Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

‘Governo argentino se nega a dialogar sobre a dívida’, diz gestor de ‘fundo abutre’

Em entrevista ao site de VEJA, Jay Newman, gestor da empresa de investimento credora da dívida argentina, afirma que vem tentando há 12 anos negociar com o governo do país; contudo, o diálogo, que era difícil, passou a ser inexistente ao longo da gestão Kirchner

Por Ana Clara Costa - 12 jul 2014, 15h06

A Argentina tem pouco mais de duas semanas para encontrar uma solução capaz de evitar o caos. O país está prestes a dar o calote nos detentores dos bônus de sua dívida, cujo vencimento é em 30 de julho. Entre os credores estão investidores pessoa física, empresas e fundos de investimento. O calote deixou de ser uma possibilidade remota para se tornar uma realidade palpável quando o juiz Thomas Griesa, da Suprema Corte dos Estados Unidos, condicionou o pagamento dos bônus a credores que aceitaram a reestruturação da dívida argentina (em 2005 e 2010) ao pagamento daqueles que não a aceitaram. Entre eles estão os chamados ‘fundos abutres’. O maior é o NML, da gestora Elliott Management. Segundo Jay Newman, gestor do fundo, os credores tentam há doze anos a renegociação da dívida com o governo argentino, sem que tenha havido espaço para diálogo. “Começamos a comprar o bônus da Argentina bem antes do default e tentamos negociar uma resolução justa. Afinal, nós também estamos devendo aos nossos investidores. A maior parte dos países resolve suas dívidas negociando e agindo de boa-fé. Argentina é a exceção”, disse Newman em entrevista ao site de VEJA.

Na sexta-feira, o ministro da Economia da Argentina, Axel Kicillof, reuniu-se pela segunda-vez, em Nova York, com o negociador designado pelo juiz Griesa para dialogar com o governo argentino, Daniel A. Pollack. Em nota, Pollack afirmou não ter chegado a nenhum acordo com o ministro. Segundo ele, os credores e o governo apresentaram propostas, mas não se encontraram. Diante do impasse que persiste, Newman afirma não estar completamente descrente. “Nós temos esperança, mas a verdade é que não há qualquer indício de que queiram mudar de ideia”, afirmou. Os chamados ‘fundos abutres’ querem receber o valor de integral pelos títulos adquiridos antes do default, enquanto a Argentina se nega a pagar qualquer valor por eles. O argumento do governo Kirchner é que, se o pagamento ocorrer, os demais credores que aceitaram a reestruturação da dívida (e possivelmente perderam dinheiro devido a isso) também queiram entrar na Justiça para receber o valor integral. Newman nega: “O caso da Argentina é único. Não há evidências que esse precedente possa valer”, diz. Confira trechos da entrevista.

Como foram as negociações com a Argentina ao longo da última década? Tentamos de várias formas fazer com que a Argentina mantivesse conosco uma relação de boa-fé. Em 2003, encontrei-me com Guillermo Nielsen, que era secretário das Finanças. O conselho que dei à época foi que a Argentina conseguiria ampliar o número de credores a favor da reestruturação da dívida se tivesse uma postura mais conciliadora e aberta ao longo das negociações. Mas Nielsen rejeitou o alerta e sua equipe colocou em prática uma oferta unilateral e sem qualquer acordo, em 2005. Na segunda oferta unilateral, nos encontramos com Hernán Lorenzino, que era o secretário das Finanças de então, e falamos sobre como poderíamos estruturar uma transação que fosse interessante para os credores que não haviam entrado na reestruturação anterior. Tivemos uma conversa cordial, mas ele nunca me deu uma resposta.

As conversas pioraram desde então? Ficaram mais complicadas. Muitas vezes, em 2011, eu e meus colegas chegamos a nos encontrar com Alfredo Chiaradía, então embaixador da Argentina nos Estados Unidos. Ele aceitava o encontro, mas sempre deixava claro que aquilo não era uma negociação, pois ele não estava autorizado a atuar neste campo, mas nós esperávamos que o bom relacionamento com ele pudesse, eventualmente, levar-nos a discussões mais profundas. Contudo, ele deixou seu posto naquele ano e seus sucessores não aceitaram nos ver. Já durante o processo na Corte, pedi aos advogados da Argentina que dissessem às autoridades que nós queríamos negociar, mas tampouco tivemos resposta.

Publicidade

Leia também:

Ao FT, ‘fundo abutre’ afirma que sequer foi procurado pela Argentina

Argentina cria comissão para negociar com ‘fundos abutres’

OEA aprova declaração de apoio à Argentina, mas EUA se abstêm

Publicidade

Mas o ministro da Economia Axel Kicillof foi aos Estados Unidos inúmeras vezes para tratar da questão. Sim. Inclusive, quando o senhor Kicillof veio discursar na Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmei publicamente que gostaria de encontrá-lo para negociar a qualquer hora e em qualquer lugar. Obviamente, ele não aceitou. Ainda não conseguimos qualquer contato com a Argentina e eles têm se recusado a negociar em qualquer aspecto dessa disputa. Esperamos que isso mude. Mas, infelizmente, o governo parece estar decidido a colocar o país à beira do calote.

Quando, exatamente, o governo argentino passou a ignorá-los? Nosso último encontro foi com o embaixador Chiaradía em 2011. Nada mais ocorreu depois disso.

Os fundos abutres são os principais credores dos bônus em default, atualmente? Fundos são, em geral, grandes credores, mas não os únicos. Por 12 anos, a Argentina deixou de pagar milhares de detentores de seus títulos em default, inclusive investidores individuais que estão sendo mostrados pela imprensa local. Há ainda milhares de aposentados e pensionistas da Itália que nunca foram pagos pelo país. Esses credores perderam uma boa parte de sua aposentadoria devido ao comportamento da Argentina e eles têm se mostrado muito agradecidos pelos esforços que nós temos feito para encontrar uma solução justa para o problema.

A Argentina se refere aos ‘abutres’ de forma bastante pejorativa. Como enxergam essa denominação? Não é a forma mais correta. O fundo Elliott tem uma boa reputação e faz a gestão de investimentos para fundos de pensão públicos e privados, fundos universitários e de hospitais, além de recursos de instituições de caridade. Também somos gestores de inúmeras famílias. Começamos a comprar o bônus da Argentina bem antes do default e tentamos negociar uma resolução justa. Afinal, nós também estamos devendo aos nossos investidores. A maior parte dos países resolve suas dívidas negociando e agindo de boa-fé. Argentina é a exceção.

Publicidade

A imprensa argentina tem aventado a possibilidade de o país pagar seus credores parcialmente em dinheiro, deixando o restante para ser pago com a emissão de novos títulos. Seria uma alternativa interessante para o senhor? Sim, certamente. A questão é que nós não tivemos nenhum contato com o governo e eles não colocaram nenhuma proposta na mesa.

Muitos analistas reconhecem como legítimo o direito dos credores de irem à Suprema Corte, mas criticam a decisão do juiz pelo fato de ela prejudicar o mercado de títulos de outros países com problemas fiscais. O senhor concorda? Não acho que exista qualquer evidência que mostre isso. A evidência que há é justamente o oposto: mostra que o comportamento da Argentina com os credores nos últimos dos anos tem sido singularmente desafiador, e não creio que vejamos um caso como esse novamente. Em sua decisão final sobre o caso, a Corte escreveu: ‘Trata-se de um caso excepcional e com pouca influência aparente sobre as transações que podem ser esperadas no futuro. Porque a Argentina tem sido um devedor recalcitrante, como quase nunca se viu’.

Algum outro credor já tentou usar a decisão da Corte como precedente para seu próprio processo? Houve uma tentativa de citar nosso caso como um precedente, mas falhou quando o juiz afirmou que a decisão sobre o nosso caso se referia somente à Argentina.

A negociação com a Argentina é muito diferente do que com outros países que entraram em default? Sim, é um caso único. Há um estudo da Moody’s que mostra que das 34 reestruturações de dívidas em 20 países nos últimos 15 anos, o caso da Argentina foi o único que resultou em litígio prolongado. O ingrediente que estava presente nas outras reestruturações e que não existe no caso da Argentina é diálogo construtivo com credores. Nós temos esperança de que eles aceitem negociar, mas a verdade é que não há qualquer indício de que queiram mudar de ideia.

Publicidade