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James Boughton: A crise clama por uma liderança global

Cooperação internacional é fundamental neste momento, porém ela só será efetiva se houver um grande país capaz de assumir a condução do problema

Por James Boughton* - Atualizado em 27 Mar 2020, 10h51 - Publicado em 26 Mar 2020, 19h51

A economia global sofreu com quatro grandes rupturas da paz ao longo dos últimos cem anos. Primeiro, tivemos a Grande Depressão dos anos 1930, quando houve o congelamento dos créditos, a seca de investimentos e a queda do emprego. Depois, veio o choque do petróleo da década de 1970, quando a era da energia barata acabou abruptamente. Países acostumados a importar petróleo passaram por uma combinação inédita de estagnação econômica e inflação, enquanto os exportadores lutaram para encontrar formas produtivas para investir sua nova fortuna. Em terceiro lugar, veio a Grande Recessão de 2008, quando o estado completamente interconectado das finanças globais e do comércio mundial permitiu que o mercado aparentemente ascendente das hipotecas dos Estados Unidos se espalhasse pelas grandes economias do mundo. Agora, vem uma pandemia devastadora que só pode ser controlada por meio da suspensão das atividades econômicas e sociais das mais cotidianas.

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Cada um desses eventos teve causas particulares e consequências únicas, mas eles também nos proporcionaram diversas lições que nos ajudaram a responder ao próximo incidente. A maior responsabilidade à pandemia do coronavírus deve ser o fortalecimento dos sistemas de saúde para que a doença não sobrecarregue a nossa capacidade de tratar suas vítimas. Isso levará muito tempo, e será possível apenas se a economia mundial não for tão enfraquecida pela crise que reformas serão descartadas. Descobrir como restaurar o emprego e o crescimento econômico deverão ser a prioridade assim que as exigências médicas diminuírem.

Existem, assim, dois grandes ensinamentos resultantes das crises econômicas anteriores que podem ser aplicadas no momento pelo qual passamos. A mais importante lição que podemos tirar das nossas experiências dos choques das décadas de 1930, 1970 e do final dos anos 2000 é a de que os problemas globais exigem, antes de qualquer outra coisa, cooperação internacional. Isso esteve muito ausente durante a Grande Depressão: o comércio internacional foi reprimido por altas tarifas e as finanças foram desencorajadas por taxas instáveis entre moedas. Como resultado, o colapso de empregos, salários e preços prevaleceram por grande parte da década.

James Boughton é economista americano e trabalhou por 31 anos – entre 1981 e 2012 – no Fundo Monetário Internacional (FMI) como historiador. Atualmente é membro do conselho de finanças internacionais do Centro de Inovação para Governança Internacional, do Canadá (CIGI) CIGI/Divulgação

A cooperação financeira havia sido restabelecida depois da Segunda Guerra Mundial, mas, no começo da década de 1970, ela estava sobrecarregada e teve de ser reconstruída. A resposta aos choques do óleo incluíram o surgimento de grupos internacionais informais, como o G7: Estados Unidos, Japão, Canadá e quatro potências europeias. Nas décadas seguintes, esse tipo de grupo teve um papel dominante na coordenação de respostas a uma enorme gama de crises regionais.

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Um elemento essencial na evolução de autarquias nacionais para a cooperação internacional foi o estabelecimento de instituições globais oficiais. A Organização das Nações Unidas, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional tomaram forma depois da Segunda Guerra. A Organização Mundial da Saúde foi a próxima, e a Organização Mundial do Comércio surgiu bastante tempo depois. Nesse meio tempo, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico foi estabelecida pelas economias avançadas como um fórum para buscar as melhores práticas para estabilizar e acelerar suas economias de forma cooperativa. O Fundo Monetário Internacional e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, com a ajuda do G7 e de alguns outros grupos, foram muito importantes para a recuperação dos choques dos anos 1970 e os consequentes, que vieram nas décadas seguintes. Todas essas agências permanecem ativas e devem ser colocadas à frente no que diz respeito à recuperação vindoura dos efeitos da pandemia.

A segunda lição mais importante é a de que não basta somente o esforço internacional. Essa cooperação mundial será efetiva apenas se houver um grande país que esteja disposto e for capaz de exercer uma liderança positiva nessa situação. Nos últimos 75 anos, esse país foi os Estados Unidos. As instituições globais pós-guerra foram criadas e financiadas sobretudo pelos Estados Unidos. Vale lembrar que a ascensão da economia global moderna e o rápido crescimento econômico pelos quais diversos países passaram nos anos 1950 e 1960 foram, em grande parte, resultado da liderança estadunidense. Para bem ou para mal e apesar do grande crescimento dos seus rivais do ponto de vista das finanças, a economia dos Estados Unidos permanece a maior do mundo, o dólar ainda é a moeda dominante para a economia mundial e o mercado de capitais do país ainda é considerado o mais essencial para as finanças globais. Nenhum outro país, nem mesmo a China, está na posição de destronar o país desse cargo, dessa liderança tão forte da qual o mundo veio a depender.

Uma resposta econômica forte e coordenada significa o desenrolamento das cadeias de mantimentos internacionais, reduzindo barreiras de câmbio que foram levantadas antes do advento da pandemia, e o provimento de assistências específicas, não indiscriminadas, a trabalhadores, famílias e negócios que foram gravemente balançados pelas medidas tomadas em nome da redução da transmissão do coronavírus. Até agora, essas medidas foram ausentes, mal planejadas ou devagares demais. A não ser que o governo dos Estados Unidos assuma a responsabilidade de coordenar uma resposta global, a recuperação de um choque econômico grande como aquele pelo qual passamos será, no melhor dos casos, caótica. O efeito deprimente dessa pandemia na economia e saúde mundial poderá, nesse caso, persistir por anos.

*James Boughton é economista americano e trabalhou por 31 anos – entre 1981 e 2012 – no Fundo Monetário Internacional (FMI) como historiador. Atualmente é membro do conselho de finanças internacionais do Centro de Inovação para Governança Internacional, do Canadá (CIGI)

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