IPCA surpreende para baixo e reforça expectativa de corte da Selic, mas petróleo ainda preocupa
Inflação de 0,16% em junho veio abaixo das projeções do mercado e fortalece a visão de desaceleração dos preços
A inflação brasileira desacelerou mais do que o esperado em junho e trouxe um novo alívio para o mercado. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,16% no mês, bem abaixo dos 0,58% registrados em maio e também das expectativas dos economistas, que projetavam um índice próximo de 0,32%. O resultado foi impulsionado principalmente pela queda nos preços dos combustíveis e pelo comportamento mais benigno dos alimentos, reforçando a percepção de que as pressões inflacionárias domésticas começam a perder força.
Para a economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, o dado surpreendeu positivamente não apenas pelo número cheio, mas também pela qualidade da composição do índice. Segundo ela, os núcleos de inflação, indicadores que eliminam oscilações mais voláteis, vieram melhores do que o esperado, com destaque para alimentação e serviços ligados à alimentação fora do domicílio, além de uma desaceleração nos preços de bens industriais.
Na avaliação da economista, o resultado fortalece a percepção de que o balanço de riscos para a inflação de 2026 começa a melhorar. Com a inflação corrente mais comportada, aumenta a probabilidade de revisões para baixo nas expectativas de médio prazo, o que pode abrir espaço para a continuidade do processo de calibragem da política monetária. Ainda assim, ela ressalta que fatores como o cenário fiscal brasileiro e a proximidade das eleições continuam dificultando uma reancoragem mais consistente das expectativas, recomendando cautela por parte do Banco Central.
O resultado também foi interpretado como um reforço para a expectativa de que a autoridade monetária possa iniciar um novo ciclo de flexibilização da Selic. Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o índice mostra que a desaceleração da inflação doméstica é consistente, mas ainda não elimina os riscos vindos do exterior. “O IPCA de junho, em 0,16%, veio bem abaixo da expectativa e mostra que a desaceleração da inflação interna é real, ajudada principalmente pela queda dos combustíveis. Mas esse dado reflete preços coletados até o fim de junho e ainda não incorpora a disparada recente do petróleo, que voltou para a casa dos US$ 80 após a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã”, afirma.
Segundo o executivo, o principal risco agora deixa de ser doméstico e passa a vir do cenário internacional. Um petróleo mais caro tende a pressionar combustíveis, fretes e até o câmbio, criando um novo vetor de inflação importada justamente em um momento em que o IPCA acumulado em 12 meses ainda permanece acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central.
Apesar desse cenário, Matos acredita que o dado aumenta as chances de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na próxima reunião do Copom, levando a taxa básica de juros de 14,25% para 14% ao ano. A decisão, no entanto, dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio e da permanência ou não da pressão sobre o petróleo.







