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Juros de longo prazo dos EUA atingem maior nível desde 2002 com inflação e dívida no radar

petróleo caro aumenta pressão sobre preços e mercado passa a considerar novos aumentos de juros

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 set 2026, 14h52
Juros de longo prazo dos EUA atingem maior nível desde 2002 com inflação e dívida no radar Priorize VEJA no Google

O mercado de títulos do governo dos Estados Unidos atravessa uma nova onda de vendas, levando os juros dos papéis de prazo mais longo a níveis não vistos em mais de duas décadas.

Nesta terça-feira, 29, o rendimento do Treasury de 30 anos chegou a 5,61%, o maior patamar desde junho de 2002. O título de dez anos também avançou, para cerca de 5,28%, maior nível desde 2007.

A alta ocorre em um momento de combinação pouco favorável para a renda fixa americana: o petróleo permanece elevado, a inflação ainda está acima da meta do Federal Reserve e a economia continua mostrando resistência.

Ao mesmo tempo, o tamanho da dívida pública aumenta a quantidade de títulos que o governo precisa colocar no mercado para financiar suas despesas.

O movimento eleva o custo de financiamento da maior economia do mundo e tem efeitos que vão muito além dos Estados Unidos. Os Treasuries são referência para a precificação de diversos ativos financeiros, de títulos corporativos a hipotecas e investimentos de países emergentes.

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Petróleo muda as apostas para os juros

Um dos principais fatores por trás da recente deterioração do mercado de títulos é a energia. O barril de Brent permaneceu acima de US$ 100 durante boa parte de setembro, refletindo as interrupções provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

A Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA) estima que as perturbações no fluxo de petróleo no Oriente Médio reduziram a oferta disponível e provocaram uma forte volatilidade nos preços ao longo de 2026.

A agência projeta que o Brent permaneça em níveis elevados enquanto a produção e o comércio internacional da região não retornarem à normalidade.

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O problema para o mercado é que petróleo mais caro tende a pressionar a inflação. Isso reduz o espaço para que os bancos centrais cortem juros e aumenta a possibilidade de que mantenham uma política monetária restritiva por mais tempo.

Nos EUA, o Fed elevou a taxa básica em 0,25 ponto percentual em sua reunião de setembro, para uma faixa entre 3,75% e 4%. O banco central afirmou que a inflação continua elevada, embora a atividade econômica siga crescendo em ritmo sólido.

O mercado passou, portanto, a trabalhar com a possibilidade de novas altas. A perspectiva de juros maiores por mais tempo afeta especialmente os títulos de vencimento longo, porque seus preços incorporam expectativas para inflação, juros e crescimento durante muitos anos.

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O problema fiscal

Há ainda uma segunda frente de preocupação: a situação das contas públicas americanas.

A dívida federal dos EUA ultrapassou US$ 40 trilhões em setembro. Com déficits elevados, o governo precisa continuar emitindo grandes volumes de títulos para financiar suas necessidades. Isso aumenta a oferta de papéis no mercado e torna mais importante a disposição dos investidores em absorvê-los.

O próprio Tesouro americano vem ampliando operações de recompra de títulos antigos, uma ferramenta destinada principalmente a melhorar a liquidez do mercado.

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Em agosto, o Departamento do Tesouro anunciou que dobraria, a partir de setembro, o tamanho máximo de determinadas operações de recompra de títulos de prazo mais longo, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.

A medida, no entanto, não significa redução da dívida pública. As recompras são uma ferramenta de gestão do mercado e da dívida.

No trimestre atual, o Tesouro prevê adquirir até US$ 38 bilhões em títulos antigos para apoiar a liquidez e até US$ 25 bilhões em papéis de curto prazo para administrar o caixa.

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O problema estrutural permanece: quanto maior a necessidade de financiamento do governo, maior a sensibilidade dos investidores ao prêmio que recebem para comprar títulos de longo prazo.

Por que o juro de 30 anos importa

O rendimento de um Treasury não é definido diretamente pelo Federal Reserve. O Fed controla a taxa de juros de curto prazo, enquanto os rendimentos dos títulos mais longos são determinados no mercado e refletem expectativas para inflação, crescimento, juros futuros e risco.

Por isso, é possível que o Fed reduza a taxa básica em determinado momento e, ainda assim, os juros dos títulos de 10 ou 30 anos permaneçam elevados.

O título de 30 anos é particularmente sensível porque o investidor está comprometendo seu dinheiro por um período muito longo. Para aceitar esse risco, ele pode exigir uma remuneração maior quando acredita que inflação, endividamento ou incerteza econômica permanecerão elevados.

A alta recente também representa um aumento do chamado prêmio de prazo, que é a remuneração adicional exigida para carregar um título de vencimento distante em vez de um papel de curto prazo.

Efeito chega às empresas e aos consumidores

O movimento dos Treasuries afeta diretamente o custo de capital nos Estados Unidos. Juros mais altos tornam mais caras as emissões de dívida de empresas e pressionam o custo de financiamentos imobiliários.

Também podem mudar a avaliação das ações.

Quando os títulos públicos oferecem uma remuneração elevada e considerados de baixo risco de crédito, investimentos mais arriscados precisam oferecer retorno potencial maior para continuar atraentes.

Até agora, porém, o mercado acionário americano tem demonstrado resistência.

O S&P 500 recuou nesta terça-feira, mas permanece próximo das máximas recentes, enquanto empresas ligadas à inteligência artificial continuam sustentando parte do desempenho das bolsas.

Essa combinação ajuda a explicar uma aparente contradição: os juros dos títulos estão disparando, mas as ações ainda não entraram em uma correção de mesma magnitude.

O que está no radar dos investidores

O mercado agora acompanha principalmente os próximos dados de inflação e atividade econômica para avaliar até onde o Fed poderá levar os juros.

As projeções divulgadas pelo próprio banco central em setembro mostram inflação medida pelo índice PCE acima da meta de 2% neste ano, com convergência gradual para o objetivo ao longo dos próximos anos.

Na prática, isso coloca o Fed diante de um dilema. Uma economia ainda resistente permite manter os juros elevados para combater a inflação. Mas o petróleo mais caro pode gerar uma pressão adicional sobre os preços justamente quando o banco central precisa avaliar até que ponto essa alta é temporária ou persistente.

Para o mercado de títulos, há ainda a questão fiscal. A combinação de inflação elevada, juros altos e necessidade de financiamento do governo aumenta a remuneração exigida pelos investidores para comprar dívida de longo prazo.

O resultado é um ambiente no qual o Treasury de 30 anos, durante décadas considerado um dos principais instrumentos de referência do sistema financeiro mundial, volta a pagar mais de 5,6% ao ano.

O nível, por si só, não determina uma crise. Mas mostra que financiar o governo americano ficou significativamente mais caro e que os investidores estão exigindo uma compensação maior para assumir riscos de inflação, juros e endividamento por períodos longos.

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