JAC fecha lojas no Brasil e muda estratégia para tentar voltar a crescer
Marca chinesa que chegou ao país com dezenas de concessionárias abandona parte da linha elétrica e aposta em picapes e vendas digitais
A JAC Motors está passando por uma das maiores mudanças de estratégia desde sua chegada ao Brasil. A montadora chinesa, que desembarcou no país com uma operação agressiva e dezenas de concessionárias, reduziu drasticamente sua estrutura física, tirou modelos de linha e agora concentra seus esforços em picapes e veículos comerciais.
A mudança ocorre em um mercado muito diferente daquele encontrado pela empresa no início da década passada. A JAC chegou ao Brasil em 2011 com uma forte campanha de marketing, tendo Fausto Silva como garoto-propaganda, e abriu dezenas de concessionárias em diferentes regiões do país. Em poucos meses, chegou a vender cerca de 15 mil veículos e alcançou participação próxima de 1% do mercado brasileiro.
Quinze anos depois, a realidade é outra. A rede de vendas foi reduzida a três concessionárias tradicionais, localizadas em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. A companhia também encerrou a comercialização do SUV elétrico E-JS4 e do sedã elétrico E-J7, enquanto o futuro do compacto E-JS1 permanece incerto.
A própria JAC afirma que está passando por um “processo de reposicionamento estratégico” no mercado brasileiro. A nova estratégia concentra esforços no segmento de picapes, com modelos a diesel e 100% elétricos, enquanto a operação de venda passa a depender mais dos canais digitais e de negociações à distância.
Da aposta nos elétricos às picapes
A mudança chama atenção porque a JAC passou justamente por uma transformação na direção oposta nos últimos anos. A partir de 2018, a montadora começou a apostar fortemente nos veículos elétricos e chegou a construir uma das maiores gamas de modelos elétricos disponíveis no Brasil naquele momento. O movimento, porém, aconteceu antes da chegada de uma nova onda de fabricantes chinesas ao país. Com a expansão de marcas como BYD e GWM, a competição no segmento de eletrificados aumentou significativamente, pressionando empresas que não conseguiram alcançar a mesma escala.
Agora, a JAC volta a olhar para um segmento mais tradicional do mercado brasileiro. A Hunter, picape média da marca, passou a ocupar posição central na estratégia. A versão Hunter 4Work parte de 219.900 reais e atende um público diferente daquele dos antigos elétricos de passeio, incluindo produtores rurais, empresas, frotistas e consumidores que buscam veículos com maior capacidade de carga. A companhia também prepara o lançamento do JS8 Pro, SUV de sete lugares com motor 1.5 turbo, previsto para 2026, segundo informações divulgadas pela própria empresa. Ao mesmo tempo, o elétrico E-JS3 segue nos planos, embora ainda sem nova data de lançamento confirmada.
O desempenho comercial ajuda a explicar a mudança. Segundo dados da Fenabrave obtidos pelo UOL, a JAC emplacou 23,7 mil veículos em 2011. Em 2024, foram 2.022 automóveis e comerciais leves; em 2025, o número caiu para 988. Entre janeiro e julho de 2026, foram apenas 346 veículos leves, contra 616 no mesmo período de 2025, uma retração de 43,8%.
A redução da rede física não significa, segundo a JAC, uma saída do Brasil. A empresa afirma que o modelo de vendas digitais e à distância vem sendo desenvolvido há cerca de dois anos e permite atender consumidores de regiões onde não há concessionária. O pós-venda também permanece mais amplo do que a estrutura comercial. A JAC informa ter cerca de 142 oficinas credenciadas espalhadas pelo país, o que permite manter uma rede de assistência mesmo com a redução dos pontos de venda.
O desafio agora é fazer uma operação muito menor voltar a ganhar relevância em um mercado que ficou mais competitivo. A JAC chegou ao Brasil como uma das pioneiras entre as chinesas, mas perdeu espaço justamente quando uma nova geração de montadoras asiáticas começou a disputar o consumidor brasileiro com mais escala, tecnologia e investimento.







