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Longa vida aos combustíveis fósseis

Em encontro no Rio de Janeiro, empresas do setor do petróleo defendem que investimentos em produção e eficiência energética podem, ao mesmo tempo, agredir menos o meio ambiente e atender necessidades da indústria

Por Luís Bulcão, do Rio de Janeiro 21 set 2012, 13h24

Há exatos três meses, representantes dos governos de mais de 170 países se encontraram nos pavilhões do Riocentro, na zona oeste do Rio de Janeiro, para debater soluções conjuntas para os desafios da sustentabilidade. A dificuldade de alimentar uma população que vai chegar a 9 bilhões em duas décadas, a saúde dos oceanos, a preservação das florestas e o uso de energia renovável figuravam entre os problemas mais discutidos nos corredores da diplomacia, que negociava uma guinada nos padrões da economia mundial. Exatamente no mesmo local onde a Rio+20 propôs, entre diversas outras medidas, a diminuição do uso de combustíveis fósseis para controlar a emissão de gás carbônico na atmosfera, empresas, agentes e pesquisadores ligados ao setor de petróleo e do gás debateram, por quatro dias, uma perspectiva bem diferente para o mesmo tema. Ao contrário de limitar a indústria, a comunidade reunida para a Rio Oil & Gas, que recebeu mais 55 mil visitantes, faz planos para fomentá-la. As projeções mostram que, pelo menos em um futuro de médio prazo, eles estão certos. De forma geral, demanda e oferta pelas commodities que movem carros, navios, aviões e usinas vai aumentar nos próximos anos, apesar de ser consenso que é preciso substituir as fontes de energia.

Um dos grandes propulsores tanto do consumo quanto da oferta é exatamente o Brasil, país que desembolsou mais de 400 milhões de reais para sediar a Rio+20. As reservas do pré-sal representam um dos grandes indicativos de que as previsões de escassez estavam não se confirmam. Resultados mais consolidados de exploração dessas reservas devem começar a aparecer assim que as rodadas de distribuição de novos blocos exploratórios tiverem início – na terça-feira, o ministro das minas e energia, Edison Lobão, afirmou que o governo iniciou estudos para realizar a primeira rodada de leilões para a área do pré-sal em novembro de 2013. Assim como as descobertas do pré-sal no Brasil, as perspectivas de exploração do petróleo de areia betuminosa no Canadá e o avanço tecnológico para a exploração de hidrocarbonetos fractíveis nos Estados Unidos adiam novamente, para um futuro bem distante, os temores de que o mundo estaria diante de uma crise energética assim que os poços do conturbado Oriente Médio começarem a mostrar sinais de enfraquecimento. Ao contrário de secarem, as reservas conhecidas de petróleo e gás aumentaram.

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Ainda há grande preocupação ambiental em relação às novas técnicas de exploração, como a extração de gás de xisto, nos Estados Unidos. Como tornar o processo seguro para os mananciais de água próximos às minas de exploração pode ser um empecilho para a indústria, assim como o uso de água em grande quantidade para a fracção das rochas. No entanto, a partir do momento em que a tecnologia passa a evoluir para superar os desafios ambientais e econômicos, o mercado oferece boas alternativas. O fenômeno já ocorre nos Estados Unidos. As projeções da agência americana de informação energética (Energy Information Administration, EIA) indicam que a produção de gás de xisto vai saltar de 0,59 trilhões de metros cúbicos ao ano em 2010 para 0,76 trilhões de metros cúbicos em 2035 – um aumento de 29% que, segundo a agência, vai ajudar os Estados Unidos a se aproximarem da autossuficiência energética. Quando – e se – os mesmos desafios tecnológicos para a exploração de fontes não convencionais também serão aproveitados em países como China, Rússia e Brasil, que também dispõem de grandes reservas de xisto, é uma questão ainda está para ser resolvida. Enquanto isso, os países fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), como México, Brasil e Canadá estão apresentando resultados consideráveis na exploração das fontes convencionais, mostrando perspectivas diferentes para um cenário que desde as crises do petróleo nos anos 70 se mostrou demasiadamente dependente do pequeno grupo de produtores.

Assim como faz projeções para dobrar a produção – a Petrobras estima passar dos atuais 2 bilhões de barris de petróleo por ano para 4,2 bilhões de barris ao ano em 2020 -, o Brasil não tem planos para diminuir o consumo. A frota de veículos, por exemplo, mais do que dobrou na última década e continua a aumentar favorecida por planos de incentivo econômico e pelo acesso das novas classes consumidoras ao automóvel. A tendência é seguida pelos países em desenvolvimento, enquanto a Europa, os Estados Unidos e o Japão devem estabilizar esse volume. As projeções da EIA indicam que os países da OCDE (desenvolvidos) vão consumir 48 milhões de barris por dia em 2035, com consumo relativamente estável, já que em 2010 o consumo destes países foi de 46 milhões de barris por dia. Já os países em desenvolvimento consumirão 62 milhões de barris por dia em 2035, contra os apenas 41 bilhões de barris ao dia consumidos em 2010.

Uma das causas da estabilização no consumo em países desenvolvidos é justamente o ponto que pode mais aproximar os ideais da Rio+20 das intenções da Rio Oil&Gas. Hoje, nos Estados Unidos, os carros gastam menos gasolina do que costumavam consumir e emitem menos gases nocivos. O avanço tecnológico permite ao país maior eficiência energética. Este é um dos fatores que faz reduzir o consumo nestes países. Quanto mais isso se tornar uma realidade no resto do mundo, menos energia será necessária e mais abundante será a oferta.

Ao encerrar os trabalhos na tarde da última quinta-feira, a Rio Oil&Gas mostrou que o setor está ativo para receber os 20 trilhões de dólares que a indústria mundial estima arrecadar em investimentos nas próximas duas décadas, segundo estimativas da World Petroleum Council. Questões como eficiência energética e tolerância zero para acidentes e vazamentos, metas apresentadas em muitos dos 27 painéis que compuseram o evento, não chegam a ser suficientes para um memorando de boas intenções para o futuro, como o proposto pela Rio+20. No entanto, perspectivas aparentemente opostas – o investimento em exploração e os esforços para economizar combustível – podem caminhar tanto no sentido de agredir menos o meio ambiente como o de criar condições para o desenvolvimento econômico a um custo aceitável.

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