Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Mark Zuckerberg, do Facebook: CEO do futuro?

Facebook está pronto para o IPO desde o final de 2007. E sua estreia na bolsa, planejada para abril de 2012, não é um pesadelo para o jovem bilionário

Por Ana Clara Costa 17 jan 2011, 20h15

Zuckerberg poderá se tornar o mais célebre representante de uma nova geração de CEOs de companhias abertas

O filme ‘A Rede Social’, que trata dos bastidores da fundação do Facebook, levou neste domingo quatro Globos de Ouro, uma premiação que é considerada uma prévia do Oscar. Logo, Mark Zuckerberg – criador, presidente e ‘protagonista do filme’, em papel interpretado pelo ator americano Jesse Eisenberg – não deixará tão cedo de estar no centro das atenções da imprensa e do mercado. Ainda mais agora, que sua empresa prepara-se para lançar ações na bolsa de valores, numa operação bilionária prevista para abril de 2012. O que não se sabe é como o regulado mercado de capitais americano vai encarar uma empresa, que, apesar de promissora, terá a sua frente um homem de menos de 30 anos, que está longe de ‘encarnar’ o tradicional ‘CEO’.

Sistemático, ganancioso, workaholic, inteligente, objetivo, entre outras características, o fato é que “Zuck” é jovem. E como a maioria das pessoas com 26 anos, comporta-se como tal. Desde que o Facebook se tornou uma ferramenta aberta, em 2006, o bilionário comemora com festas cada marco expressivo de sua rede. Em 2008, chegou a dar uma “toga party” – festa em que todos os convidados usam a tradicional veste romana – para celebrar a marca de 100 milhões de usuários. Zuckerbeg, inclusive, apareceu na festa sorridente vestido como Júlio César.

Pronto para a bolsa desde 2007 – Ao mesmo tempo em que planejava a celebração, o sem-diploma Zuckerberg pilotava o dia-a-dia de uma empresa preparada para estrear na bolsa – com um valor de mercado, na época, próximo de 15 bilhões de dólares. De acordo com um ex-engenheiro do Facebook ouvido pelo site de VEJA, desde o final de 2007, estão preenchidos todos os requisitos para uma oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês). “Com a estruturação e as inúmeras auditorias financeiras internas feitas na época, atingimos os níveis de boas práticas corporativas exigidos pelo mercado. Isso permitiria ao Facebook se tornar uma empresa pública ainda naquele ano”, afirmou o executivo, que preferiu não ser identificado. O lançamento de ações, no entanto, deverá acontecer apenas em abril de 2012, segundo um documento enviado pelo Goldman Sachs a seus acionistas.

O burburinho em torno de um iminente IPO da empresa aconteceu após o investimento de 500 milhões de dólares feito pelo banco Goldman Sachs e pela empresa de investimentos russa DST Global, nos últimos dias de dezembro. Tal quantia alçou o valor de mercado do site de relacionamentos a espetaculares 50 bilhões de dólares – hoje, segundo apurou o site de VEJA, o valor já alcança 60 bilhões – e deu a Zuckerberg um sócio de má fama.

Entrada do Goldman – Em Wall Street, desde as acusações de fraude em operações envolvendo hipotecas nos Estados Unidos, todas as negociações realizadas pelo Goldman despertam o instinto investigativo da imprensa e dos órgãos reguladores. Por essa razão, o mercado desconfiou. E o cerne da dúvida era se, com a entrada do banco e de seus clientes, o Facebook ultrapassaria o limite de 499 investidores permitido pela Security Exchange Comission (SEC) – a xerife do mercado de capitais americano, equivalente à CVM brasileira – para que uma companhia continuasse fechada. “Aparentemente, a operação foi legítima. O Goldman ou qualquer outro investidor pode tentar comprar participação em uma empresa privada, desde que o limite de sócios seja mantido. E todos querem um pedaço do Facebook”, afirma Cesar Canali, vice-presidente para América Latina da empresa de investimentos MF Global, cujo atual presidente é, coincidentemente, Jon Corzine, ex-CEO do Goldman Sachs.

Continua após a publicidade

Outra questão controversa é deixar a gestão de uma empresa bilionária de capital aberto nas mãos de um jovem – em 2012, Zuckerberg fará 28 anos em 14 de maio – que possui comportamento independente e avesso a regras. Vale lembrar que ele abandonou o curso de Ciências da Computação em Harvard para se mudar para Palo Alto, na Califórnia, e transformar o Facebook em negócio. Ignorar o diploma de uma das mais prestigiadas universidades do mundo é um indício de que ele não está muito preocupado com tradicionalismo.

Além disso, Zuckerberg já deixou claro que não enxerga o IPO com bons olhos porque não está em seus planos perder o controle da ferramenta que construiu. Ao programa 60 Minutos, exibido pela rede americana CBS em dezembro de 2010, o jovem foi categórico. “Várias pessoas que criam empresas acham que vendê-las ou lançá-las no mercado de capitais é o fim do caminho, como se você tivesse vencido o jogo. Eu não penso assim”, disse à apresentadora Leslie Stahl.

No entanto, de acordo com fontes ouvidas pelo site de VEJA, Zuckerberg teve de aprender, ao longo dos anos, a respeitar os 499 sócios que injetaram bilhões de dólares em sua empresa. “Há um certo mito de que Mark seja um jovem ingênuo que não tem consciência da magnitude de seu negócio. Na realidade, nesses cinco anos, ele se tornou um empresário sofisticado que sabe o que está fazendo”, afirma um antigo funcionário. O trabalho constante e a pressão de comandar uma empresa global fizeram com que Zuckerberg amadurecesse rápido. “Para os que o vêem de fora, tudo é fama e fortuna. Mas, a realidade é que ele está trabalhando em tempo integral e levando uma vida extremamente simples”, diz.

Distante do protocolo – O grande temor do mercado é que, quando o Facebook se tornar uma empresa de capital aberto, Zuckerberg não consiga atuar da forma diplomática e transparente exigida pelos investidores. Modificações nos negócios da empresa teriam de passar, possivelmente, pelo crivo dos principais acionistas. Desta forma, subjetividade e decisões importantes tomadas de modo informal teriam, conforme a cartilha de Wall Street, de dar espaço a uma gestão mais engessada e, sobretudo, com grande exposição midiática.

Caso consiga satisfazer a ânsia de transparência do mercado e, ao mesmo tempo, manter a gestão informal e prática de sua empresa, Zuckerberg poderá se tornar o mais célebre representante de uma nova geração de CEOs de companhias abertas: jovens, menos burocráticos e envolvidos no dia-a-dia das empresas. “Mark sabia que teria que fazer um IPO desde que os investimentos de fundos de ‘venture capital’ começaram a surgir. Essas empresas vão, em algum dia, trocar seus ativos do Facebook por dinheiro. Só estão à espera da abertura de capital. Mark está ciente disso”, afirma o ex-funcionário que ficou por quatro anos na empresa e ajudou a montar os primeiros códigos da rede social.

Engana-se quem pensa que o clima de informalidade em que trabalham os 1 700 funcionários da companhia – em sua grande maioria com idade inferior a 30 anos – significa brandura. Zuckerberg sabe de cada detalhe do que se passa em todos os departamentos e não é conhecido pela simpatia. A reclamação mais recorrente é que, sempre que alguém lhe dirige a palavra ou tenta lhe explicar uma ideia, ele se comporta como se não desse a mínima atenção. No entanto, minutos depois, é capaz de reproduzir todas as palavras do que lhe foi dito.Apesar de não dividir as rédeas da empresa com os co-fundadores (Dustin Moskovitz, Chris Hughes e o brasileiro Eduardo Saverin), ele é assessorado por dois executivos provenientes do mercado financeiro: a diretora de operações Sheryl Sandberg, ex-Google e que também foi do alto escalão do Departamento do Tesouro americano, e o diretor financeiro David Ebersman, que deixou a vice-presidência executiva da empresa de biotecnologia Genetech para assumir o cargo, em 2009. Além disso, entre seus mentores está ninguém menos que Steve Jobs, da Apple. Escolhido pela revista americana Time como a Pessoa do Ano de 2010, Zuckerberg afirmou em entrevista em vídeo ao veículo: “Não me considero um homem de negócios”, disse. Os leões de Wall Street mal podem esperar para verificar se a afirmativa, de fato, procede.

Continua após a publicidade

Publicidade