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Educação e inclusão social: quais problemas e soluções podemos apontar nesse panorama?

Profissionais da área ressaltam dificuldades e apontam saídas para melhorar um cenário caótico, mas que pode conseguir avanços com a ajuda não só de professores e alunos, mas também de cada um de nós

De acordo com o Ministério da Saúde, 12% da população sofre de algum distúrbio para o aprendizado.

 

E obviamente, esse índice se reflete em sala de aula, com transtornos como dislexia, disgrafia, Transtorno do Déficit de Atenção (TDA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Autismo, por exemplo.

 

Ainda podemos enquadrar nesse panorama os que necessitam de cadeiras de rodas, os que possuem deficiência visual ou auditiva, onde o IBGE (Índice Brasileiro de Geografia e Estatística) em seu último levantamento constatou que 23,9 % da população brasileira possuem dificuldades (em graus maiores ou menores) considerados deficiências.

 

Então, o que podemos esperar desse cenário nas salas de aula, onde noticiários muitas vezes mostram que faltam estruturas até para o ensino mais básico que um aluno tradicional precisa ter?

 

A professora de História Marcella Albaine ressalta que a sala de aula por si só já é o espaço da diversidade e de lidar com as diferenças.

“Sejam em termos étnicos, culturais, de captar esse ‘cultural’, porém, há esses distúrbios nas aprendizagens. Ainda que como professores nós não tenhamos um diagnóstico fechado sobre o que aquele aluno ou aquela aluna possui, naturalmente a gente já tem a ideia da diferença na forma como ele aprende. E se há diferença, nós precisamos ter modificações na maneira como ensinamos”.

 

Ela salienta que a situação atual do Brasil quanto a isso é um desafio para o professor, principalmente para trabalhar com e nessa diversidade. E, para ela, o que pode ser feito é investir na formação de professores e nas discussões sobre isso.

 

A criadora do projeto “Juntos pela Inclusão Social”, Flávia Albaine, que também é Defensora Pública de RO, defende essa ideia de capacitar o educador. Principalmente porque nessa “fase” em que a tecnologia se funde à educação, pode haver avanços também na inserção de alunos com deficiência.

“Atualmente, percebo que a educação, tanto a pública quando a privada, está despreparada para receber a diversidade dentro da sala de aula. A diversidade inclui os alunos com deficiência, além de outros alunos também. E acredito que algumas medidas possam ser tomadas para uma ação mais efetiva desse quadro”, pontua.

 

Como providências ela cita o combate ao bullying, promovidas pela própria escola em parceria com os pais e a comunidade como um todo; a capacitação dos professores, para que eles tenham condições de aprender e terem instrumentos e medidas de apoio escolares; auxílio e parcerias com órgãos de redes, como órgãos sociais, que possuam profissionais que possam auxiliar a escola nessa questão da inclusão; e outras parcerias, como o Ministério Público, a Defensoria Pública, que têm dentro dos seus objetivos a inclusão de grupos vulneráveis, entre eles os alunos com deficiência.

 

“A população também deve cobrar das autoridades públicas as medidas previstas em leis para que inclusão possa se efetivar na prática, ou seja, essas ações podem auxiliar na prática uma educação efetivamente mais inclusiva”, ressalta Flávia.

 

A cibercultura como uma maneira de inclusão na educação

 

Marcella é especializada em cibercultura na educação e divide a experiência vivida em sala de aula em suas palestras e no livro “Ensino de História e Games – Dimensões Práticas em Sala de Aula”.

 

Segundo a professora e pesquisadora, durante algumas palestras ela já ouviu diversos depoimentos de que no universo dos games, por exemplo, muitos desses alunos com transtornos se realizam nesses momentos dos jogos, se adentram a essa realidade de uma forma única, e que isso dá pistas para o professor puxar dali “ganchos” para o aprendizado desse aluno.

 

“Esse tema da tecnologia na inclusão foi algo que parei pra pensar mais intensivamente na minha especialização em tecnologia educacional feita pelo Núcleo de Computação Eletrônica (NCE), da Universidade Federal do RJ, onde eu tive aula com o Prof. José Antônio Borges e que tem um grande destaque nessa área de estudo. Ele é o criador do Dosvox, uma plataforma voltada para pessoas com deficiência visual. E com as aulas dele eu busquei saber mais sobre como a cibercultura pode ajudar no aprendizado das pessoas com deficiência”, relembra.

 

Agora, depois de tanta imersão no assunto, Marcella afirma que a tecnologia facilita bastante esse processo de inclusão, seja por meio de aplicativos e plataformas específicas para isso, desde recursos como ampliação de tela à possibilidade do áudio, que inclusive não são coisas que precisam ser utilizadas somente por pessoas com deficiência.

 

“Entretanto, a técnica pela técnica não é nada. Ela demanda um estudo, uma reflexão por parte dos profissionais envolvidos. Ou seja, tecnologia e inclusão é algo promissor, mas que ainda precisa de muito trabalho, e que seja uma preocupação de todos”, inclui.

 

O aluno como professor e vice-versa

 

A professora ressalta que a participação do aluno nesse processo talvez seja a reflexão central.

 

“Pra mim, eles são os nossos professores quando falamos de tecnologia. Eles são as pessoas que estão nos provocando a pensar essas mudanças. Isso eu falo como professora, pois muita coisa que eu desenvolvi em sala de aula não veio talvez originalmente por uma vontade minha, mas sim por eu observar os meus alunos, a subjetividade deles, a forma em que eles se inserem no mundo hoje e, que em grande medida, passa pelo uso do digital. Então, o papel do aluno nos provoca a pensarmos em mudanças, porém, ele não tem o compromisso com o pedagógico, que é por isso que o professor e o aluno são igualmente importantes nesse processo. Valorizando o aspecto democrático e de exercício ao outro, da empatia, da ética e da ciberética”.

 

Ela indica que o professor deve se preparar para usar a tecnologia no ensino lendo sobre isso, experimentando, conversando com seus próprios alunos. Isso porque, no geral, os alunos dominam muito mais a tecnologia do que os seus tutores escolares.

 

“Eles não dominam no ponto de vista crítico no geral, mas eles têm uma familiaridade muito maior do que os seus professores. Então, um grande passo que o professor pode dar para se orientar nesse processo, é sentando lado a lado com o aluno e conversando. ‘Quais são os jogos que vocês jogam?’. ‘Como funciona esse aplicativo, me ensina?’, quer dizer, é o professor se colocando na posição de aprendiz”.

 

E complementa: “Estudando, buscando cursos de formação continuada, espaços formais para que ele compreenda e reflita sobre essas mudanças tecnológicas que estamos vivendo”.

 

A pedagogia moderna e a diversidade

 

Flávia enfatiza que ainda há no Brasil algumas escolas específicas para crianças e adolescentes com deficiência, mas a pedagogia mais moderna, como a proposta por Maria Teresa Egler Mantoan, que tem uma atuação muito forte na educação inclusiva para as crianças e adolescentes com deficiência, vêm criticando escolas específicas para alunos com deficiência.

 

“Porque, na verdade, seria uma forma de discriminar, tanto que eles falam sobre ‘becos de pessoas com deficiência’. Assim, essa ideia remete à proposta de que os alunos com deficiência devam ser matriculados em escolas tradicionais, juntamente aos alunos sem deficiência, para que as pessoas desde pequenas possam conviver com a diversidade e aprender a respeitá-la desde criança”, salienta.

 

Desse modo, a Defensora reforça que é necessário que o aluno com deficiência assista à aula no período regular com os demais colegas de classe e, se necessário, tenha uma sala de apoio e outras medidas de inclusão oferecidas pela escola em turno diverso ao que ele assiste às aulas regulares.

 

“Sempre com uma equipe de profissionais capacitados e interdisciplinar, para que ele consiga acompanhar o ritmo da turma em que ele está efetivamente matriculado. Essa é a ideia que a pedagogia moderna vem defendendo e que vale a pena destacar”, fala.

 

A educação é um direito de todos

 

Flávia adverte que independentemente do distúrbio ou deficiência do aluno, a escola é obrigada a fazer a matrícula dele.

 

De acordo com a Defensora, a educação é um direito fundamental de qualquer criança e de qualquer adolescente.

 

“Então, as escolas devem estar preparadas ‒ tanto as públicos, quanto as privadas ‒ para receberem os alunos com deficiência e sem deficiência e não podem recusar a matrícula do aluno por ele possuir alguma deficiência. A instituição de ensino é que tem que se preparar para receber esse aluno e não o aluno que deve deixar de estudar porque a escola não tem estrutura”, pontua.

 

Flávia destaca que a escola não pode negar a realização da matrícula por conta de uma deficiência do aluno, por isso, se houver essa negativa, a escola deve ser penalizada juridicamente e os pais devem procurar auxílio de instituições como o Ministério Público ou a Defensoria Pública.

 

“Quando falo isso não é só matricular formalmente, porque a escola deve estar preparada para que haja a inclusão efetiva e que esse aluno consiga aprender o conteúdo pedagógico que irá ser passado com as suas características, ou seja, nas medidas das possibilidades dele. Então, não basta realizar formalmente uma matrícula, mas sim incluir esse aluno”.

 

Mais uma vez ela aconselha pais a buscarem auxílios corretos em caso de descuido, como algo que aconteceu no ambiente escolar sem a presença dos pais.

 

“Se houver negligência e alguma coisa acontecer com esse aluno, mais uma vez os pais devem procurar instituições de auxílio como Ministério Público ou Defensória Pública, que têm entre suas funções institucionais a inclusão de grupos vulneráveis, como as pessoas com deficiência. E nessas instituições eles vão conseguir as orientações certas, até mesmo se devem tomar medidas judiciais ou administravas em face do professor ou da escola, enquanto instituição, ou até mesmo no caso de instituição pública, como o município do estado, da união. A Defensoria e o Ministério irão orientar esses pais e vão tomar as medidas necessárias para reparar a eventual negligência que tenha sido cometida por professores”, esclarece.

 

Como melhorar essa situação?

 

Para Flávia e Marcella, ainda há um longo caminho a ser percorrido para que a inclusão social seja, de fato, expressiva na educação brasileira.

 

Em um curto prazo de tempo ambas esperam a sensibilização das pessoas como um todo, que muitas vezes esperam apenas atitudes do governo ou da escola, mas se esquecem de que o exemplo e as atitudes corretas também começam dentro do nosso próprio lar.

 

“Melhorias podem ocorrer com todos compreendendo as diversidades dos distúrbios de aprendizagem como uma questão que não é só do professor/ educador, mas da sociedade, de cada um de nós, enquanto cidadãos que somos. Espero uma sensibilização quanto à causa da inclusão, e esse exercício começa dentro de casa, na nossa família, até chegar à escola e a outros espaços. Não é de um local restrito, como a escola, por exemplo”, lembra Marcella.

 

Flávia acredita que além das pessoas enxergarem ao próximo como igual, independentemente de sua deficiência, raça, gênero, idade ou o que possa “distingui-lo”,  no plano escolar a melhoria nesse panorama pode ser começada se a direção pedagógica entender o que, de fato, é educação inclusiva.

 

“Quais são as normais que regem a educação inclusiva no Brasil? Quem é o público-alvo, quais são as principais medidas de inclusão e de apoio escolar previstas nas legislações brasileiras sobre o assunto? Como é a Lei Brasileira de Inclusão e as normas do Ministério da Educação? Ou seja, conhecendo realmente o assunto, para que depois a escola possa se adaptar e implementar essas medidas de inclusão, como a capacitação contínua dos professores, a presença de uma equipe técnica interdisciplinar com profissionais de diversas áreas, como psicólogos, pedagogos, neurologistas, psiquiatras, psicopedagogos e outros, além de adaptar a sua estrutura física, para receber esses alunos com deficiência”, finaliza.