreu algo similar com países de fora da Eurozona, como Grã-Bretanha e Estados Unidos.

Todos estes países podem se endividar, assim, a um custo baixíssimo.

E diante do agravamento da crise, esta situação pode se prolongar, a menos que os dirigentes europeus ou o Banco Central Alemão (BCE) tomem medidas contundentes para apoiar os países mais fragilizados.

Há economistas que consideram que as taxas alemãs a dez anos podem tocar o 1%. Alguns rendimentos a curto prazo já são feitos com pura perda, como na Alemanha, já que fornecem rendimentos inferiores à inflação.

“Para os países mais sólidos, as obrigações já não têm um piso de referência”, disse Cyril Regnat.

No mercado de futuros, as obrigações da Alemanha e da França são negociadas em seus níveis máximos, sinal de que os investidores consideram que os rendimentos seguirão caindo.

A evolução do mercado dependerá tanto da Espanha quanto das eleições de 17 de junho na Grécia, onde uma vitória dos partidos que se opõem aos programas de austeridade pode aumentar as especulações sobre uma saída deste país da Eurozona.

“Boa parte dos operadores de mercado estão à expectativa de um esclarecimento da situação grega”, sustenta Regnat.

Há “um risco de niponização na Europa”, ou ao menos na Alemanha, afirma Ciaran O’Hagan, estrategista do Société Générale CIB, lembrando que os rendimentos das obrigações da dívida soberana do Japão a 10 anos chegaram a cair a 0,4%, em um contexto que combinava acumulação de dívidas e anemia econômica.

O mercado pode tomar outra direção em caso de boas notícias.

“Os rendimentos alemães podem subir rapidamente. Podem aumentar 0,5 ou 0,75 pontos em poucas sessões, mas para isso seriam necessárias uma ação do BCE ou uma ajuda externa para a Espanha”, opina Botte.

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