Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Governos e empresas têm dois caminhos: a inovação ou a irrelevância

Para o primeiro-ministro dos Emirados Árabes, empresas deve ensinar aos governos que o segredo da eterna juventude é a inovação constante

Por Mohammed bin Rashid Al Maktoum - 22 fev 2015, 11h39

As empresas, assim como as pessoas, envelhecem. Elas começam a vida pequenas e ansiosas para sobreviver, abastecidas de energia juvenil e novas ideias. Elas competem, se expandem, amadurecem e eventualmente, com poucas exceções, se perdem na obscuridade. O mesmo vale para os governos: eles também podem perder a fome e a ambição da juventude e podem ficar complacentes.

Considere isto: apenas 11% das empresas da edição de 1955 da lista das 500 maiores empresas do mundo feita pela revista “Fortune” ainda existem hoje, enquanto o tempo médio que elas permanecem na lista das 500 caiu de 75 para 15 anos. Nesta época de rápidas mudanças, quem fica para trás se torna irrelevante – num piscar de olhos. Países cujos governos envelhecem enfrentam o mesmo destino de empresas desatualizadas. A escolha deles é simples: inovar ou tornar-se irrelevante.

A corrida por competitividade nacional é tão feroz quanto a competição entre as empresas no mercado. Os países competem por investimentos, talentos, crescimento e oportunidades em um mundo globalizado, e aqueles que são empurrados para fora da corrida renunciam ao maior prêmio de todos: desenvolvimento humano, prosperidade e felicidade para seu povo.

Para evitar esse destino, os governos devem concentrar-se no que realmente importa: ser como os 11% das empresas que se mantiveram, através das décadas, na lista das 500. O ciclo de vida das empresas deve ensinar aos governos que o segredo da eterna juventude é a inovação constante – aproveitando oportunidades e comportando-se como empresas dinâmicas e empreendedoras que estão definindo o mundo de hoje e moldando o seu futuro.

Publicidade

A chave para o rejuvenescimento das empresas, evolução de civilizações e desenvolvimento humano em geral é simples: inovação. Sempre me surpreendo quando os governos pensam que eles são uma exceção a essa regra. Inovação no governo não é um luxo intelectual, um tópico confinado a seminários e painéis de discussão ou uma questão apenas de reformas administrativas. É a receita para a sobrevivência humana e desenvolvimento, o combustível para o progresso constante e o projeto para a ascensão do país.

A primeira chave para inovação do tipo corporativa no governo é foco em competências. Empresas de alto nível continuamente investem em seus funcionários para proporcionar-lhes as competências adequadas para o mercado. Os governos devem fazer o mesmo, pela constante atualização de competências e incentivo à inovação – entre seus empregados, em todos os setores chaves da economia e as bases do sistema educacional. Os governos que falharem em equipar novas gerações com as habilidades necessárias para que elas se tornem líderes, por sua vez, estão condenando-os a serem liderados por outras sociedades mais inovadoras.

Um estudo do ministério do trabalho dos Estados Unidos descobriu que 65% das crianças atualmente no ensino fundamental crescerá para trabalhar em empregos que não existem hoje. Outro estudo da Universidade de Oxford descobriu que 47% de categorias de trabalho corre sério risco de deixar de existir porque as atividades podem ser automatizadas por meio da tecnologia.

Então, como podemos preparar nossos filhos e as gerações futuras para estes tempos? Como equipamos nossos países para competir, não só hoje, mas também nas próximas décadas? A resposta encontra-se em aperfeiçoar a criatividade dos nossos filhos e proporcionar a eles as habilidades de análise e comunicação necessárias para canalizá-la para fins produtivos.

Publicidade

Leia também:

Mahmoud Mohieldin: O imperativo da inclusão

Ricardo Hausmann: A economia da inclusão

A segunda chave para transformar os governos em motores de inovação está em alterar o equilíbrio de investimentos em direção aos bens intangíveis, como no setor privado. Considerando que mais de 80% do valor do índice 500 da Standard&Poor consistia em bens tangíveis há 40 anos, hoje essa proporção é invertida: mais de 80% do valor das maiores empresas é intangível – os conhecimentos e habilidades de seus empregados e a propriedade intelectual incorporadas a seus produtos.

Publicidade

Os governos também devem pensar estrategicamente sobre alocação de seus recursos não em infraestruturas tangíveis como estradas e edifícios, mas olhar na direção do intangível como educação, pesquisa e desenvolvimento.

Não é segredo que os EUA e a Europa juntos gastam mais de 250 bilhões de dólares de fundos públicos anualmente em pesquisa e desenvolvimento para manter suas posições de liderança. Da mesma forma, um motor essencial de rápido desenvolvimento em países como a Malásia, Cingapura e Coreia do Sul tem sido sua decisão estratégica de transferir as despesas públicas da infraestrutura técnica e em direção à infraestrutura pessoal necessária para construir e sustentar uma economia do conhecimento. Da mesma forma, o governo britânico gasta notavelmente a maior parte do seu orçamento em tais bens intangíveis e não em bens tangíveis.

Leia também:

Ricardo Haussmann: Em busca da convergência

Publicidade

Robert Skidelsky: Morte às máquinas?

A maioria das empresas transformadoras de hoje é conhecida por ter uma cultura corporativa inovadora e ambiente de trabalho que inspiram e capacitam os funcionários. Os governos que estabelecem um exemplo de inovação têm o poder de implantar uma cultura nacional de criatividade. Quando uma cultura se enraíza, as pessoas se sentem inspiradas para ir além com suas ideias, para alcançar ainda mais com suas ambições e ir atrás de sonhos maiores. É assim que países que incentivam a inovação assumem a liderança – e ficam por lá.

Para sustentar a inovação, as empresas devem atrair e reter as mentes mais criativas e produtivas. Nesta época de mobilidade global, os países também entram na batalha cabeça a cabeça pelo talento. As cidades globais competem para proporcionar uma vida ideal e ambiente de trabalho para pessoas inovadoras e aproveitar sua criatividade para se tornarem mais competitivas e mais fortes ainda.

Os governos inovadores fazem a mesma coisa em escala nacional. Eles atraem talentos, desempenham com eficiência e melhoram continuamente seus sistemas e serviços. Eles capacitam os cidadãos a cultivar sua energia coletiva e a desenvolver o seu potencial e assim tornarem-se os condutores do crescimento dos seus países e do avanço na arena mundial. Acima de tudo, eles valorizam mentes humanas e ajudam as pessoas a se tornarem melhores guardiões e construtores do nosso planeta.

Publicidade

Para os governos, a inovação é uma questão existencial. Somente aqueles que sustentam a inovação podem conduzir mudanças no mundo, porque eles são os governos que nunca envelhecem.

Mohammed bin Rashid Al Maktoum é vice-presidente e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos e governante de Dubai

Tradução: Roseli Honório

© Project Syndicate, 2015

Publicidade