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JBS ganha com alta do dólar e vira ‘fundo que vende carne’

Derivativos cambiais devem render 12 bilhões de reais à empresa, desempenho que vai turbinar seus resultados em 2015

A JBS tem 215 000 funcionários e é considerada a maior empresa do mercado de carnes do mundo. Mas os resultados recentes de suas operações financeiras já renderam a ela um apelido que coloca sua principal área de atuação em segundo plano: o hedge fund que vende carne.

Turbinado pela alta do dólar, o resultado financeiro da empresa no terceiro trimestre deste ano tende a ser memorável, segundo analistas. A companhia tem investido fortemente em derivativos para proteger sua dívida contra a alta da moeda americana. Além de defendê-la, os instrumentos financeiros devem contribuir positivamente para o lucro líquido e o caixa livre no período. Em outras palavras, o que seria inicialmente um instrumento de proteção virou também um bom negócio para a companhia.

A sócia-diretora da AgriFatto, Lygia Pimentel, é consultora em gerenciamento de risco com foco em pecuária. Ela diz que o hedge (proteção) “perfeito” ocorre quando uma companhia protege exatamente a quantia que está exposta. No entanto, a analista ressalta que a JBS já conta com o chamado “hedge natural”, em que a exposição cambial da dívida da empresa é parcialmente ou integralmente compensada pela geração de receitas em dólares, ocorrida por meio de operações internacionais ou via exportação. Assim, a companhia pode limitar a conversão de sua moeda para cumprir suas obrigações, minimizando ou eliminando o impacto da alta do dólar.

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A JBS mantinha 34,8 bilhões de reais em dívidas em junho de 2015, dos quais 87%, ou 30,3 bilhões de reais, estavam denominados em dólares. Ao mesmo tempo, 84% das suas receitas no período foram geradas na moeda americana.

Os ganhos da JBS com a alta do dólar guardam em si algumas ironias. A primeira delas é que a empresa está colhendo frutos de um cenário negativo para o governo – e foi o governo que deu o empurrão para a empresa se transformar na gigante global que é hoje. A JBS foi uma das estrelas da chamada política dos campeões nacionais. Adotada a partir de 2008, a estratégia utilizou crédito farto do BNDES para fazer com que grandes grupos nacionais se tornassem portentos globais – e a JBS foi uma dessas eleitas.

Também não deixa de ser irônico – para dizer o mínimo – que a empresa tenha a seu lado Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central. Meirelles é o presidente do conselho de administração da J&F, holding que controla a JBS e outras empresas dos irmãos Batista. Se, como presidente do BC, Meirelles já foi o guardião do real, hoje, como executivo, ele vê seus parceiros no JBS lucrando com a desvalorização da moeda.

Tática arriscada – A tal “proteção natural” sobre a qual fala a analista Lygia Pimentel tem seus riscos. Entre os principais estão a possibilidade de frustração de receitas em dólares e a expansão da dívida em um determinado período, que podem levar a um desequilíbrio da estratégia de hedge e expor a companhia. A analistas, o presidente global da JBS, Wesley Batista, já declarou não acreditar em “hedge natural” e justificou sua aposta nos derivativos. “Achamos que ter exposição ao dólar neste momento não é prudente de forma alguma”, afirmou ele anteriormente.

A tática atual pode render um bom dinheiro, mas não deixa de ser alvo de dúvidas. “O que vemos é uma posição em derivativos bem acima do que seria necessário para se proteger dos riscos. O custo de manutenção dessa posição também pode apresentar impacto negativo sobre as contas, caso o dólar pare de subir”, diz Lygia. “E se o dólar cair, haverá sim uma exposição maior do que o necessário, que poderá impactar negativamente o caixa.”

Para o Credit Suisse, a JBS deve reportar ganho de 12,7 bilhões de reais em derivativos, que devem gerar resultado financeiro líquido de 5,2 bilhões de reais. Isso contribuiria para o lucro líquido e o fluxo de caixa livre, que pode superar 10 bilhões de reais entre julho e setembro. O cálculo considera o dólar a 4,15 reais. “A estrutura de hedge custa entre 11% e 12% ao ano, o que significa que se o real se estabilizar, a estratégia afetará negativamente o lucro e o fluxo de caixa da JBS”, diz o relatório do Credit. A companhia optou por não comentar o tema.

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(Com Estadão Conteúdo)