Lucro de empresas dos EUA bate recorde enquanto trabalhadores perdem renda
Participação de salários e benefícios caiu ao menor nível desde os anos 1950
Os lucros das empresas americanas atingiram um nível recorde no segundo trimestre, enquanto a parcela da renda nacional destinada aos trabalhadores caiu ao menor patamar em mais de sete décadas.
Os ganhos corporativos antes dos impostos chegaram, em valores anualizados, a 4,8 trilhões de dólares, o equivalente a 18% da renda nacional dos Estados Unidos. É a maior participação desde os anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial.
No sentido oposto, salários e benefícios passaram a representar 60% da renda nacional, o menor percentual desde a década de 1950.
Os números evidenciam uma mudança na distribuição dos ganhos da economia americana: uma parcela maior da riqueza gerada no país está ficando com empresas e seus acionistas, enquanto a participação dos trabalhadores encolhe.
O avanço dos lucros tem sido impulsionado, entre outros fatores, pelo desempenho das grandes empresas de tecnologia, beneficiadas pelo boom da inteligência artificial, e pela alta das margens de companhias de petróleo.
Ao mesmo tempo, a valorização das ações levou os principais índices de Wall Street a novos recordes.
A prosperidade corporativa, no entanto, não tem se traduzido na mesma proporção em aumento da renda dos trabalhadores. Em julho, os ganhos médios por hora, descontada a inflação, caíram 0,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
A diferença ajuda a explicar uma das contradições da economia americana.
Embora indicadores como o mercado acionário e os resultados das grandes empresas apontem para uma economia ainda forte, parte significativa da população sente a perda de poder de compra e não compartilha dos ganhos produzidos pela expansão econômica.
O problema também é distributivo. Os ganhos com dividendos e a valorização das ações beneficiam principalmente as famílias que possuem ativos financeiros, enquanto trabalhadores de renda média e baixa dependem majoritariamente dos salários.
A distância entre esses dois grupos vem alimentando uma reação política nos Estados Unidos.
O aumento do custo de vida e a percepção de que os ganhos econômicos estão concentrados no topo da pirâmide têm fortalecido discursos populistas tanto à direita quanto à esquerda.
A tendência ocorre em meio a uma queda de longo prazo do poder de barganha dos trabalhadores americanos. Desde os anos 1980, a redução da sindicalização e a terceirização de empregos contribuíram para diminuir a participação do trabalho na renda produzida pelas empresas.
Nos últimos cinco anos, porém, esse movimento ganhou força, especialmente no último ano.
Ainda não está claro se a aceleração representa uma mudança estrutural, potencialmente associada à inteligência artificial e a novas formas de organização da economia, ou se é resultado de fatores mais temporários, como a inflação elevada e os efeitos persistentes do período pós-pandemia.
O resultado, porém, já é visível.
Enquanto as empresas americanas acumulam uma fatia recorde da renda gerada pela economia, os trabalhadores recebem a menor parcela em décadas, uma combinação que começa a transformar a desigualdade em um dos principais focos do debate político nos Estados Unidos.







