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IRB e B3: quem tem razão na guerra das sardinhas contra os tubarões?

Grupo no Telegram mobiliza 40 mil pessoas alegando que B3 beneficia indevidamente grandes fundos. Mas a história é mais complicada que isso

Por Luisa Purchio Atualizado em 1 fev 2021, 06h39 - Publicado em 1 fev 2021, 06h30

As redes sociais revolucionaram a vida humana pela capacidade de articular facilmente um grande número de pessoas interessadas num mesmo fim. Se anteriormente a voz de poucos grandes investidores era ampliada por seu capital, hoje esta distância diminuiu. Unidos pela internet e orquestrado por alguns líderes, os pequenos têm conseguido transformações e este movimento bate às portas do mercado de capitais.

Com os juros a níveis baixos e sem muitas opções para investir, a bolsa de valores de São Paulo ganhou 1,5 milhão de investidores só em 2020. E, neste início de 2021, alegando estarem cansados da “manipulação de ações feitas por grandes fundos”, os pequenos investidores, apelidados de sardinhas, se uniram em plataformas para, juntos, desafiarem tubarões do mercado financeiro influenciando no preço das ações. Enquanto alguns anos atrás as bolsas de valores eram vistas como uma espécie de clube “VIP” que só os poderosos tinham acesso, esse quadro mudou nos últimos anos e ganhou um empurrãozinho a mais com a pandemia da Covid-19.

A principal crítica feita por estes pequenos investidores está em relação à prática de “short squeeze” adotada por grandes fundos. Este mecanismo é regulado e se trata do aluguel por corretoras de ações dos chamados “comprados”, ou seja, daqueles que detém as ações. Com o ativo alugado em mãos e, contando que o seu valor irá cair no futuro, as corretoras as vendem “a descoberto”, ou seja, com o compromisso de comprá-las de volta para então devolvê-las aos donos originais. A acusação contra estes fundos é que o excesso de venda de ações “a descoberto” disponibilizado ao mesmo tempo no mercado por estas instituições acabam causando uma queda de valor das empresas e, com isso, as corretoras conseguem garantir que vão comprá-las de volta por um preço mais baixo. Depois de lucrar com esta diferença entre o valor de venda e o valor de recompra, elas devolvem as ações para os seus donos originais.

“Players institucionais sempre manipularam o mercado e nunca tiveram problema com isso”, questionam os administradores do grupo “Short Squeeze IRB” em um manifesto publicado em um grupo criado no Telegram para alavancar ações da resseguradora IRB no Telegram. Criado nesta quarta-feira, a comunidade já possuía quase 50 mil integrantes, no sábado, 31. De acordo com um integrante que falou a VEJA sob a condição de anonimato, seis pessoas estão na organização do movimento e eles se conheceram em um outro fórum online sobre investimentos, no mesmo aplicativo. Dono de 15 mil ações da IRB compradas em sua maioria em novembro de 2020, ele afirmou que não realizou lucros com suas ações e o grupo de organizadores pretende fazer o mesmo. “Nosso intuito é apenas divulgar informações, para juntos entendermos a dinâmica do mercado e do ativo. Também achamos importante conscientizar as pessoas de injustiças e manipulações que sempre ocorreram e nunca foram julgadas pelo simples fato de se tratar de grandes instituições. Hoje o investidor pessoa física viu que tem o seu lugar e juntos temos poder contra as injustiças”, disse.

Muitas das práticas adotadas pela Comissão de Valores, a CVM, reguladora do mercado, e questionadas por eles, no entanto, estão previstas em legislação, como o leilão contínuo que ocorreu com os papeis da IRB na sexta-feira 29. Esse mecanismo faz com que, em vez de as ações serem negociadas uma por uma aos preços oferecidos por cada comprador e investidor, a B3 estabelece um preço médio de compra e venda baseado em todas as ofertas dos especuladores. De acordo com especialista que trabalha diretamente com a operação destas ações, esse mecanismo é disparado automaticamente em situações pré-estabelecidas e divulgadas pela B3 e é normatizado pela instrução da CVM 168, de 1991. O mercado brasileiro também traz menos oportunidades de grandes embates entre sardinhas e tubarões, já que pelas regras locais não é permitido emprestar mais que 20% das ações em negociação de uma empresa, limitando o volume de operações vendidas. Nos EUA, isso é ilimitado.

De acordo com a fonte, no dia 21 de janeiro, quando ocorreu uma queda drástica nas ações da IRB, o leilão não ocorreu porque os parâmetros previstos para ativar o mecanismo de leilão não foram atingidos, e não pelos motivos alegados por investidores do grupo “Short Squeeze IRB”: “Estranhamente não fizeram esses ‘grandes leilões’ de mais de uma hora nos dias de forte queda do papel, quando os fundos especulativos destruíram o valor de mercado da empresa sem dó (e o patrimônio de seus acionistas)”. O grupo também afirmou que a “CVM, responsável em proteger os interesses de investidores legítimos, aparentemente tomou arbitrariamente uma decisão que está prejudicando o investidor pessoa física hoje com consecutivos leilões sobre a ação da IRB Brasil e, ao mesmo tempo, ajudando o grande especulador em short a derrubar o papel – uma vez que seu poder financeiro é infinitamente maior.”

Apesar de as críticas feitas pelos novos investidores serem rebatidas pelas regulamentações já aprovadas pelo órgão fiscalizador, uma coisa é fato: a lógica do mercado financeiro mudou. Os novos investidores, relevantes para o mercado de ações, estão trazendo suas demandas e foram capazes de oscilar as ações da IRB em mais de 15% em um dia. Como afirmou a VEJA o ex-diretor de assunto internacionais do BC Tony Volpon, “todo mundo precisará se mexer”, inclusive os órgãos reguladores e experientes agentes de mercado que de repente se depararam com novos desafios catapultados pelas redes sociais.

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