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Inflação faz Copom elevar taxa de juros para 8,5% ao ano

Trata-se da terceira alta consecutiva nos juros em 2013 para conter o índice

Por Da Redação - 10 jul 2013, 20h09

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou em 0,50 ponto porcentual, para 8,5% ao ano, a taxa básica de juros (Selic) nesta quarta-feira, em decisão unânime, sem viés – ou seja, a decisão é válida até o próximo encontro em agosto. Trata-se da terceira elevação consecutiva do juro básico da economia neste ano. A trajetória de alta teve início em abril, quando a autoridade monetária subiu a Selic de 7,25% (mínima histórica) para 7,5%. A decisão não surpreendeu o mercado financeiro, que apostava de forma quase unânime no aumento de 0,50 ponto.

No comunicado que acompanhou a decisão, o BC reafirmou que a inflação constitui um risco para a economia. “O comitê avalia que a decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano”.

Votaram por essa decisão o presidente do BC, Alexandre Tombini, e os diretores Aldo Luiz Mendes, Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, Luiz Awazu Pereira da Silva, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques.

Expectativas – Duas razões embasaram o mercado. Primeiro, as indicações dadas pelos diretores do BC tanto na última ata do Copom como em entrevistas à imprensa. A autoridade monetária reconhece a persistência inflacionária, mas não dá sinais de optar por altas bruscas, que fujam da estratégia de elevações de 0,25 e 0,50 ponto porcentual. Em segundo lugar, a intenção do órgão em reverter o descolamento das expectativas em relação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). “O Copom tem de usar a Selic para múltiplos objetivos. O primeiro é controlar a inflação, mas o segundo é controlar as expectativas. Nesse sentido, a comunicação é mais importante que a taxa Selic em si”, afirma o economista André Perfeito, da Gradual Corretora.

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Controlar as expectativas do mercado foi, talvez, uma das perdas mais graves vivenciadas pelo o governo – e pelo BC – no último ano. Segundo um texto da autoridade monetária, “um dos objetivos centrais do regime de metas de inflação é justamente ancorar as expectativas de mercado que, de forma geral, orientam o processo de formação de preços na economia”. Isso significa que, à medida que os movimentos do BC passam a ser mais previsíveis, as expectativas de inflação se formam com maior precisão. É possível dizer que a política monetária tem credibilidade quando os reajustes de preços passam a ser próximos da meta – o que não ocorre no Brasil desde 2009. Essa situação, aliada à frouxidão da política fiscal e à contabilidade criativa são as três maiores feridas à credibilidade da economia brasileira, atualmente.

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A avaliação do mercado, contudo, é de que a autoridade monetária quer reverter, pelo menos, a parte que é de sua responsabilidade. “O BC não quer criar mais ruídos do que os atuais. Já há muita turbulência local e global para que sejam anunciadas mudanças de estratégia”, afirma o economista Roberto Padovani.

Inflação – O IPCA, que mede a inflação oficial, desacelerou em junho para 0,26% (ficou em 0,37% em maio), mas acumula alta de 6,70% nos últimos doze meses, ultrapassando pela décima vez, no governo Dilma, o teto da meta (6,5%). O resultado veio um pouco melhor do que as expectativas do mercado, que apostavam em avanço de 0,33% no mês, e de 6,77% no acumulado dos doze meses, mas está longe de representar um alívio, tendo em vista que a pressão do dólar (que subiu 11% no ano) ainda não foi completamente assimilada na formação dos preços.

Segundo relatório da Tendências Consultoria, o quadro inflacionário segue complicado apesar do dado de junho. “Mesmo com a perspectiva de desaceleração no segundo semestre, a inflação deve continuar mais próxima ao teto do que ao centro da meta. Núcleos e o índice de difusão mostraram sinais de melhora na margem, mas a média dos núcleos em doze meses acelerou para 6,3%”, informa a nota. A Tendências também aponta para a redução do ritmo da recuperação econômica, que pode ter impacto negativo sobre o aumento de preços. Segundo o último boletim Focus, economistas já revisam para baixo as perspectivas de alta do Produto Interno Bruto (PIB) para 2014.

Diante da deterioração das contas públicas ocasionada pelas desonerações de impostos, da queda na arrecadação e a inexistência de um programa vigoroso de ajuste fiscal, a política monetária do BC se mostra como única alternativa (usada tardiamente) para tentar conter o avanço dos preços. O ex-ministro da Fazenda e economista Delfim Netto chegou a afirmar entrevista ao jornal ‘Folha de S. Paulo’ que o BC cansou de esperar que a política fiscal ajudasse no combate à inflação. Agora, entrou em ação. Os efeitos da alta dos juros, contudo, só serão sentidos no final do segundo semestre. E não são poucas as vozes a dizer que a Selic sozinha poderá não ser suficiente para conter a inflação. Uma delas é a do próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que implementou o regime de metas em 1999, durante seu segundo mandato.

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