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Impulsionadas por superproduções e novas tecnologias, salas de cinema quebram recordes

Elas deixam para trás a crise provocada pelo streaming

Por Leticia Yamakami Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 ago 2026, 08h00
Impulsionadas por superproduções e novas tecnologias, salas de cinema quebram recordes Priorizar nos meus resultados Google

Em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Oppenheimer (2023), filmes dirigidos por Christopher Nolan, há cenas específicas que foram gravadas com um recurso grandioso para o cinema: as câmeras Imax. Sua maior diferença em relação aos equipamentos digitais, em termos simples, é a qualidade — as Imax utilizam películas de 70 milímetros com resolução superior e que capturam até 40% mais área de imagem. Agora, o cineasta foi além e decidiu fazer algo inédito na história: filmar um longa-metragem inteiro com câmeras Imax. Foi com essa estrutura que nasceu A Odisseia, adaptação cinematográfica do poema épico grego de Homero, que já arrecadou mais de 922 milhões de dólares mundialmente, após apenas três semanas em cartaz. A obra também é a principal responsável por tornar a Universal Pictures o primeiro estúdio a ultrapassar a marca de 4 bilhões de dólares em bilheteria global neste ano e por dar ainda mais impulso ao retorno do público às salas de cinema.

As telas que projetam a tecnologia Imax são a tendência do momento, mas os números mostram que o segmento como um todo está em alta. Segundo pesquisa da consultoria PwC, a receita total das bilheterias mundo afora deve encerrar o ano em 34,6 bilhões de dólares, um aumento de 29% em relação a 2022, ano em que as portas dos cinemas foram reabertas após a pandemia. Em nota a VEJA, a empresa de auditoria explica que a expansão contínua se dá principalmente pelo calendário robusto de lançamentos com forte apelo comercial, como grandes franquias e longas cujos títulos são baseados em propriedades intelectuais já conhecidas do público. É o caso de Homem-­Aranha: Um Novo Dia (2026), que somou 927 milhões de dólares em bilheteria somente em seu fim de semana de estreia e se consagrou como a segunda maior abertura global da história, atrás somente de Vingadores: Ultimato (2019).

ATRAÇÃO - Sessão lotada nos Estados Unidos: sucesso com as telas gigantes
ATRAÇÃO - Sessão lotada nos Estados Unidos: sucesso com as telas gigantes (David Jon/Getty Images)

Outra tática importante é a manutenção da chamada “exclusividade teatral”, que são janelas de cerca de noventa dias antes da chegada dos filmes ao streaming. “Essa estratégia preserva a atratividade das salas de cinema e maximiza a receita no período mais lucrativo das obras”, diz a PwC. Isso beneficia principalmente as empresas de salas físicas. A americana AMC Theatres, maior rede de cinemas do mundo e que possui 180 cabines Imax, viu o valor de suas ações disparar 24% no fim de julho. No segundo trimestre deste ano, a multinacional teve aumento de 70% em seu Ebitda (indicador financeiro que mede o resultado operacional de uma empresa, sem descontar juros e impostos, por exemplo). Por sua vez, a Imax Corporation, de origem canadense, registrou um crescimento de 50% na participação de mercado desde 2018 e uma arrecadação estimada em 1,2 bilhão de dólares em 2025.

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Segundo especialistas, o cinema continuará atraindo espectadores justamente por oferecer uma experiência essencialmente coletiva. O fator fundamental, no entanto, é a novidade. E é essa característica que faz com que a retomada de 2026 seja autêntica. “O cinema usa a tecnologia para enfrentar a concorrência da televisão e atrair novos públicos com a força do grande espetáculo”, afirma Luiz Gonzaga de Luca, ex-presidente da operação brasileira da Cinépolis, rede mexicana de salas de exibição. “A última obra de Christopher Nolan valoriza ao máximo a questão tecnológica, o que pode ajudar o mercado audiovisual a continuar crescendo.”

Infográfico sobre o retorno das telonas, com dados de bilheteria e faturamento do cinema. Destaques: aumento de 29% na bilheteria mundial desde 2022, projeção de vendas de 34,6 bilhões de dólares até 2026, e crescimento anual de 3,2% até 2030. A receita da AMC foi de 2,6 bilhões de dólares no primeiro semestre de 2026, e a dos cinemas brasileiros, 1,3 bilhão de reais no mesmo período. Houve um crescimento de 9,4% na receita em comparação com 2025

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O Brasil vem tentando tirar uma casquinha da onda do retorno às telonas — com muito sucesso. A bilheteria acumulada nos cinemas do país alcançou 1,3 bilhão de reais de janeiro a junho, o melhor resultado desde a pandemia de covid-19, de acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine). O público também aumentou: no período, foram vendidos 62,4 milhões de ingressos, um crescimento de 1,6% na comparação com o mesmo intervalo do ano passado. Segundo André Sturm, presidente do Belas Artes Grupo e do Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo, manter o bom momento do mercado audiovisual brasileiro nos próximos anos exigirá mais do que uma programação de filmes atraentes. Ele cita a Semana do Cinema, evento que ocorre duas vezes por ano, quando as redes exibidoras cobram apenas 10 reais de entrada para assistir a qualquer filme. “Medidas assim são muito valiosas”, afirma Sturm. “São eventos cobertos com destaque pela imprensa e que têm uma comunicação espontânea, o que aumenta enormemente o número de pessoas que vão às salas de cinema.” Com mais espectadores trocando a comodidade do streaming pela experiência de mergulhar na magia de uma sala de cinema, um negócio que parecia condenado renovou o fôlego.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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