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Manifestações contra o governo engordam o ‘PIB do Pixuleco’

Boneco inflável do ex-presidente Lula vira bom negócio para fabricantes que fazem da 'indústria do protesto' uma das poucas que crescem no país

Com traços de desenho infantil e olhar abobalhado, o boneco inflável do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestido de presidiário tornou-se o mascote de manifestações contra o governo – e um bom negócio para os fabricantes. Sob um cenário de retração econômica, aumento do desemprego e queda da produção industrial, não deixa de ser irônico que um dos raros nichos da indústria que vai bem é o que se dedica ao produto que virou símbolo dos protestos.

“Cada vez que um pixuleco aparece na mídia, a procura aumenta muito”, diz Denys Souza, diretor da Big Format, em Guarulhos (SP), fabricante do boneco do ex-presidente. Souza prevê um crescimento de 12% no faturamento e de 25% no aumento das encomendas neste ano. “Estamos na contramão da crise”, afirma. A empresa está trabalhando na confecção de 5 000 minipixulecos – encomenda sobre a qual não quis dar maiores detalhes. Um pedido de 1 000 peças custa 7 reais cada uma.

O ‘PIB do Pixuleco’ tem ajudado empresas do setor a compensar a frustração com o que esperavam faturar com a Copa do Mundo. “Até chegamos a fazer uns Fulecos (os mascotes da competição) para a Fifa, mas muitos clientes cancelaram projetos grandes e foi como se não tivesse ocorrido”, disse Souza. Como milhares de empresas Brasil afora, a Big Format precisou se ajustar ao atual cenário de crise – e demitiu 35 funcionários no fim do ano passado.

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Como em qualquer setor em expansão, os fabricantes partiram para a diversificação para seguir crescendo. Depois do Pixuleco surgiram a “Dilmintira” (caricatura da presidente Dilma Rousseff com um nariz grande, como o do personagem Pinóquio), o “Raddard” (caricatura do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, com um radar de trânsito à mão) e o “Lula de chifres”.

Oswaldo Toyofuqu, diretor da Promo Infláveis, de Diadema (SP), tem tentado fazer contato com os organizadores de protestos contra o governo. “Nós temos que aproveitar esse momento. Eu sou indústria, vivo disso”, diz. Toyofuqu está elaborando um “kit protesto”, com bonecos do juiz Sérgio Moro, que encabeça a Operação Lava Jato, Dilma, Lula e Haddad.

A empresa de Toyofuqu fabricou os 5 000 patos que a Fiesp colocou em frente à Esplanada dos Ministérios no dia 1º de outubro em um protesto contra os impostos. Cada um custou 8 reais. “Vi o pato na internet, liguei lá para Fiesp e eles toparam na hora”, afirma. O pato maior, usado na mesma manifestação, foi produzido pela Big Format, empresa que tem em seu portfólio outros itens de protestos, como um boto cor-de-rosa e um urso polar, solicitados por organizações não-governamentais da área ambiental.

A grande exposição dos infláveis despertou o interesse de um outro tipo de público para o produto. Acostumadas a atender grandes empresas, como Unilever, Coca-Cola e Itaú, Big Format e Promo Infláveis agora também prestam serviços para pessoas físicas, sem CNPJ. Essa clientela é formada especialmente por pessoas ligada a movimentos de protesto.

Custo da turnê – O pixuleco original, de 15 metros de altura, custou 12 mil reais, pesa meia tonelada inflado e já percorreu nove cidades no país. Sua guardiã é Celene Carvalho, do Movimento Brasil. As “apresentações” do boneco têm custo – gradil, seguranças, hospedagem, alimentação e às vezes aluguel de carro e motorista – bancado pelos manifestantes da cidade visitada. A conta chega a 5 mil reais, despesa em parte bancada pela venda dos pixulequinhos – a 10 ou 20 reais – durante as exibições públicas. Em Presidente Prudente (SP), por exemplo, visitada em 15 de setembro, chegaram a ser comercializadas 350 réplicas.

Em sua última passagem por São Paulo, o boneco foi esfaqueado por uma mulher, que chegou a ser levada para a delegacia. O caso alavancou a fama do pixuleco e aumentou os custos das suas expedições pelo Brasil. “Por causa das agressões, está caro transportar o pixuleco. Agora precisa ir acompanhado, sair escondido, ter segurança e grade”, disse Celene. Outros movimentos, como o Revoltados Online, já vendem as peças com o slogan “Adquira dois adesivos fora Dilma por R$ 20 e ganhe um pixuleco”.

A possibilidade de expansão do setor tem como combustível não apenas as crises econômica e política da atualidade. Não há direito autoral a ser pago pelos bonecos, afirma Celene. Ela assegura que o Pixuleco é de “domínio público” e pode ser usado por quem quiser.

O PIB do Pixuleco não se restringe ao mundo físico. O carioca José Lucio Gama, dono da Icon Games, criou o “Pixuleco, o jogo”. O game consiste em manter o personagem no ar enquanto recupera “sacos de dinheiro” e escapa de manifestantes “vermelhos”, armados com facas. Quem consegue chegar até o fim do trajeto sem ser golpeado, recebe a seguinte mensagem: “A democracia venceu”.

“O lado engraçado foi ver comentários me acusando tanto de ter feito o jogo contra como a favor do governo”, diz o criador do jogo. Em 2012, Gama criou outro jogo com viés político, o AngrySTF – uma paródia do game Angry Birds com personagens do julgamento do mensalão. A repercussão do jogo do Pixuleco, diz ele, tem sido bem maior que a do anterior.

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