Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Guru das previsões erradas, Mantega é o ministro da Fazenda há mais tempo no cargo

Atual ministro ultrapassou Pedro Malan como o que mais tempo ficou na pasta

Por Da Redação 28 mar 2014, 05h05

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, completou nesta quinta-feira oito anos como mandatário na pasta. Com isso, se torna o ministro mais longevo no posto no período democrático, ultrapassando o recorde anterior, de Pedro Malan, que ocupou o cargo entre 1º de janeiro de 1995 e 31 de dezembro de 2002 – e deixou a Fazenda a um dia de completar oito anos na pasta. Mantega, que não deve sair do governo antes do final deste ano, carregará o recorde por um bom tempo. E, se depender da avaliação do mercado, também ostentará outros títulos, como o de ministro mais antipático, ou o que mais traçou previsões erradas.

A gestão de Mantega teve início no final do primeiro mandato do ex-presidente Lula e se estende até hoje. Os últimos três anos na condução da economia, sob comando da presidente Dilma Rousseff, foram marcados por uma nociva mudança de estratégia. Criticado por abandonar o tripé econômico – formado pelas metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal -, Mantega passou a defender a chamada “nova matriz econômica”, que flexibilizou o controle inflacionário e colocou em segundo plano o superávit primário, que é a economia do governo para o pagamento dos juros da dívida. Além disso, também interveio no mercado de câmbio por meio do aumento de impostos sobre o capital estrangeiro. De imediato, o ministro recebeu fortes críticas, principalmente porque a nova ordem econômica colocava em risco a estabilidade conquistada a duras penas no final dos anos 1990.

Leia também:

Copom eleva Selic a 10,75% – mesmo patamar de quando Dilma assumiu

Para criadores do Real, Brasil vive ‘frustração econômica’

Sem Mantega, país recuperaria credibilidade, diz FT

Continua após a publicidade

Como resultado, o país foi alvo de inúmeras mudanças macroeconômicas que deveriam ocorrer de forma orgânica – e não por imposição. A Fazenda interferiu na política de juros do BC, influenciando a redução da taxa básica – a Selic, principal arma de combate à inflação – que chegou à mínima história de 7,25%, em outubro de 2012. Contudo, o feito foi alcançado sem que houvesse fundamentos econômicos que sustentassem a Selic em patamar tão baixo. A partir daí, houve uma escalada inflacionária cujo controle se mostra cada vez mais distante. Em abril de 2013, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estourou o teto da meta, de 6,5%, chegando a 6,59% no acumulado em doze meses.

Também não passou ilesa às críticas do mercado, com razão, a condução da política fiscal. No início desta semana, a agência de classificação de risco Standard and Poor’s precificou o descuido do Ministério da Fazenda com as metas de superávit primário e a falta de transparência nas contas públicas: a nota de crédito do país foi rebaixada de BBB para BBB-, ficando apenas um nível acima do grau de investimento. Mantega não foi o autor de todas as políticas heterodoxas que minaram a credibilidade do país. Um dos principais artífices foi o secretário do Tesouro, Arno Augustin, que, apesar de não ser ministro, teve autonomia para elaborar suas políticas com o aval direto da presidente Dilma. Contudo, a chancela às decisões de política fiscal de Augustin não ajudou Mantega a melhorar a própria imagem.

Passados três anos da adoção da “nova matriz econômica”, nem mesmo o governo acredita mais na própria estratégia. De 2013 para cá, a artilharia desenvolvimentista passou a ser desmontada: os impostos sobre a entrada de capital estrangeiro foram reduzidos e o Banco Central, mesmo que tardiamente, deu início a um ciclo de aperto monetário que tirou a Selic de sua mínima histórica para os atuais 10,75% ao ano, mesmo patamar de quando Dilma assumiu o poder.

Depois de as previsões econômicas falhas de Mantega virarem piada internacional, o ministro decidiu ceder e expor números um pouco mais próximos das estimativas de mercado. Em fevereiro, ele anunciou uma meta fiscal mais realista para 2014, de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB). A notícia foi bem recebida pelo mercado, mas não o suficiente para aliviar as críticas à sua gestão. Afinal, a inflação continua alta (5,68% em doze meses até fevereiro) e o crescimento fraco da economia ainda preocupa. O PIB mostrou um crescimento médio abaixo de 2% na gestão Dilma e, apesar de ter subido 2,3% no ano passado, não deve passar de 2% este ano – embora o governo ainda mantenha uma estimativa de 2,5%.

A história econômica brasileira é bastante tumultuada para que o atual ministro carregue o título de o menos competente. Contudo, é o único da história recente cuja demissão foi sugerida por dois dos principais veículos de comunicação do mundo: a revista The Economist e o jornal Financial Times.

O desempenho da economia nos oito anos de Mantega

Indicadores econômicos
Indicadores econômicos VEJA
Continua após a publicidade
Publicidade