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Lula sanciona incentivo que pode levar a corrida bilionária por data centers no Brasil

Regime suspende tributos federais por cinco anos para equipamentos de data centers, com exigências de energia renovável

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 set 2026, 16h01
Lula sanciona incentivo que pode levar a corrida bilionária por data centers no Brasil Priorize VEJA no Google

O Brasil entrou oficialmente na disputa para atrair uma das infraestruturas mais estratégicas da economia digital.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta terça-feira, 15, o Redata, regime que concede incentivos tributários para empresas que instalarem ou ampliarem data centers no país.

A medida reduz o custo de equipamentos usados em centros de processamento de dados justamente quando a explosão da inteligência artificial transforma essas instalações em ativos estratégicos.

A estimativa do governo é que a suspensão de tributos represente uma renúncia de R$ 5,2 bilhões em 2026, valor que deve cair para cerca de R$ 1 bilhão nos dois anos seguintes.

O programa, porém, não entrega o benefício sem exigir contrapartidas. As empresas terão de cumprir requisitos ambientais, destinar uma parcela da capacidade ao mercado brasileiro e investir em pesquisa e desenvolvimento.

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A intenção é evitar que o incentivo se transforme apenas em uma vantagem tributária para grandes companhias estrangeiras e fazer com que parte do valor gerado pela nova infraestrutura permaneça no país.

A aposta é ambiciosa.

Segundo estimativas apresentadas pelo governo e pelo setor, o Redata pode ajudar a destravar investimentos de centenas de bilhões de reais em uma indústria que envolve não apenas tecnologia, mas também energia, transmissão, construção, telecomunicações e segurança de dados.

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A corrida pelos computadores que sustentam a IA

Data centers deixaram de ser uma infraestrutura invisível da internet. São eles que concentram os servidores responsáveis por armazenar dados e executar aplicações de computação em nuvem, além de treinar e operar modelos de inteligência artificial.

O avanço da IA tornou essas instalações particularmente disputadas. Modelos mais sofisticados exigem enormes volumes de processamento e, consequentemente, instalações capazes de fornecer energia e refrigeração de forma contínua.

Nos Estados Unidos, a expansão dos data centers já começa a alterar o planejamento energético.

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A Administração de Informação de Energia americana estima que o consumo de eletricidade do país chegará a 4,2 trilhões de quilowatts-hora em 2026 e 4,35 trilhões em 2027, com os data centers voltados à IA entre os principais vetores do aumento da demanda.

O Brasil tenta capturar uma parte dessa expansão. A vantagem potencial está na combinação de uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, disponibilidade de terrenos, conexão por cabos submarinos e potencial de geração de energia eólica e solar.

Mas há um problema: ter energia renovável não significa necessariamente ter energia disponível no local e no momento em que um data center precisa dela.

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O Brasil quer trazer os dados de volta

Há também uma dimensão de soberania digital por trás do programa.

Segundo dados apresentados pela Anatel, cerca de 60% da carga digital brasileira é processada fora do país. O governo atribui parte dessa dependência ao custo: uma estimativa apresentada pelo Ministério da Fazenda aponta que processar dados no Brasil chega a ser 30% mais caro do que fazê-lo no exterior.

Isso significa que uma parcela relevante da infraestrutura usada por empresas e consumidores brasileiros está fisicamente instalada em outros países.

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O Redata tenta mudar essa equação. Ao reduzir o custo de aquisição de servidores, equipamentos de rede, sistemas de armazenamento e outros componentes, o governo espera tornar a instalação de grandes centros de processamento mais competitiva.

O incentivo alcança a suspensão de Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI sobre equipamentos enquadrados no programa. A suspensão poderá durar até cinco anos, conforme as regras do regime.

Na prática, a medida procura reduzir uma das barreiras de entrada de um negócio intensivo em capital.

Um data center exige bilhões de reais antes mesmo de começar a gerar receita, e uma parcela importante do investimento está concentrada justamente em equipamentos de tecnologia.

O preço da aposta

O benefício fiscal, entretanto, tem um custo imediato para o governo.

A previsão de R$ 5,2 bilhões em renúncia em 2026 transforma o Redata em uma aposta de política industrial.

O raciocínio de Brasília é que a perda de arrecadação seja compensada, no futuro, por investimentos, empregos, atividade econômica e pela formação de uma infraestrutura digital que hoje é contratada no exterior.

A questão é quanto desse investimento efetivamente virá.

A experiência internacional mostra que incentivos fiscais são apenas uma parte da equação.

Para um data center de grande porte, disponibilidade de energia, qualidade da transmissão, conectividade, segurança jurídica, acesso à água para refrigeração e velocidade de licenciamento podem ser tão importantes quanto a carga tributária.

O próprio sistema elétrico brasileiro já sente o impacto da corrida.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) acompanha o crescimento acelerado dos pedidos de conexão de grandes data centers porque essas instalações representam cargas capazes de alterar o planejamento da transmissão. Em um levantamento realizado no fim de 2025, projetos em processo de avaliação junto ao governo somavam 26,2 gigawatts, contra 19,8 gigawatts dois meses antes. A EPE ressalva que pedidos de conexão não significam que todos os empreendimentos serão efetivamente construídos.

A conta chega pela energia

Esse é um dos pontos mais delicados do novo regime.

Um data center funciona ininterruptamente e precisa de fornecimento estável. Além dos servidores, a instalação demanda sistemas de refrigeração, baterias, equipamentos de segurança e redundância. Quanto maior a capacidade computacional, maior tende a ser a demanda elétrica.

A EPE afirma que, embora os data centers ainda representem uma parcela relativamente pequena do consumo total brasileiro, eles estão crescendo rapidamente e já provocam aumento de carga em determinadas regiões. Por isso, a expansão precisa ser coordenada com novos investimentos em geração e transmissão.

Um estudo da Schneider Electric em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estima que a capacidade instalada de data centers no Brasil poderia chegar a 26 GW ou 45 GW até 2050, dependendo principalmente da expansão da infraestrutura elétrica e da disponibilidade de fontes renováveis.

Ou seja: o incentivo tributário pode atrair empresas, mas não resolve sozinho o gargalo físico que pode limitar a expansão do setor.

O que as empresas terão de entregar

Para receber os benefícios do Redata, as empresas precisarão cumprir uma série de compromissos.

Entre eles está a obrigação de disponibilizar ao menos 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados para o mercado brasileiro.

Também será necessário atender critérios de sustentabilidade, garantir o suprimento de energia por contratos ou autoprodução a partir de fontes limpas ou renováveis e cumprir requisitos de eficiência hídrica para o resfriamento dos equipamentos.

Há ainda uma exigência de investimento. As empresas deverão aplicar 2% do valor dos produtos adquiridos com o benefício em projetos no país, direcionados à pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionados à economia digital.

O texto cria incentivos adicionais para a descentralização dos investimentos.

Empresas instaladas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão cumprir algumas das contrapartidas em níveis reduzidos, enquanto ao menos 40% dos investimentos em determinados programas de desenvolvimento da economia digital deverão ser destinados a essas regiões.

A lógica é tentar impedir que a nova indústria se concentre exclusivamente em São Paulo, onde já existe a maior concentração de infraestrutura digital do país.

Uma disputa que vai muito além dos impostos

O Brasil não está sozinho nessa corrida.

Governos de diferentes países vêm oferecendo incentivos para atrair data centers porque a localização dessas estruturas passou a ser considerada parte da infraestrutura estratégica da economia.

O país que concentra servidores, capacidade computacional e conectividade também ganha relevância na cadeia de serviços digitais e de inteligência artificial.

A Anatel destaca que a expansão dos data centers está ligada a setores como computação em nuvem, inteligência artificial, segurança digital e serviços financeiros.

A agência também aponta a necessidade de uma estrutura regulatória capaz de acompanhar o crescimento do mercado.

Nesse cenário, o Brasil tem uma carta particularmente forte: sua matriz elétrica. Mas também enfrenta uma contradição. Quanto mais data centers forem atraídos, maior será a necessidade de ampliar geração e transmissão para abastecê-los.

O governo, portanto, está oferecendo um desconto tributário para trazer uma indústria cuja expansão exigirá mais investimentos em infraestrutura física.

O teste começa agora

A sanção de Lula encerra a longa disputa política em torno do Redata, mas abre uma etapa mais difícil: transformar o incentivo em investimentos reais.

O programa começou como uma medida provisória editada em setembro de 2025. A MP perdeu validade em fevereiro de 2026 sem ser votada pelo Congresso.

O conteúdo foi então levado para o PL 278/2026, aprovado pela Câmara e posteriormente pelo Senado, antes de chegar à sanção presidencial.

Agora, a regulamentação terá papel decisivo para definir como as empresas poderão aderir, comprovar as contrapartidas e acessar os benefícios.

O governo está, na prática, fazendo uma aposta de longo prazo: abrir mão de bilhões de reais em impostos hoje para tentar colocar o Brasil no mapa da infraestrutura que sustentará a próxima fase da economia digital.

O sucesso do Redata, porém, não será medido pelo número de empresas que aderirem ao programa. Será pela capacidade de transformar renúncia fiscal em data centers construídos, energia disponível, empregos, pesquisa e capacidade computacional instalada no país.

Se isso acontecer, o Brasil poderá deixar de ser apenas consumidor da infraestrutura estrangeira que sustenta a inteligência artificial e passar a disputar uma posição na sua própria cadeia de produção.

Se não acontecer, o Redata terá sido apenas mais um incentivo tributário caro em um país que ainda procura a fórmula para transformar vantagens naturais em investimentos de grande escala.

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