Ibovespa cai com desemprego no menor nível da série e petróleo em baixa
Mercado de trabalho resiliente reforça cautela com trajetória da Selic, enquanto recuo da commodity pressiona ações ligadas ao setor
O Ibovespa operava em queda nesta terça-feira, 29, em uma sessão marcada pela divulgação de novos dados sobre o mercado de trabalho e o crédito no Brasil e pelo recuo do petróleo no exterior. Por volta das 10h55, o principal índice da B3 caía 0,41%, aos 182 180 pontos.
A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo dados divulgados nesta manhã pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou em linha com as expectativas do mercado e representa o menor nível para o período desde o início da série histórica, em 2012. A população ocupada chegou ao recorde de 103,5 milhões de pessoas.
Apesar de positivo para a atividade econômica, um mercado de trabalho ainda aquecido pode dificultar uma queda mais rápida dos juros. Isso porque emprego e renda resilientes tendem a sustentar o consumo e a demanda, fatores acompanhados pelo Banco Central na avaliação sobre a trajetória da inflação. “O dado mais importante da manhã é o mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre até agosto, em linha com as expectativas. É um mercado de trabalho ainda resiliente, e isso é relevante para o Banco Central”, afirma Leonardo Brito, economista da Olimpo Investimentos. Para ele, uma economia com emprego aquecido pode dificultar uma convergência mais rápida da inflação.
A leitura é semelhante à de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Segundo ele, o desemprego em patamar historicamente baixo “reduz o espaço para uma aceleração dos cortes da Selic”, mantendo os juros domésticos como um dos fatores de pressão sobre a Bolsa. Ao mesmo tempo, os dados de crédito divulgados pelo Banco Central mostram os efeitos do aperto monetário sobre famílias e empresas. A inadimplência no crédito com recursos livres atingiu 6,6% em agosto, renovando o maior nível da série histórica iniciada em 2011. Entre as pessoas físicas, a taxa chegou a 8%.
Para Lima, os dois indicadores mostram forças distintas atuando sobre a economia. De um lado, o mercado de trabalho permanece aquecido; de outro, a inadimplência recorde indica que os juros elevados começam a aparecer de maneira mais evidente nas condições financeiras.
No exterior, a queda do petróleo acrescentava pressão ao Ibovespa, principalmente sobre as empresas ligadas à commodity. O movimento ocorre após a recuperação de parte das exportações de petróleo do Oriente Médio, enquanto as negociações envolvendo Estados Unidos e Irã permanecem no radar dos investidores. “O petróleo recua, aliviando marginalmente a pressão inflacionária global. Então, para o mercado brasileiro, eu destacaria três vetores hoje: mercado de trabalho, trajetória dos juros globais e petróleo”, afirma Brito.
Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries continuam em níveis elevados. O título de dez anos permanecia próximo de 5,2%, mantendo a atenção dos investidores sobre a trajetória dos juros americanos. Os futuros dos principais índices de Wall Street, por outro lado, avançavam nesta manhã.
No câmbio, o dólar recuava e rondava 5,21 reais, mesmo com leve valorização da moeda americana no exterior. Para Lima, o comportamento indica que o diferencial de juros entre Brasil e outros mercados continua oferecendo suporte ao real. Na avaliação do analista, a combinação deixa a Bolsa pressionada por commodities e pela perspectiva de juros domésticos elevados por mais tempo, enquanto o câmbio encontra alguma proteção no chamado carry trade, estratégia que busca aproveitar a diferença entre as taxas de juros de diferentes países.





