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Gestão brasileira no Burger King e na Ambev conquista Buffett

A eficiência da trupe de Lemann chamou a atenção do bilionário de Omaha e viabilizou a aquisição da Heinz

Por Ana Clara Costa 14 fev 2013, 18h59
Warren Buffett, presidente do conselho de administração
da Berkshire Hathaway
Warren Buffett, presidente do conselho de administração
da Berkshire Hathaway VEJA

A proposta de aquisição da empresa de alimentos Heinz (famosa no Brasil por seu catchup) pelo bilionário Warren Buffett e pela empresa de investimentos brasileira 3G Capital surpreendeu o mercado na manhã desta quinta-feira, quando todos os olhares estavam voltados para a fusão entre a American Airlines e a US Airways – anunciada, praticamente, ao mesmo tempo. Mas a surpresa não ocorreu em consequência do anúncio em si, já que a Heinz era uma espécie de “noiva da vez” do setor de alimentos e bebidas. O fato novo e curioso é a parceria entre Buffett e a 3G, fundada pelo trio de empresários controladores da Ambev – Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Trata-se de um negócio da ordem de 28 bilhões de dólares, o maior do ano e o quarto maior da história do setor de alimentos e bebidas, segundo a Thomson Reuters.

O valor é mais que o dobro daquele estimado na negociação de fusão das companhias aéreas – que ficará em torno de 11 bilhões de dólares e criará a maior empresa mundial do setor de aviação. Trata-se do maior negócio de Warren Buffett desde a aquisição da ferrovia Burlington Northern Santa Fe por mais de 25 bilhões de dólares, em que o empresário atuou sozinho. Essa, aliás, é uma característica de Buffett. Em raras ocasiões o bilionário se uniu a uma outra empresa para fazer uma aquisição. Por essa razão, a sociedade com a 3G se torna emblemática. É uma espécie de chancela à gestão do trio, que adquiriu, em 2010, a rede de fast food Burger King por 3,3 bilhões de dólares. “A 3G não é novidade para o Buffet. Eles se conhecem há muito tempo e o Buffet acompanhou o que eles fizeram com a Ambev e, mais recentemente, com o Burger King”, afirma Flavio Sznajder, sócio da gestora Bogari Capital, sediada no Rio de Janeiro.

Lemann e Buffet, de fato, são velhos conhecidos. Ambos eram acionistas e membros do conselho de administração da Gillette, antes de a empresa ser adquirida pela Procter & Gamble, em 2003. O bilionário norte-americano contou à rede CNBC, nesta quinta-feira, que Lemann iniciou as conversas sobre a aquisição. “Jorge Paulo Lemann falou comigo sobre isso no começo de dezembro, quando estávamos no avião. E eu ouvi. Eu tenho um relatório sobre a Heinz desde 1980. Mas foi ele que me colocou nesse negócio no começo de dezembro”, afirmou o megainvestidor, enquanto explicava alguns detalhes da transação. “Sabe, esse é o meu tipo de negócio e o meu tipo de sócio”, disse Buffett.

De acordo com os detalhes divulgados nesta quinta, a 3G assumirá a gestão da Heinz – empresa amplamente conhecida por sua ineficiência. O blog de gestão do jornal The Wall Street Journal publicou um artigo, nesta tarde, questionando se a Heinz receberá “o tratamento brasileiro” típico do trio de empresários. “Orçamento zero, fechamento de fábricas e controle de gastos fizeram da InBev uma cervejaria com reputação de extrema eficiência”, afirmou a publicação, referindo-se à AB-Inbev, a multinacional controladora da Ambev, da qual Lemann, Telles e Sicupira são acionistas. “Será interessante ver se o Sr. Lemann vai conseguir dar o ‘toque brasileiro’ à Heinz”, diz o artigo.

O modelo de gestão criado por Jorge Paulo Lemann foi inspirado no do banco Goldman Sachs e ganhou fama nos tempos que o empresário fundou o banco Garantia, na década de 1980. Quando a instituição foi vendida, Lemann levou seu modelo para as empresas que comprou, como a própria Ambev. Ele é baseado em três pilares essenciais: estrutura de trabalho extremamente enxuta, eficiência operacional e meritocracia.

Diante do êxito obtido pela 3G na gestão do Burger King – a rede, assim como a Heinz, estava altamente endividada quando foi adquirida -, poucas são as vozes dissonantes sobre a capacidade da 3G em transformar a Heinz em exemplo de eficiência e produtividade. “A 3G é brilhante e tem feito sempre a coisa certa, de forma consistente e dentro das regras de mercado”, diz Luiz Galeazzi, da consultoria de gestão Galeazzi & Associados.

Especialistas do mercado acreditam que, depois de melhorar a gestão da empresa, a 3G deverá, no futuro, vendê-la para o próprio Buffett ou fazer uma emissão acionária em bolsa – estratégia comum para fundos de private equity. “A 3G é uma firma muito discreta, que só ficou conhecida depois da aquisição do Burger King. Ela tem a mesma filosofia de atuação do Buffett. É a típica companhia que ele gosta de ter ao lado”, diz o analista da Economist Intelligence Unit (EIU), Steven Leslie.

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