Inflação desafia Milei e ameaça narrativa de recuperação econômica
Dados recentes mostram desaceleração do processo de desinflação, enquanto câmbio mais flexível e inércia econômica mantêm pressão sobre preços
Por Ernesto Neves
A desaceleração da inflação na Argentina perdeu força nos primeiros meses de 2026, colocando o governo de Javier Milei diante de uma fase mais complexa do ajuste econômico.
Após cair de níveis extremos no início de seu mandato, a alta de preços voltou a acelerar e atingiu 3,4% em março, o maior patamar mensal em um ano.
O dado reforça a avaliação de economistas de que o processo de desinflação entrou em um impasse, no momento em que fatores externos, como o conflito entre Estados Unidos e Irã, pressionam custos globais, especialmente energia, e dificultam o controle dos preços.
Da queda rápida ao “piso difícil”
Quando assumiu a presidência em 2023, Milei herdou uma economia com inflação mensal de dois dígitos e anual próxima de 300%.
A estratégia inicial, baseada em forte ajuste fiscal e no controle do câmbio, conseguiu reduzir rapidamente o ritmo de alta dos preços.
A inflação mensal chegou a cair para cerca de 1,5% em meados de 2025, mas desde então voltou a subir, oscilando entre 2,9% e 3,4% no início deste ano.
Em termos anuais, a inflação gira em torno de 33%, ainda uma das mais altas do mundo, apesar da queda expressiva.
Essa segunda etapa do combate à inflação tende a ser mais difícil. Reduzir a inflação de níveis muito altos é mais simples do que estabilizá-la em patamares baixos e sustentáveis.
Fim da âncora cambial expõe fragilidades
Parte da perda de tração está ligada à mudança na política cambial.
No início do governo, o controle do peso funcionou como uma âncora para os preços. Mas, após um acordo com o Fundo Monetário Internacional, o país passou a adotar um regime mais flexível.
Sem essa referência clara, a economia voltou a exibir um problema estrutural: a inércia inflacionária.
Em um país acostumado a décadas de alta de preços, empresas e consumidores antecipam reajustes, criando um ciclo difícil de romper.
No dia a dia, isso se traduz em práticas como remarcação preventiva de preços por comerciantes, contratos com reajustes automáticos e negociações salariais baseadas na inflação passada, mecanismos que alimentam novas altas.
Energia e guerra pressionam preços
O cenário internacional agravou esse quadro. A guerra no Oriente Médio elevou a volatilidade nos preços de energia, impactando custos de produção e transporte.
Esse choque externo se soma a ajustes internos ainda em curso, como a redução de subsídios a tarifas públicas.
Com isso, serviços como energia e transporte continuam subindo, mesmo com a desaceleração de alguns bens industriais.
Dados recentes mostram que os preços de alimentos seguem pressionados.
Em março, alimentos subiram 3,4% no país, com destaque para carnes, que avançaram 6,9% em Buenos Aires.
Salários perdem para a inflação
Ao mesmo tempo, a renda não acompanha o ritmo dos preços. Salários formais cresceram cerca de 2% ao mês em fevereiro, abaixo da inflação, o que resulta em perda de poder de compra.
Estudos de economistas da Universidade de Buenos Aires indicam que trabalhadores formais e aposentados acumulam queda real de renda entre 8% e 10% desde o início do governo.
Esse efeito tem impacto direto no consumo e na percepção econômica da população, mesmo com a redução da pobreza observada após o pico da crise.
Economia parada e apoio em queda
O enfraquecimento do combate à inflação ocorre em um contexto de baixo crescimento. Analistas descrevem a economia argentina como estagnada, sem sinais claros de recuperação no curto prazo.
Esse cenário começa a afetar o capital político de Milei.
Pesquisas recentes mostram queda na aprovação do presidente, com aumento da preocupação dos eleitores com desemprego e renda, que passaram a pesar mais do que a inflação no debate público.
A taxa de desemprego subiu para cerca de 7,5%, quase 2 pontos percentuais acima do início do governo.
Dúvidas sobre estratégia e credibilidade
Outro ponto de tensão é a ausência de uma política monetária explícita de metas de inflação, considerada por economistas uma ferramenta importante para ancorar expectativas.
Além disso, decisões recentes envolvendo a metodologia de cálculo do índice de preços geraram questionamentos.
O adiamento da atualização da cesta de consumo levou à saída do chefe do órgão estatístico, reacendendo temores históricos sobre a credibilidade dos dados oficiais.
Reta final será decisiva
O governo segue defendendo que a inflação voltará a cair e projeta níveis abaixo de 1% ao mês no futuro próximo.
No entanto, a combinação de fatores internos, como inércia inflacionária, e externos, como a alta de energia, torna o cenário mais desafiador.
A Argentina entra, assim, na fase mais difícil de seu ajuste: aquela em que o combate à inflação deixa de ser uma resposta emergencial e passa a exigir mudanças estruturais profundas.






