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Mercadante (agora) quer ‘Brasil competitivo’

O ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, disse nesta quarta-feira que o mercado financeiro pune quem não tem eficiência. O petista pediu, mais uma vez, a ajuda do Congresso para aprovar medidas do ajuste fiscal e rejeitar projetos que aumentem os gastos do governo. “O Brasil tem de ser mais competitivo, e o Congresso tem que ajudar”, afirmou em audiência pública na Câmara, na Comissão de Minas e Energia. Quem compara a fala do ministro hoje com seu discurso durante o período eleitoral, há de pensar que Mercadante perdeu a cabeça (ou, quem sabe, recuperou o juízo). Para que se tenha uma indústria competitiva, é preciso seguir uma cartilha ortodoxa de reformas e uma política industrial que não beneficie alguns setores em detrimento de outros, sem medidas protecionistas que tornem o Brasil o único consumidor de sua própria produção. Ao longo de todo o governo da presidente Dilma, Mercadante amparou todas as empreitadas anticompetitivas, usando como argumento a retórica da proteção ao emprego. Agora, período em que o país é acionado na OMC por práticas anticoncorrenciais, o ministro dá mostras de que pode aderir à ortodoxia.

A constatação de Mercadante, que é economista graduado e pós-graduado, indica uma mudança brutal de postura em menos de um ano. Ele já havia dado mostras de seu pensamento, digamos, liberal em março deste ano, quando defendeu que o Congresso votasse rapidamente as medidas de ajuste para que o país não perdesse o grau de investimento. “Ajuste fiscal é mais ou menos como ir ao dentista. Ninguém quer, mas tem que ir. Quanto mais rápido, melhor para o país”, disse.

Logo após a reeleição de Dilma, o discurso do ministro era bem diferente. Em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, Mercadante não só criticou as medidas de ajuste, como disparou contra a oposição que, segundo ele, não hesitaria em aplicar políticas impopulares – e rápido. “A oposição não consegue ter uma visão que não seja economicista de manual. PIB para o povo é emprego e renda. Dizer, como está dizendo, que é preciso tomar medidas impopulares e que quanto mais rápido isso for feito, menor será o custo… menor para quem?”, questionava o ministro. Enfático, chegou a prometer: “Nós não faremos uma política ortodoxa e recessiva. Essa é a diferença de fundo”. Hoje, a previsão do governo é de que a economia recue, pelo menos, 1,5% este ano.

A entrevista de novembro de 2014 continua com trechos primorosos sobre inflação, recessão e reajuste de preços da energia e da gasolina:

– Inflação: “Quanto à inflação, eu acho que temos todas as condições de cumprir a meta deste ano”.

– Recessão: “Tivemos uma desaceleração importante no primeiro semestre, mas indicadores antecedentes estão mostrando uma recuperação moderada mas importante da economia nos últimos meses. Há um problema de expectativas que só resolveremos depois da eleição. Com um novo governo eleito e uma nova equipe, você restabelece condições de negociação e diálogo e de mais confiança ao investimento”.

– Aumento da conta de luz: “O que nós dizemos é que não existe um represamento de preços que exija um choque imediato. É isso que estamos dizendo o tempo inteiro”. E mais: “O aumento da energia teve um custo, mas é muito menor do que o racionamento imposto pela falta de planejamento e pelo modelo regulatório que o PSDB teve no passado”.

– Preço da gasolina: “Você tem que ter critérios um pouco mais consistentes de reajuste de preços porque a energia é um elemento estratégico em termos de competitividade para a indústria. Os reajustes da gasolina têm sido feitos anualmente. Houve aumento em dezembro de 2012, em janeiro de 2013. Os critérios [de reajuste] têm que ser de política energética para o desenvolvimento do país”.

(Com Estadão Conteúdo)