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Manifestações contra o governo engordam o ‘PIB do Pixuleco’

Boneco inflável do ex-presidente Lula vira bom negócio para fabricantes que fazem da 'indústria do protesto' uma das poucas que crescem no país

Por Eduardo Gonçalves 25 out 2015, 10h52

Com traços de desenho infantil e olhar abobalhado, o boneco inflável do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestido de presidiário tornou-se o mascote de manifestações contra o governo – e um bom negócio para os fabricantes. Sob um cenário de retração econômica, aumento do desemprego e queda da produção industrial, não deixa de ser irônico que um dos raros nichos da indústria que vai bem é o que se dedica ao produto que virou símbolo dos protestos.

“Cada vez que um pixuleco aparece na mídia, a procura aumenta muito”, diz Denys Souza, diretor da Big Format, em Guarulhos (SP), fabricante do boneco do ex-presidente. Souza prevê um crescimento de 12% no faturamento e de 25% no aumento das encomendas neste ano. “Estamos na contramão da crise”, afirma. A empresa está trabalhando na confecção de 5 000 minipixulecos – encomenda sobre a qual não quis dar maiores detalhes. Um pedido de 1 000 peças custa 7 reais cada uma.

O ‘PIB do Pixuleco’ tem ajudado empresas do setor a compensar a frustração com o que esperavam faturar com a Copa do Mundo. “Até chegamos a fazer uns Fulecos (os mascotes da competição) para a Fifa, mas muitos clientes cancelaram projetos grandes e foi como se não tivesse ocorrido”, disse Souza. Como milhares de empresas Brasil afora, a Big Format precisou se ajustar ao atual cenário de crise – e demitiu 35 funcionários no fim do ano passado.

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Como em qualquer setor em expansão, os fabricantes partiram para a diversificação para seguir crescendo. Depois do Pixuleco surgiram a “Dilmintira” (caricatura da presidente Dilma Rousseff com um nariz grande, como o do personagem Pinóquio), o “Raddard” (caricatura do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, com um radar de trânsito à mão) e o “Lula de chifres”.

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Oswaldo Toyofuqu, diretor da Promo Infláveis, de Diadema (SP), tem tentado fazer contato com os organizadores de protestos contra o governo. “Nós temos que aproveitar esse momento. Eu sou indústria, vivo disso”, diz. Toyofuqu está elaborando um “kit protesto”, com bonecos do juiz Sérgio Moro, que encabeça a Operação Lava Jato, Dilma, Lula e Haddad.

A empresa de Toyofuqu fabricou os 5 000 patos que a Fiesp colocou em frente à Esplanada dos Ministérios no dia 1º de outubro em um protesto contra os impostos. Cada um custou 8 reais. “Vi o pato na internet, liguei lá para Fiesp e eles toparam na hora”, afirma. O pato maior, usado na mesma manifestação, foi produzido pela Big Format, empresa que tem em seu portfólio outros itens de protestos, como um boto cor-de-rosa e um urso polar, solicitados por organizações não-governamentais da área ambiental.

A grande exposição dos infláveis despertou o interesse de um outro tipo de público para o produto. Acostumadas a atender grandes empresas, como Unilever, Coca-Cola e Itaú, Big Format e Promo Infláveis agora também prestam serviços para pessoas físicas, sem CNPJ. Essa clientela é formada especialmente por pessoas ligada a movimentos de protesto.

Custo da turnê – O pixuleco original, de 15 metros de altura, custou 12 mil reais, pesa meia tonelada inflado e já percorreu nove cidades no país. Sua guardiã é Celene Carvalho, do Movimento Brasil. As “apresentações” do boneco têm custo – gradil, seguranças, hospedagem, alimentação e às vezes aluguel de carro e motorista – bancado pelos manifestantes da cidade visitada. A conta chega a 5 mil reais, despesa em parte bancada pela venda dos pixulequinhos – a 10 ou 20 reais – durante as exibições públicas. Em Presidente Prudente (SP), por exemplo, visitada em 15 de setembro, chegaram a ser comercializadas 350 réplicas.

Em sua última passagem por São Paulo, o boneco foi esfaqueado por uma mulher, que chegou a ser levada para a delegacia. O caso alavancou a fama do pixuleco e aumentou os custos das suas expedições pelo Brasil. “Por causa das agressões, está caro transportar o pixuleco. Agora precisa ir acompanhado, sair escondido, ter segurança e grade”, disse Celene. Outros movimentos, como o Revoltados Online, já vendem as peças com o slogan “Adquira dois adesivos fora Dilma por R$ 20 e ganhe um pixuleco”.

A possibilidade de expansão do setor tem como combustível não apenas as crises econômica e política da atualidade. Não há direito autoral a ser pago pelos bonecos, afirma Celene. Ela assegura que o Pixuleco é de “domínio público” e pode ser usado por quem quiser.

O PIB do Pixuleco não se restringe ao mundo físico. O carioca José Lucio Gama, dono da Icon Games, criou o “Pixuleco, o jogo”. O game consiste em manter o personagem no ar enquanto recupera “sacos de dinheiro” e escapa de manifestantes “vermelhos”, armados com facas. Quem consegue chegar até o fim do trajeto sem ser golpeado, recebe a seguinte mensagem: “A democracia venceu”.

“O lado engraçado foi ver comentários me acusando tanto de ter feito o jogo contra como a favor do governo”, diz o criador do jogo. Em 2012, Gama criou outro jogo com viés político, o AngrySTF – uma paródia do game Angry Birds com personagens do julgamento do mensalão. A repercussão do jogo do Pixuleco, diz ele, tem sido bem maior que a do anterior.

Jogo Pixuleco
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