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Mantega afirma que risco Brasil é menor que o dos EUA

Ministro da Fazenda abusa da imprecisão para criar um factóide e afirmar que a política econômica conduzida por ele mesmo está na direção correta

Por Da Redação - 15 jun 2011, 14h36

Dados da Bloomberg mostram que, desde 20 de maio, o CDS nacional está abaixo do americano; técnicos do Ministério não sabem explicar porque o ministro resolveu falar sobre isso só agora

Adepto da crença de que boas notícias ajudam a desviar o foco da opinião pública dos problemas do país, o ministro da Fazenda, Guido Mantega aproveitou nesta quarta-feira o primeiro respiro do governo em um mês para requentar uma informação antiga e criar um factóide. Após tomar café da manhã com a presidente Dilma Rousseff e governadores do Norte e Nordeste, o ministro convocou uma entrevista coletiva para fazer a ‘revelação’. “Pela primeira vez na história, o risco do Brasil é menor do que o risco dos EUA”, afirmou Mantega, baseando-se em dados dos bancos internacionais para afirmar que a probabilidade de o Brasil deixar de pagar suas dívidas é menor do que a do governo americano dar um calote. Apesar de a informação se basear em números reais, Mantega abusou da imprecisão para criar seu factóide e, de quebra, fazer um auto-elogio. “Isso mostra que estamos praticando uma política econômica correta.”

Ao dar a sua boa notícia do dia, o ministro sonegou esclarecimentos sobre três pontos. O primeiro é que o índice usado por ele, o Credit Default Swap (CDS) – uma espécie de seguro usado por investidores como proteção contra a possibilidade de algum devedor não ter condições de quitar suas obrigações – não é o melhor termômetro para esse tipo de avaliação. O melhor parâmetro seria o tradicional ‘risco país’, conhecido por EMBI (Emerging Markets Bond Index). Os Estados Unidos, no entanto, não podem ser avaliados por esse índice, justamente porque ele mostra o diferencial de risco de um título público de algum país em desenvolvimento em relação aos papéis do Tesouro americano, que não têm risco algum. O CDS, por sua vez, revela de forma bastante indireta o risco de um país (o que ele mostra, na verdade, é um preço para segurar determinado título, o qual, este sim, varia em função do risco percebido). Ainda que o risco americano esteja, de fato, em elevação, economistas ouvidos pelo site de VEJA destacam que a hipótese de um calote da dívida americana é mais do que remota.

A segunda informação sonegada é sobre o momento do anúncio feito por Mantega. Os dados apresentados por ele mostram que o CDS da dívida brasileira está hoje em 42 pontos-base no prazo de um ano, ante o custo de 49 pontos-base para a proteção da dívida dos EUA em prazo equivalente. Dados da Bloomberg – que tira uma média dos CDS calculados individualmente por grandes bancos americanos (veja quadro) – mostram que o CDS brasileiro está abaixo do americano desde 20 de maio. Procurados pela reportagem, técnicos do ministério confirmaram que o risco brasileiro está, há quase um mês, em patamar inferior ao americano. Eles não souberam explicar porque só agora o chefe da resolveu falar sobre o assunto. No dia 20 de maio, o governo tentava lidar com a crise causada pela revelação, no dia 15, de que o patrimônio do então ministro Antonio Palocci havia se multiplicado por 20 em apenas quatro anos. Desde então, a presidente Dilma gastou um mês tentando segurar Palocci, antes de finalmente demiti-lo para nomear Gleisi Hoffmann e destacar Ideli Salvatti para a articulação política. Durante toda a tempestade, Mantega guardou para si a boa notícia.

Finalmente, o ministro também não explicou que o ‘fato histórico’ não significa uma melhora da economia brasileira, mas sim uma situação pontual de indefinição da economia americana. A piora da classificação de risco dos Estados Unidos guarda relação direta com as dificuldades atuais do presidente Barack Obama em obter uma solução consensual junto ao Congresso para reduzir o déficit fiscal no longo prazo. O ponto que têm gerado maior polêmica e nervosismo entre os investidores é a demora em aprovar um aumento do teto de endividamento do país. “O CDS dos Estados Unidos subiu por conta de uma questão atípica, que são essas dúvidas sobre o teto do endividamento”, explica o analista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria .”Acreditamos que os americanos não serão irresponsáveis de não aprovar essa medida. Tão logo fique clara uma solução para a questão, o risco dos EUA cairá e o CDS brasileiro retomará sua posição à frente dele.”

O ministro Mantega encerrou sua coletiva ressaltando que o governo ficou “muito feliz” com essa classificação do CDS. “A presidenta Dilma ficou satisfeita pelo fato de o Brasil ter um risco menor do que os EUA”, afirmou. Pelo visto, o ministro também não deu todas as explicações à sua chefe.

CDS de 2011

Desde 20 de maio, o CDS (instrumento que funciona como um seguro contra calote) dos EUA está acima do verificado para a dívida brasileira

Fonte: Bloomberg

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