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Lucro de empresas dos EUA bate recorde enquanto trabalhadores perdem renda

Participação de salários e benefícios caiu ao menor nível desde os anos 1950

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 ago 2026, 12h17 | Atualizado em 28 ago 2026, 13h33
Lucro de empresas dos EUA bate recorde enquanto trabalhadores perdem renda Priorizar nos meus resultados Google

Os lucros das empresas americanas atingiram um nível recorde no segundo trimestre, enquanto a parcela da renda nacional destinada aos trabalhadores caiu ao menor patamar em mais de sete décadas.

Os ganhos corporativos antes dos impostos chegaram, em valores anualizados, a 4,8 trilhões de dólares, o equivalente a 18% da renda nacional dos Estados Unidos. É a maior participação desde os anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial.

No sentido oposto, salários e benefícios passaram a representar 60% da renda nacional, o menor percentual desde a década de 1950.

Os números evidenciam uma mudança na distribuição dos ganhos da economia americana: uma parcela maior da riqueza gerada no país está ficando com empresas e seus acionistas, enquanto a participação dos trabalhadores encolhe.

O avanço dos lucros tem sido impulsionado, entre outros fatores, pelo desempenho das grandes empresas de tecnologia, beneficiadas pelo boom da inteligência artificial, e pela alta das margens de companhias de petróleo.

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Ao mesmo tempo, a valorização das ações levou os principais índices de Wall Street a novos recordes.

A prosperidade corporativa, no entanto, não tem se traduzido na mesma proporção em aumento da renda dos trabalhadores. Em julho, os ganhos médios por hora, descontada a inflação, caíram 0,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

A diferença ajuda a explicar uma das contradições da economia americana.

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Embora indicadores como o mercado acionário e os resultados das grandes empresas apontem para uma economia ainda forte, parte significativa da população sente a perda de poder de compra e não compartilha dos ganhos produzidos pela expansão econômica.

O problema também é distributivo. Os ganhos com dividendos e a valorização das ações beneficiam principalmente as famílias que possuem ativos financeiros, enquanto trabalhadores de renda média e baixa dependem majoritariamente dos salários.

A distância entre esses dois grupos vem alimentando uma reação política nos Estados Unidos.

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O aumento do custo de vida e a percepção de que os ganhos econômicos estão concentrados no topo da pirâmide têm fortalecido discursos populistas tanto à direita quanto à esquerda.

A tendência ocorre em meio a uma queda de longo prazo do poder de barganha dos trabalhadores americanos. Desde os anos 1980, a redução da sindicalização e a terceirização de empregos contribuíram para diminuir a participação do trabalho na renda produzida pelas empresas.

Nos últimos cinco anos, porém, esse movimento ganhou força, especialmente no último ano.

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Ainda não está claro se a aceleração representa uma mudança estrutural, potencialmente associada à inteligência artificial e a novas formas de organização da economia, ou se é resultado de fatores mais temporários, como a inflação elevada e os efeitos persistentes do período pós-pandemia.

O resultado, porém, já é visível.

Enquanto as empresas americanas acumulam uma fatia recorde da renda gerada pela economia, os trabalhadores recebem a menor parcela em décadas, uma combinação que começa a transformar a desigualdade em um dos principais focos do debate político nos Estados Unidos.

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