Maré de oportunidades: COP30 impulsiona Belém ao topo entre as grandes cidades do Norte
Capital paraense aposta em petróleo, bioeconomia e turismo para sustentar um novo ciclo de desenvolvimento
Com a COP30, a conferência internacional do clima realizada em 2025, Belém entrou na rota do mundo — o desafio agora é permanecer nela. A capital paraense ficou em primeiro lugar entre as melhores cidades do Norte, destacando-se pelos bons indicadores econômicos e por seu papel como centro regional de comércio, serviços e turismo. Para o prefeito Igor Normando (PSDB), a COP30 projetou a cidade em um novo palco nacional e internacional, mas a exposição não resolve os problemas locais. O objetivo agora, afirma, é convertê-la em investimento, emprego e melhoria concreta da vida urbana. Segundo ele, há sinais de continuidade após o evento, como a alta de cerca de 20% no número de turistas nos últimos doze meses e o aquecimento do setor hoteleiro, com bandeiras como Tivoli e Vila Galé e procura por novos empreendimentos.
A frente de maior potencial econômico está no subsolo do mar. A pesquisa exploratória de petróleo na Margem Equatorial, autorizada após um longo processo de licenciamento ambiental, é vista como uma nova fronteira de riqueza. Isan Anijar, presidente da Associação Comercial do Pará (ACP), projeta o impacto sobre municípios paraenses, com royalties, empregos e atração de empresas. O prefeito Normando vê nesse movimento uma oportunidade para transformar Belém em hub logístico e industrial, reduzindo a dependência da exportação de commodities. Permanece, no entanto, a tensão entre a cidade que sediou a COP30 e a expectativa em torno do petróleo. Anijar argumenta que a exploração passou por avaliação ambiental e está nas mãos da Petrobras, empresa que, segundo ele, tem experiência para conduzir o processo. Para o presidente da ACP, a conferência deixou um legado que vai além das obras: mudou a mentalidade de parte do empresariado, que passou a discutir sustentabilidade, bioeconomia e compromissos ambientais com uma intensidade que antes não se via.
A bioeconomia é a face verde dessa agenda. O governo estadual inaugurou na cidade, em outubro de 2025, o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia. Resultado de um investimento de 300 milhões de reais, em parceria com o setor privado, o espaço é voltado a pesquisas sobre usos sustentáveis da floresta, com a proposta de gerar renda para populações amazônicas sem derrubar a mata. O turismo é a outra grande aposta. Belém integra a rede de cidades criativas da Unesco na gastronomia, e tanto o poder público quanto o setor privado veem nessa identidade um ativo econômico. Para Anijar, a cozinha regional, somada à vitrine internacional da COP30, colocou a cidade na via do turismo gastronômico. A conectividade também ajuda: a capital paraense conta com voos internacionais, como ligações para Lisboa e Miami, entre outras conexões.
A liderança no ranking, porém, convive com gargalos de porte. Belém carrega problemas como desigualdade, mobilidade difícil, ordenamento frágil e pressão sobre os serviços públicos. A cidade precisa avançar em saneamento básico, transporte, saúde e organização urbana para que o crescimento econômico se traduza em qualidade de vida. Um dos pontos mais sensíveis é o centro histórico. A região concentra mais de 2 000 empresas, mas perdeu atratividade com a ocupação desenfreada por ambulantes e a deterioração de parte do patrimônio urbano. Normando lembra que, no ciclo da borracha, Belém viveu um período de grande prosperidade, mas depois perdeu espaço no processo de industrialização. Mais de um século depois, entre a vitrine da COP30 e a fronteira do petróleo, a capital paraense vê a chance de recuperar terreno perdido.
Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28







