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Medidas cambiais recuperam segurança para investidor estrangeiro, dizem analistas

Economistas ouvidos pelo site de VEJA acreditam que a disparada do dólar tirou o efeito de previsibilidade do real - e aplaudem atitude do governo em tentar recuperá-la

Por Ana Clara Costa e Talita Fernandes - 5 dez 2012, 14h24

O mercado viu com bons olhos os últimos anúncios feitos pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central relacionados ao câmbio no Brasil. Segundo analistas ouvidos pelo site de VEJA, a redução do prazo de cobrança do IOF para empréstimos feitos no exterior anunciada nesta quarta-feira, somada à ação do BC na terça, foi um sinal de que o governo não quer a disparada repentina do dólar, fato que agrava a subida inflacionária e tira a previsibilidade do mercado brasileiro para investidores estrangeiros.

“Essas medidas trarão capital para o Brasil. E não vão estimular apenas os investimentos direto e via mercado de capitais, mas também devem favorecer a tendência de contenção de dólar e aliviam o Banco Central da obrigação de leiloar dólares constantemente”, afirma Celso Grisi, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo. Segundo Grisi, as ações que o governo vinha adotando para conter a entrada de capital externo não traziam segurança aos investidores. “Quem investe no Brasil quer condições institucionais claras, quer ver contratos cumpridos e assegurar o direito à propriedade. Intervenções na ordem econômica só podem ocorrer de maneira mais branda e negociada, e menos unilateral. E não é isso que vinha acontecendo”, explica o professor.

O governo afirmou em diversas ocasiões, nos últimos meses, que o dólar cotado a 2 reais não estava alto o suficiente para beneficiar as empresas exportadoras brasileiras na concorrência com o mercado externo. Contudo, após uma entrevista da presidente Dilma Rousseff concedida ao jornal ‘Valor Econômico’, em 19 de novembro, em que ela afirmava categoricamente que o dólar precisava subir, a moeda americana abandonou a banda de 2 reais e ultrapassou 2,10 reais – chegando a ser cotada a 2,12 reais na última sexta-feira e abriu o mercado a 2,13 reais nesta segunda-feira. A repentina subida fez com que o Banco Central tivesse de intervir fortemente no mercado de câmbio, ofertando dólares por meio de operações de swap cambial. Apenas a segunda-feira, o BC realizou quatro leilões, totalizando 2,857 bilhões de dólares.

A disparada do dólar mostra que o mercado entendeu o recado do governo – que, desde a entrada de Dilma na presidência, tem deliberadamente interferido na política cambial do Banco Central. Contudo, a gestão petista esqueceu de mencionar que queria, sim, o dólar mais alto – mas não agora, para não pressionar a inflação. Como resultado, teve de apagar o incêndio rapidamente, retirando medidas de proteção cambial que haviam sido impostas a investidores quando o real estava valorizado. “Havia uma preocupação de que o governo pudesse fechar ainda mais a entrada de capitais. Ele está sinalizando, com essas medidas, que mantém a mobilidade de capitais e que não vai mudar o regime cambial”, afirma o economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani.

Segundo economistas, é positivo que a moeda americana se aprecie – porém, moderadamente, para não prejudicar a previsibilidade e a segurança do investidor em relação ao mercado brasileiro. “Para uma recuperação maior das exportações, por exemplo, seria necessário que o dólar estivesse entre 2,45 e 2,50 reais. É a chamada taxa neutra. O dólar cotado a 2,10 reais está se mostrando baixo para ajudar os exportadores. Mas a alta do dólar, por outro lado, tem efeito inflacionário. E não queremos sair tanto do centro da meta. O que deve ocorrer gradativamente é que o dólar suba para 2,20 reais”, afirma Grisi, da FEA-USP.

Inflação – Apesar de ser ponto pacífico entre economistas que o dólar alto pressiona a inflação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou que a redução do prazo de cobrança do IOF foi impulsionada pelo ambiente inflacionário. Mantega justificou a medida dizendo que a taxa de juros mais baixa neutralizava a atuação do investidor especulativo, fazendo com que o IOF deixasse de ser uma ferramenta necessária para controlar a entrada de dólares no país. “Achamos que, com a taxa de juros mais baixa aqui no Brasil, não existe mais a atração de capitais especulativos e de arbitragem. O que é captado lá fora hoje é para capital de giro e investimento. Estamos facilitando para que os bancos e as empresas possam captar recursos lá fora acima de 365 dias”, afirmou o ministro, referindo-se à Selic na mínima histórica de 7,25% ao ano. “Essa medida não tem nada a ver com inflação”, acrescentou.

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