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Inflação: O que a história tem a ensinar para Bolsonaro

O controle artificial de preços pode ser mais nocivo ao país e descambar no descontrole generalizado

Por Victor Irajá - 14 set 2020, 17h55

Inflação. Os brasileiros vividos na década de 1980 têm pavor das manchetes de jornal que grafam a palavra. E não é para menos. Aos galopes, os preços nos supermercados quase dobravam de um mês para o outro, provocando correrias e a ruína do poder de compra da população. Foram planos e mais planos para, finalmente, com o Plano Real, o dragão ser amansado. Mas o presidente Jair Bolsonaro é, no mínimo, mais criativo. Com o arroz na boca (e não no estômago) do povo graças à escalada de preços, o presidente fez um apelo aos mercadores, pedindo “patriotismo” para driblar o aumento. O ímpeto de intervir virou lambança dentro do governo. A Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça notificou a Associação Brasileira de Supermercados e produtores de alimentos e cobrou, em até cinco dias, explicações sobre o aumento do preço de itens da cesta básica. Sensatamente, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, reagiu, dizendo que não haverá tabelamento de alimentos. Ainda bem. “Os preços não sobem por uma existência de cartel ou monopólio de mercado, é um movimento estacional”, diz Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda. “Mercado não tem patriotismo e aumento não é pauta policial”, completa ele.

Sarney e Dilma: montados sobre uma crise sem fim
Sarney e Dilma: Exemplos claros de que caminhos não seguir VEJA.com/VEJA/VEJA

A resposta veio com o Ministério da Economia, que buscou entender os motivos para a cobrança do ministro  da Justiça, André Mendonça. “O brasileiro criou uma cultura de criminalização do lucro, não faz sentido. Temos, culturalmente, que lucrar é criminoso, que parte da nossa culpa católica”, diz Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. E, para além dos louros políticos, a longo prazo, a mão grande do poder público nos mercados sempre acarreta em péssimas consequências. Até meados dos anos 1990, uma invencionice da ditadura persistia: o tabelamento de preços por meio do Conselho Interministerial de Preços (CIP) e a Superintendência Nacional de Abastecimento (SUNAB), além da proibição de exportar produtos, para coibir os aumentos, parte, é claro, da lambança que os órgãos regulatórios, finalmente, vieram a substituir. O exemplo mais recente dos custos para o país de se flertar com o populismo econômico está na gestão de Dilma Rousseff. A canetada nas áreas de energia e combustíveis fez o Brasil amargar a conta anos depois, resultando em um processo de deterioração deliberada de ativos, em 2017, chamada impairment, para diminuir os prejuízos.

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Arroz: o inimigo da vez à mesa do brasileiro Reinaldo Canato/VEJA.com

Enquanto motiva o ministro da Justiça a fiscalizar as gôndolas, o presidente mostrou o mínimo de sensatez na tradicional transmissão ao vivo na quinta-feira 10. “Posso tabelar? Não pode. Mexe no mercado e fica pior. Não vou interferir no mercado, tem que valer a lei da oferta e procura”, disse Bolsonaro. Apesar do desespero em relação à alta dos preços nos supermercados ter chegado ao Palácio do Planalto, o ambiente inflacionário do país está longe de ser preocupante. A ministra da Agricultura tem repetido aos consumidores que a alta nos preços de alimentos é um movimento passageiro. E ela tem razão. Nesta segunda-feira, 14, o índice inflacionário medido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, apontou que, em agosto, para famílias mais pobres, a variação de preços apontou alta de 0,38%, enquanto a parcela de renda mais alta da população percebeu deflação de 0,1%. “A inflação não voltou a ser um problema. O fato de o arroz ter subido não significa uma variação alta nos preços como um todo”, diz o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira. Os resultados, dizem ex-ministros, é motivado pelo movimento acertado do governo federal no amparo aos mais vulneráveis, com o pagamento do auxílio emergencial e a demanda reprimida causada pela pandemia de Covid-19. 

Bresser-Pereira foi um dos responsáveis pela tentativa de doma do malfadado dragão. Depois de o país amargar o fracasso do Plano Cruzado, a variação dos preços voltou a ser preocupação central no Ministério da Fazenda. Em junho de 1987, Bresser-Pereira anunciou o plano de estabilização que levava seu nome, o Plano Bresser, que previa o congelamento, por 90 dias, de preços, salários e do câmbio, como uma bala de prata para, finalmente, controlar a inflação. Como nas outras duas tentativas do presidente José Sarney, deu errado. Para fins imediatistas, o plano foi um sucesso. Amargando mais de 26% no mês inicial, o IPCA caiu para 3,1% no mês seguinte. Em agosto, a inflação voltou a subir e alcançou 6,4%. É o risco que corre Bolsonaro. “Pode demorar mais dois ou três meses, é normal. Quando o governo se mete a fazer controle, aí, sim, teremos um problema”, diz Delfim Netto. O movimento mais sensato de Bolsonaro envolve segurar seu ímpeto e deixar o mercado correr livremente. A alternativa, mostra a história, deixa a conta mais cara. 

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