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João Appolinário, da Polishop, reclama de demissões durante a crise

Em entrevista exclusiva, dono da Polishop projeta desafios para o comércio varejista e vê com bons olhos as manifestações, contra e a favor, ao governo

Por Felipe Mendes Atualizado em 25 mar 2020, 15h47 - Publicado em 25 mar 2020, 15h00

Empreendedor de apetite voraz, João Appolinário ficou conhecido do público não apenas por transformar a Polishop em uma das principais redes de varejo do país, com um faturamento bilionário e presença massiva em todas as regiões. Mas, sobretudo, por ser um dos principais investidores do reality show Shark Tank Brasil. Com um faro invejável para novos negócios e conhecimento profundo do varejo brasileiro, Appolinário diz que não pretende demitir funcionários — uma opção cogitada por diversos varejistas que tiveram de fechar suas lojas em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a qual classifica não ser “só uma gripezinha”, como nomeou o presidente Jair Bolsonaro, em um polêmico discurso na terça-feira. Appolinário ainda defende o avanço da agenda de reformas econômicas e acredita que as manifestações negativas em relação ao governo são bem-vindas, pois fazem parte da democracia, mas que não é momento de pensar em uma troca de governo.

Existe um temor da sociedade de que o novo coronavírus (Covid-19) faça disparar o número de desempregados no país. Como o senhor está encarando essa situação?
Nós estamos obedecendo tudo aquilo que os governantes têm pedido. Não estamos dispostos a quebrar a nossa equipe. Não sabemos quanto tempo isso irá durar, mas vai passar. Nós temos funcionários com anos de casa, que são muito bem treinados, e acreditamos que a solução não é a demissão. Eu sou extremamente contra a demissão e diminuição de empregos, porque você está mexendo com vidas, com várias famílias. Não seria uma solução inteligente.

Como o senhor estima o impacto dessa epidemia para o comércio varejista como um todo?
O e-commerce é uma opção para mitigar os prejuízos durante esse período. Eu, como tenho uma operação omnichannel, vendo mercadorias por vários canais diferentes. Mas, de qualquer forma, uma queda de 20% a 30% no nosso faturamento é muito grande. Temos de esperar para ver até onde isso irá. O que dificulta o nosso trabalho é que os shopping centers estão trancados com mercadorias nossas lá dentro, que eu poderia estar usando para entregas a domicílio ou, até mesmo, para transformar as nossas lojas numa espécie de ponto de retirada de vendas on-line, como um drive-thru mesmo. Isso é algo que nós queremos solicitar aos shoppings. Vamos ver se conseguiremos organizar nas próximas semanas.

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Como o senhor avalia o desempenho dos governantes para conter essa epidemia? O Brasil perdeu tempo nessa luta?
Eu não acho que perdeu tempo. Acredito que os governantes estão preocupados em resolver tudo da forma mais rápida possível. Criou-se aí medidas até quem sabe antecipadas que, na minha visão, foram radicais demais. Mas eu não sou nenhum ministro da Saúde para avaliar isso. Existem especialistas mais preparados para comentar. Acho que nenhum dos governantes vai querer ficar marcado por ter errado por omissão. Vão preferir errar pelo excesso. As decisões estão nesta linha.

  • Como o senhor avalia o impacto da Covid-19 para a tramitação das reformas administrativa e tributária no Congresso?
    Nós conseguimos ver que quando o Congresso quer votar alguma coisa rápida ele vota, mesmo não estando presencialmente. Isso é muito bacana. Vamos ver como serão as atitudes dos nossos políticos. Será, por exemplo, que eles estariam dispostos a disponibilizar o dinheiro do fundo partidário para ajudar na saúde? Enfim, essas reformas são importantes. É necessário que se avance com a reforma administrativa para o controle das despesas. Depois vamos fazer as coisas ficarem mais simples com a reforma tributária, para termos um imposto justo para todos.

    O presidente Jair Bolsonaro tem sido alvo de panelaços após ter desdenhado do potencial da doença. Ele tem agido de forma coerente, na sua visão?
    Tiveram panelaços contra e a favor do Bolsonaro. As pessoas estão em casa e agora vão começar a avaliar tudo. Antes, nós não tínhamos tempo. Se o governo não tomar as medidas corretas daqui para frente, ele corre vários riscos. Se ele tomar medidas corretas, ele pode ser aplaudido por isso. Na minha empresa é a mesma coisa. Todos os dias eu preciso tomar uma medida. E se eu não tomar a medida correta eu posso sofrer com isso. Posso demitir todo mundo? Pode não ser a melhor medida, porque depois eu vou ter que recontratar e treinar todo o quadro de novo. Vou ter todo um custo de rescisão. Eu acho que o panelaço pode ser uma ótima forma para que os governantes percebam que alguma coisa não está certa, para eles mudarem para melhor. Eu só sei que nós temos que torcer para este governo dar certo, porque nós estamos nas mãos dele. A pior coisa que pode acontecer nesse momento seria achar que temos de mudar de presidente ou de governo. Eu vejo dessa forma. Vivemos numa democracia. Quem está infeliz com o governo tem que protestar. Quem está feliz com as pessoas que estão hoje na área de saúde, tem que aplaudir. As manifestações são bacanas e têm que acontecer.

    Em discurso transmitido em cadeia nacional na terça-feira, 24, Bolsonaro criticou a paralisação do comércio e das escolas e pediu para que o país volte a “normalidade”. Como o senhor avalia isso?
    O pronunciamento foi de difícil compreensão num aspecto geral. Hoje, existem conflitos entre os governos estaduais e o federal. É um querendo passar por cima do outro. Acho que os mais indicados a falar sobre as medidas que visam o bem estar da saúde dos brasileiros são o nosso ministro de Saúde e os secretários estaduais, bem como o David Uip (Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo). Eles são os nossos especialistas. Mas quem sou eu para dizer que isso ou aquilo está certo? Agora, se outros países estão tomando essas medidas de isolamento da população é por algum motivo, porque talvez não seja só uma “gripezinha” mesmo. E essa questão do isolamento foi algo colocado pelo próprio ministério da Saúde. Mas, por outro lado, acredito que o governo também está pensando no problema social, de desemprego, que essa pandemia pode trazer para o Brasil. Existe uma preocupação com a manutenção dos empregos e de onde sairá essa receita. Estamos passando por um momento totalmente incerto.

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