Karin Formigoni: a arquiteta que transformou a cultura da Arcadis e chegou ao comando global da empresa
Primeira mulher a presidir a Arcadis no Brasil, executiva liderou a profissionalização da operação brasileira e aposta em uma liderança baseada em transparência
Quando entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Karin Formigoni imaginava projetar edifícios. Acabou construindo uma trajetória que a levaria, mais de duas décadas depois, ao comando da Arcadis na América Latina e, agora, a uma posição global na multinacional holandesa de engenharia e consultoria.
Nos últimos 22 anos na companhia, liderou a integração das operações brasileiras, comandou a divisão de meio ambiente, assumiu a presidência da empresa no Brasil, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em 55 anos de história e, neste ano, passou a liderar globalmente a área de Resiliência e a indústria de Energia e Água.
Ao falar sobre a própria carreira, porém, Karin quase nunca destaca os cargos. Prefere falar sobre pessoas. “Eu gostaria de olhar para trás e ver que deixei um legado”, afirma. Segundo ela, essa resposta surgiu ainda no início da carreira, quando foi questionada sobre onde gostaria de chegar. “O maior prazer de um líder é formar um time e ver essas pessoas crescendo.”
O interesse inicial era a arquitetura, mas foi durante a graduação que descobriu no planejamento urbano uma forma mais ampla de transformar cidades. Seu primeiro trabalho foi em um programa de revitalização do centro de São Paulo. Pouco depois, percebeu que tinha facilidade para gestão e decidiu complementar a formação técnica com um MBA. “Entendi cedo que compreender gestão seria essencial.”
A entrada na Arcadis aconteceu para coordenar um projeto de recuperação de um complexo lagunar em Maceió. Em apenas três anos, deixou a área técnica para assumir a diretoria operacional. Depois liderou a integração das empresas adquiridas pela companhia no Brasil e comandou a divisão de meio ambiente por cerca de uma década. “O processo de integração e profissionalização permitiu que a gente triplicasse a receita desse negócio.”
Liderar é construir confiança
Para Karin, liderança começa pela transparência. “A confiança é a base do sucesso de qualquer organização. Quando os resultados não são bons, as pessoas precisam saber. Não para desanimar, mas para encontrar energia para resolver os problemas juntas.”
Entre os projetos mais marcantes da carreira, Karin destaca justamente aquele que marcou sua chegada à Arcadis: a recuperação ambiental do complexo lagunar de Maceió. Inicialmente responsável apenas pela frente ambiental, acabou assumindo a coordenação de todo o consórcio. O reconhecimento veio de forma inesperada, já durante a licença-maternidade da primeira filha, quando recebeu uma ligação do então diretor da Agência Nacional de Águas parabenizando o trabalho.
Ela também cita com orgulho a participação da empresa na implantação de estruturas da COP30, em Belém, e o plano de recuperação da região atingida pelo rompimento da barragem de Brumadinho.
O legado vai além dos números
Se há um legado que Karin faz questão de destacar, ele está na transformação cultural da empresa. Quando assumiu posições de liderança, sustentabilidade ainda era um tema secundário dentro de uma organização predominantemente formada por engenheiros. “Cheguei sendo arquiteta, mulher, e comecei a defender que projetos de engenharia precisavam considerar eficiência energética, economia de água e conforto ambiental.”
Hoje, afirma, conceitos como mineração sustentável, inovação e colaboração fazem parte da rotina da empresa. A diversidade também ganhou protagonismo. Atualmente, 47% dos colaboradores da Arcadis no Brasil são mulheres e metade do board é feminino, resultado de programas estruturados de desenvolvimento de lideranças. “Quando olho para a empresa em que entrei e para a empresa que deixo hoje no Brasil, vejo uma mudança enorme.”
Para a executiva, muitas mulheres deixam oportunidades passarem por acreditarem que ainda precisam estudar mais ou acumular mais experiência. “As mulheres precisam acreditar no próprio potencial. Muitas vezes a carreira passa porque, quando surge uma oportunidade, falta coragem para dizer sim.”
Casada há 22 anos e mãe de dois filhos, ela reconhece que conciliar família e carreira nunca foi simples. Aprendeu, porém, que presença não se mede apenas em quantidade de tempo. “Sempre fiz questão de aproximar meus filhos do meu trabalho para que entendessem o propósito do que eu fazia.”
No fim, o conselho que deixa vale para qualquer profissional: assumir riscos, manter a curiosidade e nunca esperar que alguém conduza sua trajetória. “A carreira é nossa responsabilidade. Quem dirige esse caminho somos nós.”







