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Globo reformula transmissão e uso de tecnologia para Olimpíada a distância

Com cerca de 50 dos quase 500 envolvidos in loco, emissora traz grandes nomes do esporte aos comentários e aposta no simbolismo histórico do evento

Por Larissa Quintino Atualizado em 6 jul 2021, 19h05 - Publicado em 6 jul 2021, 14h02

Fora da curva, do plano, do que se imaginava. O impacto do adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio, que seriam realizados no ano passado, levou a algo com essas características para a detentora dos direitos de transmissão. Um evento que envolve quatro anos de planejamento teve toda a sua estratégia de cobertura e comercialização refeita. Tanto que, apenas a partir janeiro deste ano, há pouco mais de seis meses dos Jogos, a Globo passou a apostar concretamente na realização do evento, frente a firmes sinalizações do Comitê Olímpico Internacional e do Comitê Organizador local no Japão, Mesmo que, em boa parte desse tempo, precisou remar sem o embarque do mercado publicitário. Segundo Joana Thimoteo, diretora de eventos de esportes na Globo, a solução para resolver um plano que envolve cerca de 500 profissionais na transmissão das Olimpíadas foi inovação e criatividade.

A emissora enviou 50 destas pessoas ao Japão, que começaram a desembarcar no último dia 3. A aposta é em trazer o Japão ao Brasil, com um estúdio cheio de tecnologia montado no Brasil que replicará a experiência de se estar em Tóquio, com a integração de imagens diretamente da sede do evento. Diante de todos os desafios, e no melhor estilo “home office” –com a maioria do elenco trabalhando a 12 horas de fuso e oceanos de distância do evento — a Globo vê Tóqui0 2020, versão 2021, com otimismo, talvez antecipando tendências que levariam anos para ficarem maduras. Em entrevista a VEJA, Joana afirma que essa é a oportunidade de ser mais multiplataforma, atrair o público jovem e de fazer parte de um momento histórico.  

A pandemia da Covid-19 adiou em um ano a realização dos Jogos Olímpicos. Como mudou a avaliação da Globo sobre Tóquio 2020? Nosso projeto original era estar lá, mas fomos adaptando. Os Jogos Olímpicos são a possibilidade de reunir os povos em um tempo tão difícil. Se, no caso de Tóquio, não será com a torcida, no entanto, teremos essa reunião dos povos representados pelos seus atletas. É um reencontro histórico, que vai selar muito dessa emoção, da resiliência. Nosso papel é fazer essa conexão. Nesse momento que a gente está vivendo, isso traz um sopro de esperança para quem está em casa. Estamos há mais de um ano só vivendo uma realidade de pessoas ficando doentes, morrendo, brigas políticas. Os Jogos trazem algo diferente e importante. Eles sempre são simbólicos e, neste caso, o simbolismo é tão grande que a gente nem consegue explicar. Talvez daqui alguns anos se tenha a dimensão disso. 

Joana Thimóteo, diretora de eventos de Esporte na Globo
Joana Thimóteo, diretora de eventos de esportes da Globo Globo/Divulgação

Como foi o desafio de planejar a cobertura de um grande evento com a incerteza trazida pela pandemia? Nós fazemos um planejamento muito longo para grandes eventos como os Jogos Olímpicos, exatamente para entender como a Globo, como empresa, quer tratar esse grande momento em todas as suas plataformas, qual a melhor estratégia. Nosso olhar era todo para 2020, e, quando nos deparamos com a pandemia, foi um desafio já que os eventos são todos planejados e a pandemia cria exatamente o oposto disso. Então, entre março e abril do ano passado, foi preciso mudar tudo. Primeiro, foi necessário pausar tudo e pensar o que iríamos fazer e se algum dia esse evento realmente iria acontecer. Naquele momento, não havia perspectiva de vacina, não havia uma visão de quais países sairiam melhor ou pior. O que aconteceu é que criamos um modelo em cima de alguns pilares: como fazer uma entrega bacana para a nossa audiência e garantir a segurança das nossas equipes. Contando essa história agora, parece algo simples, mas houve vários momentos que nós não sabíamos para onde correr. 

E qual foi a solução encontrada? No novo plano, optamos por trazer tudo que a gente poderia para o Brasil. E vamos conseguir fazer uma entrega profunda assim. Então, resolvemos mandar para Tóquio a equipe que busca o que acontece de diferente. São cerca de 50 pessoas, entre repórteres, produtores e repórteres cinematográficos. E, aí, veio a inovação de trazer para o Brasil o estúdio que a gente usa in loco nos grandes eventos. Não vou dizer para minha audiência em momento nenhum que estou em Tóquio, mas que Tóquio veio ao Brasil. Para isso, teremos auxílio virtual. Câmeras ao vivo de Tóquio dentro do estúdio o tempo inteiro, dando uma visão de 270 graus. A tecnologia nos permitiu que aumentássemos essa visão. Na Copa do Mundo da Rússia, por exemplo, o estúdio montado na Praça Vermelha em Moscou tinha uma visão de 180 graus. Nosso elenco todo fica aqui e também teremos um maior número de comentaristas, especialistas. 

Quais são os comentarias convidados para a transmissão dos jogos? Fechamos com o Bernardinho, a Taissa e a Fabizona, do vôlei. A gente trouxe também o Popó, do boxe, a Janeth, do basquete, o Bob Burnquist do skate, entre outros. 

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Aproveitando a citação ao Bob Burnquist, os Jogos de Tóquio marcam a estreia de novos esportes. Qual a importância da entrada do surf e do skate? Vocês planejam atingir uma audiência mais jovem com a transmissão dessas novas modalidades?  Para nós, esses esportes são muito importantes. Vamos conseguir nos comunicar com uma audiência que queremos falar cada vez mais. É um jeito de se aproximar e aproveitar para não falar apenas de maneira formal, esgotando o evento, mas de ter uma conversa do que a gente pretende com o esporte, do que a gente pretende enquanto sociedade através do esporte. 

Como você vê o envolvimento do mercado publicitário nos Jogos? A Globo começou a fazer a contagem de dias para o evento sozinha e ainda se vê pouco ‘barulho’ feito por marcas. Vocês estão remando por conta própria nesse espírito olímpico? A gente tem uma relação muito próxima com o mercado publicitário por causa desses eventos. No período pandêmico, com todas essas perguntas e dúvidas, houve um atraso em movimentos que talvez, num tempo normal, teriam acontecido de outra maneira. A Globo desde janeiro embarcou em Tóquio 2020. A gente tinha uma dúvida mesmo, como toda a sociedade, se esse evento ia acontecer. E em conversas próximas com o Comitê Olímpico Internacional e do comitê local japonês, a gente entendeu que sim, que eles iam levar a realização dos jogos ao limite. Então, quando houve uma promessa muito firme que as Olimpíadas aconteceriam, a gente descarregou. Mas concordo que o mercado não embarcou da mesma maneira, e acho legítimo. A dúvida era muito grande. A dúvida pairava, mas agora tem muita gente embarcando. Nosso projeto comercial andou muito e não seremos solitários nesta caminhada. 

Eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas sempre marcam inovações tecnológicas. Esses serão os Jogos Olímpicos mais multiplataformas da história? No Grupo Globo, sim. A gente tem uma oferta contratual muito grande na tevê aberta, são as duzentas horas de transmissão, com o SporTV propondo e oferecendo quatro canais com tudo do mais importante acontecendo ao vivo, além dos programas especiais. E o Sportv está fazendo uma oferta dentro da plataforma digital, o GloboPlay mais canais, de mais 45 sinais de canais ao vivo. O Globoplay vai agregar tudo da Globo e do SporTV. Então, respondendo sua pergunta, sim, nós nunca fomos tão multiplataforma quanto estamos sendo. Nem na concepção, nem no planejamento e nem na entrega. Talvez esse seja o grande marco desses Jogos para nós. 

Além das 50 pessoas que foram ao Japão, quantos profissionais estão envolvidos na cobertura dos Jogos Olímpicos da Globo? Entre 400 e 500 pessoas envolvidas diretamente na transmissão. Nós, da equipe de esportes da Globo, somos mais de 700 no país. Tirando a Olimpíada, tem um outro grupo que continuará fazendo futebol, já que o calendário de competições não parará por causa do olímpico.

Sobre as pessoas que foram ao Japão, qual o protocolo de segurança? Elas foram vacinadas? A sociedade japonesa estava bem contrária aos Jogos então o COI decidiu vacinar todas as pessoas credenciadas. Para cada vacinado, o COI doou duas vacinas para a população brasileira. As pessoas da nossa equipe, assim como toda a mídia e todos os credenciados, como equipe técnica dos atletas, foram vacinados. E nós, além do protocolo do COI e do comitê organizador, resolvemos fazer um nosso. Quem foi viajar cumpriu uma quarentena de sete dias no Brasil e mais 14 dias no Japão. Além disso, há um protocolo de testagem e estamos com médicos e o sistema de saúde prontos para auxílio. Estamos levando o menor número de pessoas para poder dar assistência total e absoluta. E aqui também. Estamos trabalhando com o maior número de pessoas que a gente pode, mas vamos ter um boom com os Jogos Olímpicos. Então, temos um protocolo bem detalhado de cuidados porque a prioridade é esse cuidado com as nossas equipes. 

Qual a expectativa da Globo sobre essas Olimpíadas, no que diz respeito ao desempenho dos atletas brasileiros? Acho que será uma surpresa, mas estou bem otimista. A vida do atleta é toda cronometrada e o adiamento prejudica muito. Se o atleta treinou para que seu ápice fosse agosto de 2020, então será que em agosto de 2021 ele vai conseguir estar no ápice? Muito por causa dessa confusão, acho que o Brasil tem boas chances e podemos ser muito bem representados por medalhas. Acredito muito nos novos esportes, o skate e o surf, e no vôlei, que é já é tradicional nosso. Temos nomes no judô, o futebol masculino com uma equipe forte. E há também grandes nomes individuais, o Bruno Fratus na natação, Martine e Kahena na vela, a Ana Marcela na maratona aquática. Acredito que vai ser muito emocionante. É um marco histórico mesmo. 

As Paralimpíadas terão cobertura do Grupo Globo? O SporTV vai ser a casa das Paralimpíadas e a Globo também deve transmitir alguma coisa. A gente entende que estamos vivendo um momento importante de pluralidade, de diversidade e a Paralimpíada é muito representativa nesse sentido. Então, vamos mergulhar nessa cobertura também.

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