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Impacto da redução da nota da dívida americana é incerto

Por Por Paul Handley 6 ago 2011, 11h16

Dado o tamanho da economia dos Estados Unidos e o papel preponderante que o dólar tem no mundo, a redução da nota da dívida americana deve ter um impacto importante na economia global.

No entanto, pela mesma razão – o dólar e os títulos americanos estão em muitas mãos e são considerados confiáveis nas finanças e comércio – muitos analistas acreditam que as repercussões da medida não serão muito grandes, pelo menos a curto prazo.

A agência Standard & Poor’s rebaixou na sexta-feira a nota máxima, de AAA a AA+, pela primeira vez na história americana, alegando a crescente dívida, o pesado déficit orçamentário e carências no planejamento de políticas.

A S&P rejeitou os esforços de Washington para demonstrar que havia iniciado um caminho claro para reduzir o déficit e diminuir a carga da dívida, que esta semana subiu a 14,6 trilhões de dólares, 100% do PIB, virtualmente a mesma relação que a Itália, cuja dívida caiu nos mercados pelos crescentes temores de que o país possa entrar em moratória.

Ao mesmo tempo, o governo continua pedindo emprestado 40 centavos por cada dólar que gasta, enquanto a economia cresce pouco e é incapaz de gerar a arrecadação fiscal necessária.

As consequências de uma redução da classificação são difíceis de prever. O Japão, que viu sua nota reduzida duas vezes na última década e passar AA, tem uma relação dívida-PIB de mais de 200%, mas segue pagando taxas extremamente baixas por seus empréstimos.

O banco Goldman Sachs advertiu mês passado que as consequências de um rebaixamento da classificação não poderiam ser previstos com facilidade.

“O tamanho da economia dos Estados Unidos, o mercado de títulos públicos e o status do dólar como moeda de reserva tornam impossível encontrar um paralelo histórico claro para a presente situação”, destacou o poderoso banco de investimentos, ele mesmo um operador chave de títulos do Tesouro.

Em tese, as reduções de notas deveriam pelo menos provocar um aumento do custo do crédito para o governo, com taxas maiores que outros países AAA como a Alemanha, e servir como advertência para colocar a parte fiscal em ordem.

Além disso, deveria estimular a desvalorização do dólar em relação a moedas de outras economias fortes.

E como o dólar e os títulos do Tesouro são tão cruciais – apenas a China tem mais de 1,1 trilhão de dólares em títulos da dívida dos Estados Unidos e o Japão 900 bilhões – qualquer questionamento à habilidade de Washington de pagar suas dívidas deveria afetar o sistema financeiro global.

“A recuperação perdeu força, os Estados Unidos estão endividados até o pescoço e o Federal Reserve está considerando maiores estímulos”, disse na semana passada Kathy Lien, analista em taxas de câmbio da GFT.

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Ela considerou que se os Estados Unidos perdessem a nota AAA, o dólar seria afetado.

“Diferentes tipos de acontecimentos aconteceram na história e sabemos até certo ponto como os mercados reagem a estes eventos”, declarou Owen Fitzpatrick, do Deutsche Bank.

“Mas aqui nunca tivemos uma degradação do crédito. É tereno não explorado”, completou.

No entanto, o Goldman acredita que o impacto não deve ser grande, e os mercados sugeriram o mesmo antes da redução da nota.

Muitos acreditam que a redução não deve força uma venda de títulos.

De fato, enquanto o rebaixamento ainda era uma possibilidade, os preços das obrigações do Tesouro atingiram a maior cotação do ano na quinta-feira, com o rendimento no menor nível. E bilhões de dólares em títulos da nova dívida foram negociados com facilidade esta semana.

Para o Golddam Sachs, poderia acontecer uma venda modesta nos mercados de ações. Um sinal claro disto foi registrado na sexta-feira, quando o índice Dow Jones Industrial Average registrou uma queda repentina de 400 pontos, quase 3%, após os boatos de um anúncio iminente da S&P que afetaria o mercado.

Mesmo assim, o mercado recuperou 300 pontos no fechamento, apesar do fantasma da redução da nota ainda estar no ar.

No mercado bancário, onde a dívida americana é uma moeda chave nos empréstimos, o impacto pode ser mais perturbador.

Isto é particularmente certo no mercado interbancário no qual as instituições trocam títulos por dinheiro para equilibrar suas contas a curto prazo.

O Goldman considera que o valor dos bônus americanos neste mercado pode cair 1% depois do rebaixamento, aumentando os custos dos bancos.

Com a expectativa clara de minimizar o impacto nas instituições financeiras, o Tesouro emitiu rapidamente uma circular dirigida aos bancos na qual afirma que nada mudará após a mudança da nota.

Mas muitos esperam que o impacto seja percebido em instituições que confiam na garantia do governo americano para seus papéis, como as muito endividadas casas de crédito hipotecário Freddie Mac e Fannie Mae, assim como os grandes bancos que confiam na garantia implícita do governo de que é “muito grande para falir”.

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