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Juro baixo é a melhor forma de distribuição de renda, diz Eduardo Mufarej

Fundador do RenovaBR acredita que a última eleição não serve de termômetro para 2022 e defende manutenção da taxa de juros e do teto de gastos

Por Felipe Mendes 15 jan 2021, 13h31

Aos 43 anos, o empresário Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, iniciativa para formação de novas lideranças políticas, resolveu colocar seus pupilos de volta à “sala de aula”. Após eleger 151 alunos em 123 cidades do país na última eleição, dentre eles 12 prefeitos, dois vice-prefeitos e 136 vereadores filiados a 25 partidos distintos, o RenovaBR iniciou, no fim de novembro, um curso de gestão de mandatos municipais com o intuito de respaldar a jornada dos conclamados debutantes em cargos no Executivo e no Legislativo. O programa, realizado virtualmente em parceria com o Insper, tem duração até junho de 2021. Em entrevista a VEJA, Mufarej, que já foi CEO da Tarpon Investimentos e da Somos Educação, comenta sobre o curso, o desempenho na última eleição, a qual diz não ser termômetro para a disputa nacional de 2022, e defende a manutenção do teto de gastos e o atual patamar da taxa básica de juros no país. “Qualquer política de expansão de gastos que não seja para colocar dinheiro no bolso do cidadão é melhor que não ocorra”, diz ele. “O juro baixo é a maior ferramenta de distribuição de renda.”

  • Por que um curso para gestão municipal? O curso já teve dois módulos. O primeiro foi a preparação para a eleição. Um específico para vereador e outro para prefeito. O segundo módulo iniciou agora em parceria com o Insper. Como tivemos prefeitos eleitos, teremos conteúdos relevantes para a gestão de liderança municipal, abordando desde contas do município, leis de responsabilidade fiscal, como montar uma equipe de transição, como estabelecer metas e indicadores, como montar a equipe, processo orçamentário etc. Antes de se elegerem, eles não tinham um conhecimento sobre esse tipo de conteúdo ou repertório.

    Os partidos de centro foram os grandes vencedores da eleição municipal, em 2020. Isso pode indicar algo para a disputa de 2022? A última eleição favoreceu candidatos que estavam disputando a reeleição, principalmente aqueles que vinham bem avaliados pela população. De modo geral, o eleitor quis tomar menos risco, por isso ele optou pela continuidade. Foi um período difícil para quem não tinha base eleitoral, para quem vinha tentando se colocar como uma nova alternativa, com novos posicionamentos. Ou seja, o resultado foi uma combinação de diversos fatores. Isso aponta uma tendência? Na minha visão, não. As eleições municipais nunca foram um indicador de sucesso eleitoral no futuro. Elas não ditam uma tendência do que virá a acontecer na eleição de 2022. Em 2016, o grande vencedor das eleições foi o PSDB, que em 2018 teve um desempenho muito ruim.

    A maior dificuldade para captar recursos por meio do Fundo Partidário pode levar a uma consolidação de partidos políticos no Brasil? Existe uma tendência, sim, de se ter uma consolidação partidária, seja pela falta de acesso ao Fundo Eleitoral e Partidário ou pela necessidade de cumprir o mínimo de candidaturas para poder continuar recebendo os recursos, dentre outras coisas. Depois de um processo de excessiva fragmentação, que todo mundo reconhece que foi exagerado, agora tende a ter uma consolidação, principalmente nos partidos que dependem de recursos públicos.

    O RenovaBR é, de certa forma, uma iniciativa de educação, setor no qual o senhor já atuou anteriormente pelo grupo Somos Educação, onde foi CEO de 2015 a 2017. Com a pandemia de Covid-19, muitos alunos não estão conseguindo estudar no país. Como vê a educação do país atualmente? Infelizmente, nós temos uma educação pública de baixa qualidade, com universidades públicas que favorecem à elite. Não existe foco no ensino, uma orientação por resultados. Essa é uma constatação muito triste da nossa realidade e que, infelizmente, temos demorado para atacar e resolver. A educação brasileira está num processo letárgico há muito tempo. É preciso colocar o investimento correto na educação básica. Preparar os alunos para o mercado de trabalho dentro das competências que o mercado de trabalho atual exige, mirando o futuro. A realidade é que a produtividade do Brasil está estagnada há décadas, em decorrência de uma economia fechada, um país pouco globalizado, com uma estrutura educacional que não vocaciona e não desenvolve as competências dos alunos com profundidade. E que está completamente desconectada com as novas demandas do mercado de trabalho.

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    O senhor é administrador de empresas e foi CEO de uma gestora, a Tarpon Investimentos. Na sua visão, o que podemos esperar da economia brasileira em 2021? Como um observador, eu vejo que a economia apresentou uma recuperação, mas em virtude de um custo fiscal elevadíssimo. Num momento de liquidez global, tivemos de injetar dinheiro na economia sem uma penalização do ponto de vista de acesso de financiamento da máquina pública. Em 2021, essa situação tem de mudar e o Brasil vai ter de tomar um certo cuidado para não vulnerabilizar suas finanças públicas sob o risco de termos uma inversão da curva de taxa de juros, que vai restringir o acesso ao crédito e ao financiamento e levar a um volume menor de investimentos no país. A recuperação da disciplina fiscal é a questão mais importante no médio prazo para que possamos continuar nesse ambiente de taxa de juros de um dígito.

    Qual a importância das reformas estruturantes e da manutenção do teto de gastos? Eu sou um grande advogado de uma política fiscal disciplinada, que possa manter o juro em níveis baixos e que isso possa ser um vetor da movimentação do sistema de crédito e do acesso à capital por parte das empresas. Qualquer política de expansão de gasto que não seja para colocar dinheiro no bolso do cidadão é melhor que não ocorra. O estado brasileiro, em sua grande parte, já mostrou que não é um bom alocador de capital, que não sabe fazer bons investimentos pela sua própria dinâmica. Portanto, eu tentaria limitar a atuação do estado brasileiro para o que ele pode fazer diferença na vida das pessoas. Fora isso, eu focaria em ter um estado saudável, sem problemas de financiamento, porque, na minha visão, o juro baixo é a maior ferramenta de distribuição de renda do país. É o principal efeito positivo para que a gente possa ter disciplina fiscal, com acesso à crédito e financiamento, para que os negócios e as pessoas físicas possam se reestruturar do ponto de vista financeiro.

    A tributação progressiva sobre os mais ricos poderia ajudar a diminuir a desigualdade social do país? Acho que o Brasil precisa resolver qual é a carga tributária média que quer cobrar das pessoas em faixa de renda distintas. Por outro lado, podemos ver o efeito do que aconteceu na Argentina, que aumentou a tributação daqueles que têm mais renda, e eles foram para o Uruguai. Quem acaba pagando essa conta no final do dia é a classe média e média alta. Os mais ricos têm portabilidade fiscal e podem virar contribuintes em países mais dispostos a recebê-los. Essa medida pode até parecer popular, mas no final acaba sendo menos potente do que se esperava. E isso leva a uma evasão enorme de divisas no país.

    O que pode ser feito, afinal? O Brasil precisa ganhar eficiência da máquina pública. Todo mundo concorda e sabe que o estado brasileiro não está entregando os serviços necessários à população. A gente teve um aumento brutal de carga tributária sobre o PIB nos últimos 25 anos. Já somos um dos maiores emergentes na relação carga tributária sobre PIB. Em contrapartida, não houve uma melhoria na prestação de serviços públicos em grande parte. Insistir nessa receita não parece ser a coisa mais correta.

    Qual seria a solução? O estado brasileiro tem de se tornar mais eficiente. Todos os munícipios brasileiros têm um problema de folha de pagamentos e com limitação na capacidade de investimentos. Esse é um problema que nós vamos ter de enfrentar.

    A reforma administrativa pode ajudar a sanar esse problema? Sem dúvida alguma.

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