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Mercado alerta para ‘bomba fiscal’ , ‘populismo’ e ‘deseducação financeira’

Economistas criticam as medidas do governo na economia

Por Veruska Costa Donato 30 jun 2026, 14h57 | Atualizado em 30 jun 2026, 15h54
Mercado alerta para ‘bomba fiscal’ , ‘populismo’ e ‘deseducação financeira’ Priorizar nos meus resultados Google

A divulgação das contas públicas pelo Banco Central trouxe um ingrediente que o mercado não esperava encontrar em meio ao debate sobre os próximos passos da economia: a dívida bruta do governo alcançou 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior patamar em cinco anos.

Déficit primário de 56 bilhões de reais

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 56,1 bilhões em maio, reforçando a percepção de que o país continua gastando mais do que arrecada. O resultado provocou críticas entre economistas e gestores, que enxergam um cenário cada vez mais desafiador justamente quando a política fiscal passa a dividir espaço com as pressões típicas de um ano eleitoral.

Demanda e pressão das contas públicas

A preocupação vai além dos números. Para os analistas, o avanço da dívida dificulta o trabalho do Banco Central no controle da inflação e reduz o espaço para uma queda dos juros.

A avaliação é de que novas medidas de estímulo ao consumo e de ampliação de benefícios acabam alimentando a demanda em uma economia que já opera com sinais de aquecimento, exatamente um dos pontos destacados pelo Copom em sua comunicação mais recente.

Crédito mais caro com Selic a 14,25%

Com isso, os juros futuros seguem elevados, encarecendo o crédito e aumentando o custo de financiamento das empresas. O efeito é direto sobre investimentos, expansão dos negócios e geração de empregos.

Na bolsa, o mercado já privilegia companhias menos endividadas, enquanto empresas mais alavancadas sofrem para preservar margens e rentabilidade.

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As pautas-bomba

Os especialistas também chamam atenção para o volume de propostas que ainda podem pressionar as contas públicas nos próximos meses.

Entre elas estão a votação no Senado da medida provisória que altera a aposentadoria dos agentes comunitários de saúde, a discussão na Câmara sobre o aumento do teto de faturamento para empresas do Simples Nacional, a proposta de ampliação do limite do MEI e o novo Plano Safra, anunciado nesta terça-feira.

Governo e Congresso pressionam gastos, cada um a sua maneira

Cada iniciativa tem objetivos específicos e atende diferentes setores da economia, mas, somadas, ampliam as dúvidas sobre a capacidade do governo de cumprir as metas fiscais. Nesse ambiente também entrou o Desenrola Adimplentes.

Parte dos economistas acredita em risco fiscal indireto

Embora o Ministério da Fazenda sustente que o programa não produz impacto imediato nas contas públicas por utilizar recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO), economistas avaliam que existe um risco fiscal indireto caso haja inadimplência elevada.

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O ministro Dario Durigan classificou como “forçação de barra” associar o programa ao aumento da dívida, mas a leitura predominante entre agentes financeiros é que qualquer medida que incentive crédito ou amplie subsídios acaba sendo incorporada ao cálculo de risco fiscal.

‘Caráter populista’ e ‘deseducação financeira’

O professor do Insper, Ricardo Rocha, em entrevista à Veruska Donato no programa Mercado, faz críticas duras ao conjunto dessas iniciativas. Para ele, o Desenrola Adimplentes representa uma “deseducação financeira” e tem caráter “populista e eleitoreiro”.

Rocha tem dúvida se a medida vai funcionar, “o governo tá estimulando o consumo pra quem está com as contas em dia, o ideal é estimular a guardar dinheiro, esse desenrola é algo assim estarrecedor na minha visão”. 

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Risco de inflaçao

O economista afirma que estimular crédito para quem já está adimplente tende a aumentar o consumo e, consequentemente, pressionar a inflação. Rocha também alerta para o risco de o Brasil voltar a conviver com um processo de inflação persistente caso o ritmo de expansão dos gastos continue superior à capacidade de geração de receitas, “A gente corre um sério risco de voltar não pra inflação do Sarney, de 85% ao mês, mas por um processo inflacionário crônico”, diz. 

Crescente preocupação fiscal

Na mesma direção, Vitor Borges, da Manchester Investimentos, afirma que o país vive um momento de crescente preocupação fiscal. Segundo ele, as empresas que não mantiverem disciplina financeira poderão ser surpreendidas quando o cenário econômico perder força.

“O investidor tem que estar muito ciente do que vai acontecer daqui para frente. Ainda mais se a gente continuar nessa trajetória que nós temos hoje com o nosso governo. Nós temos que olhar para empresas hoje, que são empresas que tem um controle financeiro, controle de dívida e que consigam fazer isso, enfim, sem meter os pés pelas mãos”, alerta. 

Governo está no limite

O especialista avalia que o governo já opera próximo do limite de arrecadação e, ao anunciar novas políticas de estímulo e subsídios, aumenta a percepção de descontrole das despesas. Vitor elogia o projeto de lei que aumenta o teto de faturamento para o micro empreendedor individual de R$ 81 mil por ano para R$ 120 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, e ainda a proposta da oposição de ampliar o Simples Nacional para chegar a mais empresas.

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O melhor e o pior dos mundos

O problema, segundo ele é o momento em que isto está sendo efeito e como. “Você reduzir impostos de quem produz valor, produz riqueza na economia é o melhor dos mundos, você gera mais empregos, consumo, e atividade econômica. O problema é a que custo? Qual é o subsídio?”, argumenta. 

No fim da contas, dizem os economistas, quem paga é toda a sociedade: consumidores enfrentam juros mais altos, empresas investem menos e o crescimento da economia perde fôlego justamente quando o país mais precisa dele.

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